Finisterra
,
LX
(
129
), 202
5
,
e37711
ISSN: 0430
-
5027
doi: 10.18055/
37711
Artigo
Published under the terms and conditions of an Attribution
-
NonCommercial
-
NoDerivatives 4.0 International license.
ASPIRAÇÕES DE MIGRAÇÃO OU DE IMOBILIDADE ENTRE JOVENS DE ORIGEM
CHINESA:
REGRESSAR, REMIGRAR OU PERMANECER
S
OFIA
G
ASPAR
1
R
ENATA
C
ARONE
1
RESUMO
–
Este artigo analisa as
aspirações de jovens descendentes de origem chinesa no que respeita a
possíveis percursos futuros de migração ou imobilidade geográfica. Para tal, examinamos de que forma essas aspirações
antecipam algum tipo de mobilidade de regresso, remigração ou perma
nência em Portugal. O enquadramento teórico
centra
-
se no conceito de aspirações, entendido como um projeto futuro de mobilidade (ou imobilidade), que integra o
mapa mental destes indivíduos. A metodologia baseia
-
se na análise de 26 entrevistas semiestrutur
adas a jovens de
origem chinesa, entre os 16 e os 35 anos, residentes em Portugal. Os resultados revelam que as suas aspirações de
mobilidade futura são diversas, integrando projetos de imobilidade (permanência em Portugal), de regresso ao país de
origem d
os pais (China) ou de remigração para outro país (geralmente dentro da União Europeia). Na parte final do
artigo, discute
-
se a importância de considerar a confluência de aspirações instrumentais e intrínsecas, tanto nos
projetos de migração como nos de per
manência, nos percursos de vida de jovens de origem imigrante.
Palavras
-
chave:
A
spirações
,
imigração, jovens, descendentes de imigrantes, população chinesa.
ABSTRACT
–
MIGRATION OR IMMOBILITY ASPIRATIONS AMONG YOUNG PEOPLE OF CHINESE DESCENT:
RETURNING,
REMIGRATING OR REMAINING
.
This article analyses the aspirations of young people of Chinese descent
regarding future geographic mobility or immobility. It examines how these aspirations may anticipate return migration,
onward migration, or the intention to
remain in Portugal. The theoretical framework focuses on the concept of
aspirations, understood as a future project of (im)mobility, which forms part of these individuals’ mental maps. The
methodology is based on the analysis of 26 semi
-
structured intervi
ews with young people of Chinese origin, aged
between 16 and 35, residing in Portugal. The findings reveal a diversity of future mobility aspirations, including projects
of immobility (remaining in Portugal), return to their parents’ country of origin (Chi
na), or remigration to another
country (usually within the European Union). The final section discusses the importance of considering the interplay
between instrumental and intrinsic aspirations in both migration and immobility projects in the life traject
ories of
young people of immigrant origin.
Keywords
:
Aspirations
, immigration, young people, descendants of immigrants, Chinese people.
HIGHLIGHTS
Jovens chineses em Portugal projetam mobilidade, regresso ou permanência.
Aspirações futuras combinam
motivações instrumentais e intrínsecas.
Regresso à China ou remigração ocorrem por razões profissionais e afetivas.
Permanência deve
-
se a laços familiares, oportunidades e qualidade de vida.
Recebido: 2
3
/0
9
/202
4
. Aceite:
01
/
06
/202
4
.
Publicado:
21
/0
7
/2025.
1
Centro de Investigação e Estudos de Sociologia
,
Instituto
Universitário de Lisboa (ISCTE
-
IUL)
,
Avenida das For
ç
as Armadas, nº40,
1649
-
026, Lisboa, Portugal.
E
-
mail:
sofia.gaspar@iscte
-
iul.pt
,
renata_rodrigues_carone@iscte
-
iul.pt
Gaspar, S., Carone, R
.
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2
1.
INTRODUÇÃO
Apesar da policrise a que temos assistido nos últim
os anos
–
pandemia do Covid
-
19, a crise da
inflação da União Europeia, a guerra na Ucrânia, e a recente escalada de violência entre Israel e a
Palestina, a Europa continua a ser um dos destinos principais para os imigrantes transnacionais,
sobretudo de Áfr
ica e da Ásia (
McAuliffe & Oucho
, 2024). A forma como o fenómeno da imigração tem
adquirido contornos significativos no século XXI, exige que o seu estudo se centre (entre outras
temáticas), nas decisões de permanência ou de imigração futuras (aspirações)
dos imigrantes já
estabelecidos em países de acolhimento, mas que são tal como os cidadãos nacionais, confrontados
com diferentes conjunturas.
No caso de Portugal, país já há várias décadas consolidado como destino
(Góis,
2021)
, urge
compreender quais são
as aspirações migratórias (ou não migratórias) não só daqueles imigrantes que
aí
vivem e permanecem, como também dos seus descendentes que cá cresceram e foram educados.
Entre os vários contingentes nacionais existentes, os cidadãos originários da China, h
á muito
estabelecidos no país (Gaspar, 2017), contam atualmente com um grupo expressivo de descendentes
de imigrantes que decidem seguir ou não com os projetos empresariais dos seus pais (uma das
primeiras gerações estrangeiras empreendedoras), a) permanec
endo em Portugal (Gaspar, 2018); b)
enveredando por imigrar para outros países (sobretudo dentro do espaço europeu) ou então c)
retornando à China.
Neste contexto, o objetivo deste artigo é analisar quais são as aspirações (geográficas) futuras
dos
descendentes de origem chinesa a residir em Portugal. A possibilidade de construir ou não a sua
vida num país distinto de Portugal, revela, em parte, o seu nível de integração social e os seus planos
educativos e profissionais num contexto transnacional, q
ue englobe não só a China, mas também
outros países fora ou dentro do espaço europeu. Este artigo inicia
-
se
com um enquadramento teórico
sobre a importância do conceito das aspirações no contexto migratório, seguido de uma análise
conceptual de três tipos
de migração mais representativos deste grupo de jovens (
Gaspar &
Carone
,
2023). Após esta contextualização teórica, centramo
-
nos no que sabemos sobre os jovens de origem
chinesa em Portugal e noutros países, de modo a enquadrar este grupo social no nosso q
uadro
analítico. Segue
-
se uma secção metodológica, onde para além da explicação dos métodos e técnicas
adotados, incluímos uma caracterização sociodemográfica dos nossos
26
entrevistados. Em seguida,
apresentamos os resultados, focando
-
nos em três tipos de
aspirações distintas, projetadas para o
futuro por parte destes jovens: imobilidade, regresso e remigração. Na conclusão,
refletimos sobre
a
necessidade de se desenvolver futuras linhas de investigação no âmbito das aspirações migratórias, e
repensar de q
ue forma as diferentes perspetivas de vida futuras são estruturadas por imaginários
geográficos, emocionais, e simbólicos distintos entre os jovens descendentes de imigrantes.
2.
ENQUADRAMENTO TEÓRICO
2.1.
A construção do futuro através das aspirações de
migração
As aspirações têm constituído um fenómeno quase ausente, até há pouco tempo, no campo das
migrações (Boccagni, 2017; Wu, 2022). Contudo, nos últimos anos, vários quadros analíticos
procuraram responder quais são os motivos que levam os indivíduos
a imigrar, remigrar ou a
permanecer no local onde nasceram (Carling, 2002; Carling & Collins, 2018;
D
e Haas, 2021). Algumas
destas perspetivas consideram não só as motivações estruturais e sociais que motivam a migração,
mas também a ação individual do ag
ente, a sua capacidade de fazer escolhas independentes e de agir
em consonância, e consequentemente alterar essas mesmas estruturas que determinam as suas
oportunidades enquanto indivíduos. Neste âmbito, por exemplo, Koikkalainen e Kyke (2016)
argumentam c
omo o processo migratório deveria começar a ser estudado antes da imigração ocorrer,
isto é, antes da deslocação geográfica do indivíduo de um local de origem para um local de destino.
Segundo os autores, a ‘migração cognitiva’, ou seja, a narração imaginá
ria e prospetiva de um indivíduo
(emic) a viver num local estrangeiro antes da sua futura mobilidade física, condiciona as ações que irá
desenvolver para o seu percurso migratório.
Neste artigo iremos recorrer a um marco conceptual e analítico centrado na
perspetiva de dois
autores, Carling (2002) e
D
e Haas (2021). Carling (2002) define o conceito de ‘aspirações’ como
projetos individuais futuros de migração ou de imobilidade que fazem parte do mapa mental
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prospetivo e imaginado de um indivíduo. Em articula
ção com este conceito,
D
e
Haas (2021
) defende
que o conceito de ‘mobilidade’ se refere ao facto de a imigração ser o resultado das capacidades e
aspirações de um indivíduo dentro de várias estruturas de oportunidades geográficas. Segundo este
autor, as asp
irações aludem à liberdade (capacidade) de um indivíduo escolher onde viver, incluindo
a opção de ‘ficar’, isto é, a capacidade de escolher a imobilidade
(quadro I)
.
Com isto, as categorias "mobilidade voluntária" e "imobilidade voluntária" aplicam
-
se apen
as a
pessoas que têm a capacidade de migrar, mas que também têm uma opção razoável de permanecer
(sendo que o termo "razoável" implica que isso não as colocaria em situações perigosas, de grande
exploração ou de risco de vida), e para as quais a decisão de
partir ou não, é principalmente afetada
pelas suas aspirações (instrumentais ou intrínsecas) de migração.
Em oposição, a “imobilidade involuntária” refere
-
se aos indivíduos que desejam, mas não
têm
a
capacidade de migrar (Carling, 2002
)
, permanecendo inv
oluntariamente no local onde vivem. Neste
sentido, o ‘processo de decisão para a imigração’ diz respeito ao processo durante o qual os indivíduos
tomam uma decisão depois de terem ponderado racionalmente os prós e os contras dos motivos para
imigrar. Um el
emento de análise fundamental neste processo de decisão é a dimensão temporal, uma
vez que o indivíduo poderá, ao longo do tempo, manter ou mudar a sua decisão.
No mesmo quadrante
,
junta
-
se a
categoria que articula ‘aspirações’ com ‘capacidades’ é a
“mobil
idade involuntária” (
D
e Haas, 2021). Neste caso, os imigrantes que podem ser classificados
como "migrantes de regresso voluntário" pelos governos ou organizações internacionais, podem estar
apenas "dispostos" a regressar, não por um desejo real e intrínsec
o de o fazer, mas porque não têm
acesso a equipamentos sociais e abrigo ou porque correm o risco de serem presos, sofrerem violência
e outros abusos (como a separação dos filhos) nos países de destino. Nestas situações de extrema
angústia e pressão, os mig
rantes podem, eventualmente, decidir regressar e ser obrigados a assinar
formulários que confirmam o consentimento para o seu "repatriamento voluntário", mesmo que tal
seja contrário às suas preferências ou desejos intrínsecos. Boersema
et al
. (2014) refer
iram
-
se a esta
categoria como "deportação suave". Mesmo que esses migrantes não sejam literalmente forçados a
deslocar
-
se (ou seja, por meios violentos através da deportação), podem sentir
-
se compelidos a fazê
-
lo, mesmo que isso seja fortemente contrário a
o seu próprio desejo intrínseco.
O quadro seguinte resume cada um destes tipos de mobilidade/capacidade segundo a
perspetiva de
D
e Haas (2021):
Quadro I
–
Aspirações e capacidades na imigração
.
Table I
–
Aspirations and capabilities in migration.
Capacidade nas migrações
Baixa
Alta
Aspirações nas
migrações
(Intrínseca e/ou
instrumental)
Alta
Imobilidade
involuntária
(´sentir
-
se preso´)
Mobilidade
voluntária
(maior parte das formas
de imigração)
Baixa
Imobilidade
aquiescente
Imobilidade
voluntária
e
Mobilidade
involuntária
(refugiados, ‘deportação
suave’)
Fonte: De Haas (2021, p. 22)
Uma última categoria a ter em conta refere
-
se às pessoas com poucas capacidades e aspirações
de deslocação. Como podemos classificar uma pessoa que vive na pobreza e que não tem capacidade
para migrar nem nunca se imaginou a fazê
-
lo? Com base na ideia de q
ue as capacidades afetam as
aspirações, podemos referir que esse indivíduo está privado da capacidade de aspirar, bem como da
capacidade de se deslocar. Isto levanta a questão filosófica de saber até que ponto podemos chamar a
esta forma de imobilidade "vo
luntária". Por conseguinte, Schewel (2020) propôs a categoria de
“imobilidade aquiescente” para descrever situações em que as pessoas não são capazes de migrar nem
desejam fazê
-
lo.
A
autor
a
argumentou que, pelo facto
de o
conceito "aquiescente" implicar um
a
aceitação de constrangimentos (as origens latinas da palavra significam "permanecer em repouso"),
este pode ser um termo apropriado para descrever esta categoria de mobilidade. No entanto, é
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evidente que é necessária mais investigação sobre a formação de
aspirações de mudança ou de
permanência e sobre como as decisões de permanência podem, de facto, ser vistas como
"aquiescentes" ou, pelo contrário, refletir uma racionalização
post
-
hoc
da restrição à mobilidade.
Por fim,
D
e Haas (2021) distingue ainda dua
s dimensões das aspirações no decurso do percurso
migratório: uma dimensão instrumental, isto é, a estratégia de natureza funcional e utilitária para
alcançar um fim (migração laboral, mobilidade internacional de estudantes); e uma dimensão
intrínseca que
remete ao valor subjetivo que um indivíduo atribui à sua experiência migratória,
afetando diretamente o seu bem
-
estar pessoal (ex: migração por estilo de vida, reunificação familiar,
gap years
, etc.).
2.2.
Aspirações futuras: desejo de regressar, reemigrar ou
permanecer
O projeto de aspiração de (i)migração no futuro poderá assumir diversos tipos. Tendo presente
uma análise prévia exploratória (
Gaspar & Carone
, 2023), pretende
-
se agora clarificar quais os tipos
de migração que poderão advir das aspirações que
fazem parte do mapa mental dos indivíduos. Em
primeiro lugar, a migração poderá ser de
regresso
, isto é, aquela migração designada para definir,
sobretudo, os projetos migratórios de retorno dos imigrantes da primeira geração ao seu país de
origem. Contudo
, este conceito de ‘regresso’ foi ampliado, num texto já clássico, por King e Christou
(2008), que o redefiniram como parte da ‘migração de retorno contra
-
diaspórica’, para referir
-
se à
relocalização dos descendentes de imigrantes no país de origem dos seu
s pais. Com efeito, e como
referem os autores, alguns destes descendentes (aqueles que nasceram no país de acolhimento da
primeira geração), não são imigrantes, e esta ideia de ‘retorno’ deveria ser designada por ‘emigração
para o país de origem dos pais’.
Apesar das potencialidades deste conceito, neste artigo iremos não só
utilizar a proposta de King e Christou (2008) para incluir aqueles jovens que pretendem regressar ao
país dos pais; mas também o conceito de ‘imigração de retorno’ (ou de regresso) para
identificarmos
as aspirações daqueles jovens descendentes que, tendo nascido num outro país e imigrado para
Portugal, desejam um dia mais tarde regressar (primeira geração de retorno).
Num artigo mais recente,
Masdeu Torruella
(20
20)
analisa como os descendentes de imigrantes
chineses em Espanha pretendem retornar ao país dos seus pais para empreenderem uma trajetória de
mobilidade social ascendente. Com efeito, o transnacionalism
o das redes de contacto sociais
e a
perceção que cidades
como Pequim ou Shangai oferecem melhores condições laborais do que a
Europa, é em parte, o motivo impulsionador para as suas intenções de regresso.
Um outro tipo de migração que se pode igualmente relacionar com as aspirações futuras é a
remigração, isto
é, o processo através do qual os indivíduos saem do seu país de origem, estabelecem
-
se num segundo país por um tempo determinado, e mais tarde remigram para um terceiro país, fora
do espaço da União Europeia. Este percurso migratório contraria a perspetiva
de uma mobilidade
unidirecional de um país de origem para um país de destino, abrindo a possibilidade de trajetórias
migratórias para um terceiro ou mais países. Alguns autores (Ramos, 2017) têm
-
se referido a este
processo como ‘migração progressiva’ (onw
ard migration), isto é, a possibilidade de um indivíduo,
após estar instalado por um tempo num país de destino, remigrar para um outro que inicialmente não
tinha previsto ou contemplado.
Com base em estudos anteriores (Gaspar
& Carone
, 2023), a ‘escolha’
por um destes tipos de
migração no caso de jovens de origem imigrante é determinada por vários fatores no país de
acolhimento. Segundo as autoras, o tempo de permanência em Portugal (o caso que aqui
consideramos), a idade de chegada ao país ou, então, o n
ascimento no país de destino dos pais, a
atividade profissional atual e o seu grau de estabilidade, e as expetativas profissionais futuras, poderão
condicionar um tipo de migração que se enquadra num destes dois tipos descritos, ou em alternativa,
na perma
nência (imobilidade) no país de residência.
2.3.
Aspirações de migração futuras de jovens de origem chinesa: o que sabemos
Apesar da imigração chinesa para Portugal estar inserida no padrão de mobilidade do Sul da
Europa (Rodrigues, 2018), esta pode, no enta
nto, ser considerada um caso distinto (Gaspar, 2017).
Com base em laços coloniais e fatores económicos e políticos específicos, podem identificar
-
se três
grupos de imigrantes chineses. O primeiro fluxo (1975
-
1999) era constituído por indivíduos de origem
c
hinesa moçambicana e macaense, que entraram no país devido à sua posição política nas antigas
colónias portuguesas (Moçambique e Macau). No início da década de 2000, surgiu um novo fluxo
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migratório, de migrantes económicos, integrado na mesma tendência de
migração não qualificada que
caracterizou outros países do Sul da Europa.
R
ecentemente, a partir de 2012, começaram a imigrar
cidadãos de origem chinesa para implementar empresas ou investir no país, através de programas
como os
Vistos Gold
(
Gaspar &
Ampud
ia de Haro &
, 2020; Gaspar, 2017). A maioria dos imigrantes
chineses em Portugal está concentrada nas áreas de Lisboa e Porto, onde estabeleceram comunidades
e negócios empresariais. Muitos deles trabalham nos sectores da restauração e do comércio de retal
ho,
enquanto outros gerem os seus próprios negócios, como supermercados, armazéns e empresas de
importação e exportação.
Atualmente, e de acordo com os dados mais recentes (2022), a comunidade chinesa residente
em Portugal era de 22
000 indivíduos, deixand
o de estar entre as
dez
principais nacionalidades
estrangeiras mais representadas no paí
s
. De acordo com o último Recenseamento Geral da População
(2021), a maioria dos jovens chineses residentes no país possui entre 15
-
24 anos (61,1%) enquanto a
faixa etá
ria entre 25
-
29 anos representa 38,9%. Estes números mostram a importância da presença
de jovens entre os imigrantes chineses comparativamente a um grupo com idades superiores,
apontando para a necessidade de conhecermos a sua situação social, educativa, p
rofissional, e
sobretudo, as suas aspirações futuras de imigração ou de permanência em Portugal.
Relativamente ao que sabemos sobre as aspirações dos imigrantes chineses em contexto
migratório, os estudos existentes baseiam
-
se, sobretudo, na primeira gera
ção de imigrantes (Migali &
Scipioni, 2019; Rodrigues, 2018), apesar de haver dados mais recentes sobre a segunda geração
(
Sprong, & Devitt, 2022
, 2022). Com efeito, a análise das aspirações futuras tem sido quase ausente
nas investigações que se centram
nos trajetos migratórios desta comunidade (Marsden, 2014;
Rodrigues, 2018), sobretudo dentro do contexto europeu, e mais especificamente entre a segunda
geração (algumas exceções são Gaspar & Mathias, 2023; Masdeu
Torruella
, 2020; Wu, 2022).
O trabalho de
natureza qualitativa de Barata (2020) que analisa as aspirações dos pais de jovens
de origem chinesa para o futuro dos seus filhos é, não obstante, uma inovação. Segundo o autor, alguns
progenitores motivam os seus descendentes a prosseguir para o ensino
superior em outros países fora
de Portugal (sobretudo em Inglaterra ou em outros países do
n
orte da União Europeia), uma vez que
tais países são percecionados como locais privilegiados e que podem oferecer credenciais e
competências mais valorizadas no mer
cado profissional. Neste sentido, vários destes pais valorizam
escolas privadas e internacionais, onde o ensino é transmitido em língua inglesa, não incentivando os
filhos a seguir o negócio de família (frequentemente no caso dos pequenos empresários), mas
sim a
ter o se
u próprio negócio e estudar algo
que lhes garanta estabilidade financeira. Estas aspirações dos
pais face aos seus filhos vão ao encontro da perspetiva de Rodrigues (2018) de que o desejo de
prosperidade, modernização e consumo por
p
arte dos migrantes chineses
correspondem a
um projeto
mais vasto de "indigenização da modernidade" (Sahlins, 1999), caraterizado por uma pressão social
para ser rico e bem
-
sucedido, mas também pela consciência de que existem desigualdades económicas
cada v
ez mais prementes, e que a educação é uma via para combatê
-
las.
Neste contexto, é central ampliar a investigação de aspirações futuras não naquilo que os pais
projetam para os seus filhos, mas sim no que os descendentes de origem chinesa aspiram para os s
eus
trajetos de vida futuros
–
de migração ou de imobilidade.
Estas aspirações deverão, contudo, ser
integradas num modelo
de análise mais amplo, que inclua as várias transições para a idade adulta de
que os jovens são sujeitos. É neste sentido que
Roberts
on
et al.
(201
7
) propõem a adoção de uma
perspetiva de ‘transições de mobilidade’ no estudo da (i)mobilidade transnacional da juventude.
Para
as autoras, a
conceptualização da noção ‘transições’
no plural, indica a necessidade de se entender
as
aspirações
e a mobilidade como algo contingente,
plural e fragmentado durante o percurso de vida.
Este artigo tem um duplo objetivo.
Em primeiro lugar, identificar quais
as
aspiraç
ões
de
migração ou de permanência em Portugal de jovens d
escendentes de origem chinesa;
e,
em segundo
lugar, analisar de que forma as aspirações de migração antecipam algum tipo
de
mobilidade de
regresso, remigração, ou de permanência em Portugal. Neste contexto, é importante desde já
mencionar, que estes três tipos de migrações não pretende
m alcançar a representatividade das
aspirações entre os jovens de origem chinesa, mas sim, captar a diversidade de aspirações baseadas
no seu significado sociológico e simbólico.
Neste sentido,
e seguindo a
defini
ção
de aspirações
proposta
por
Carling
(
200
2
)
como uma orientação para um futuro desejado, quer a curto quer a longo prazo,
e
envolvendo tanto uma dimensão afetiva (intrínseca) como material (instrumental), procuramos neste
artigo
articular este
conceito
de aspirações com
diferentes
tipos de
(i)mobilidades antecipadas por
jovens de origem chinesa a residir em Portugal.
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6
3.
METODOLOGIA
A metodologia utilizada neste estudo é de natureza qualitativa. Foram realizadas 26 entrevistas
semiestruturadas com jovens de origem chinesa residentes em Lisboa, Sintra e Odivelas, entre os 16 e
os 35 anos, dos quais 19 eram mulheres e
sete
eram homens.
Entre os participantes, 15 nasceram na
China e imigraram para Portugal durante a primeira infância ou adolescência
(com idade média de
chegada ao país de 12 anos)
, enquanto os restantes 11 nasceram em Portugal e, salvo algum caso
concreto, sempre viveram n
o país. Dos jovens entrevistados,
oito
encontravam
-
se a frequentar a escola
secundária,
oito
o ensino superior e
dez
já estavam inseridos no mercado de trabalho.
A idade média
dos entrevistados no momento da entrevista era de 22 anos, isso porque a maioria
deles frequentavam
na época o ensino superior e o mercado de trabalho (18 jovens) e a minoria estava no ensino
secundário (8). A maioria ainda vive com os pais (19), apenas
sete
vivem sozinhos ou com outras
pessoas (cônjuge, colegas, primos, etc
.
), sendo a quase totalidade solteiros (26) e apenas
uma
pessoa
entrevistada é casada e tem filhos.
Em relação à escolaridade dos pais,
seis
possuem pelo menos um
familiar (pai ou mãe) com ensino superior completo;
dez
com ensino secundário completo;
seis
c
om
ensino básico completo; e
quatro
casos não quiseram dar informações.
A identificação dos potenciais entrevistados decorreu segundo a técnica de bola
-
de
-
neve,
mediante contactos já estabelecidos no passado com informantes privilegiados (associações de
i
migrantes, igrejas, escolas) e onde a frequência destes jovens era regular. É importante destacar aqui
a existência de diferentes trajetos migratórios nas suas vidas, e que determinaram, em parte, a escolha
da sua inclusão no grupo a entrevistar. Apesar de
vários deles terem nascido em Portugal e de não
terem tido, contrariamente aos seus pais, uma experiência migratória prévia; outros viveram a sua
infância e adolescência entre Portugal e a China; e ainda outros tiveram experiências de vida em outros
paíse
s antes de imigrarem para Portugal. Entre os casos apresentados, a maioria dos jovens são
descendentes de imigrantes económicos/laborais (proprietários de lojas e restaurantes) e em dois
casos os pais obtiveram a residência em Portugal através do programa
de
Vistos Gold
.
Depois do primeiro contacto com potenciais entrevistados, procedeu
-
se à obtenção do
consentimento informado para a realização, gravação e transcrição da entrevista. As línguas das
entrevistas foram a língua portuguesa (no caso de 21 joven
s entrevistados) e chinesa (5
entrevistados), utilizado por uma colaboradora do projeto que possui fluência e competências em
mandarim. Estas entrevistas decorreram entre 2021
-
22, com duração
de
uma a duas
horas e foram
realizadas
na sua maioria pela plata
forma
Z
oom
, e em locais da preferência dos entrevistados onde
estes se sentiam mais confortáveis: universidades, cafés, locais de trabalho, entre outros.
O guião utilizado nas entrevistas baseia
-
se em pesquisas anteriores (Seabra
et al
., 2016) e possui
um
a série de dimensões analíticas referentes à integração social de jovens de origem imigrante em
Portugal
: trajetória migratória familiar; trajetória escolar e profissional; domínio da língua; redes de
sociabilidade; processos de estigmatização e discrimina
ção; e aspirações e expectativas futuras.
Relativamente a esta última dimensão, os jovens foram questionados quanto à sua potencial
mobilidade e imobilidade.
Após a transcrição
das entrevistas
, procedeu
-
se à sua análise de conteúdo,
segundo as temáticas an
alíticas identificadas anteriormente.
4.
DISTINTAS ASPIRAÇÕES DOS JOVENS DE ORIGEM CHINESA
4.1.
Aspirações de regresso à China
Entre os jovens entrevistados, um grupo importante refere ter aspirações de retornar à China
no futuro, apesar de indicarem uma certa ambivalência entre ‘o ficar cá ou lá’. É o caso da entrevistada
24, nascida na China e imigrada em Portugal desde os 12 an
os. A família de origem pertence a um
grupo de imigrantes económicos, que procuraram em Portugal a sua ‘fortuna’ (Rodrigues, 2018),
abrindo negócios empreendedores como lojas de venda a retalho ou restaurantes (Gaspar, 2018). No
caso desta entrevistada, a
mãe não terminou o ensino básico, e o pai estudou até ao equivalente ao 9º
ano na China. A família vive numa cidade
média
em Portugal, onde ela estuda no ensino secundário,
tendo optado pelo ensino profissional. Após terminar os estudos, ingressou numa uni
versidade
pública, onde se licenciou na área das ciências sociais. Atualmente
,
encontra
-
se a realizar um mestrado
nesta área de estudo. Quando pensa no futuro, refere, com alguma ambivalência que,
Gaspar, S., Carone, R.
Finisterra,
LX
(12
9
), 202
5
, e
37711
7
Queria voltar para a China porque sou mais sensível a ler a
s coisas em chinês e acho que
a vida na China é mais o que eu quero. Mas tenho a certeza que quando eu voltar para a
China, vou ter muitas saudades daqui.
Porque eu acho que Portugal é muito lento. É
muito calmo, mas ao mesmo tempo... não é muito interessa
nte. Não há muita coisa para
fazer aqui
.
(Entrevistada 24)
Esta jovem insere
-
se numa primeira geração de retorno uma vez que desenvolveu parte
importante da sua vida escolar na China, o que fez com que a sua identidade e sentimento de pertença
se identifi
quem com aquele país. Assim, este caso não se inclui no que
King e
Christou
(2008)
designaram por ‘migração contra
-
diaspórica’. Com efeito, as suas ‘raízes’ identificam
-
se com a China,
tendo a sua competência em mandarim desempenhado um papel fundamental n
o reforço desse mapa
futuro de retorno.
Um outro caso semelhante é o de uma outra jovem (entrevistada 25) de 16 anos, nascida em
Portugal, mas tendo apenas vivido um ano no país, e tendo após esta idade ido viver na China com os
avós. Esta jovem
permaneceu na China até aos 13 anos, quando regressou novamente a Portugal. Uma
vez cá, por dificuldades na língua, repetiu o 4º ano, apesar de já ter idade para frequentar o 8º.
Atualmente
,
estuda arte num colégio numa cidade próxima de Lisboa, e aspira e
studar no futuro o
curso de animação para apresentar a “cultura da China ao mundo”, pois, segundo refere, “há muitas
pessoas que têm uma opinião contra a China, (…) mas não conhecem como a China realmente é”.
Quando inquirida sobre as suas aspirações de mi
gração futura, explica como reparte o seu tempo entre
a aprendizagem de conteúdos e competências ensinados na escola portuguesa e outras competências
sobre a China ensinadas por via
remota:
“ao
mesmo tempo que frequento o ensino secundário aqui em
Portugal
, estou também a frequentar aulas
online
em chinês, história, geografia, matemática e inglês”.
No futuro, tem
interesse em retornar à China para estudar numa universidade em Pequim
,
tal como
explica,
“d
entro de 10 anos, estarei provavelmente a fazer animaç
ão porque toda a gente já me
conhec
e”.
Como podemos observar, o regresso à China, em ambos casos, é condicionada pela capacidade
de levar a cabo a imigração, assim como determinada por motivações tanto intrínsecas (
na China tinha
mais
atividades e
divertimentos, tinha muitos lugares para ir)
como instrumentais (ingressar na
universidade e prosseguir a carreira profissional no país, dado haver mais oportunidades) (
D
e Haas,
2021). Nestes dois casos estamos perante ‘mobilidades voluntárias’, sendo a C
hina entendida como
um local onde estas jovens poderão ascender socialmente (Masdeu
Torruella
, 20
20)
. Ambas as
socializações d
e
infância e d
e
adolescência foram realizadas no país de origem dos seus pais,
influenciando em parte os seus valores, comportamen
tos, e afetos perante o país. É nesta perspetiva
que
King e
Christou
(2008, p.
17) referem que “a segunda geração procura um lugar de descanso final
contra a sua ansiedade existencial relativa à ambiguidade onde pertencem. Como relatariam vários
dos nossos entrevistados, em paralelo ao estudo de
King e
Christou
(2008, p. 7):
Estou f
inalmente em casa, onde pertenço... o ciclo está encerrado”. Por outras palavras,
o retorno do exílio é alimentado pela nostalgia da estabilidade e coerência imaginadas
de tempos e lugares passados: o plano é realocar o eu deslocado de alguma forma em
um t
empo e lugar anteriores e mais autênticos.
Por outro lado, as motivações instrumentais que influenciam estas jovens a considerarem a
China como um local de retorno, vão de encontro a estudos prévios (Masdeu
Torruella
, 20
20
) onde a
procura por melhores con
dições de vida (sobretudo profissionais) é privilegiada, mais além de desejos
de ‘realidades imaginadas’ ou ligações emocionais ancestrais ao país de origem (
King &
Christou
,
2008).
4.2.
Aspirações de remigrar
A intenção dos jovens que declararam querer remigrar no futuro (no caso daqueles que
nasceram na China
e imigraram para Portugal), ou i
migrar para outro país (no caso daqueles que
nasceram em Portugal), decorre, fundamentalmente, de motivações instrumentai
s (
D
e Haas, 2021),
isto é, a procura de melhores condições profissionais, melhores salários, inserção em empresas
multinacionais com uma maior capacidade de mobilidade profissional, ou a procura por um ambiente
mais cosmopolita.
Gaspar, S., Carone, R
.
Finisterra,
LX
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),
202
5
, e
37711
8
Este é justamente o perfil
do entrevistado 21, com
16 anos e chegado a Portugal com 12. A sua
família pertence à classe média, é proveniente do Sul da China, e procurou
neste país
melhores
condições de vida. O entrevistado está inscrito no 11º ano numa escola privada perto de Lisboa
, e teve
aulas de Português como Língua Não Materna (PLNM) durante 3 anos. Contudo, devido à idade tardia
de chegada a Portugal, tem sentido dificuldade em acompanhar os colegas nas aulas de “português
normal”. Os pais são professores, mas nenhum deles t
e
m
profissões nessa área (“
a minha mãe não faz
nada, ela só cuida de nós dois
”) e o pai
encontra
-
se em teletrabalho (“
penso que se chama
middleman”
,
como explica referindo
-
se ao trabalho do pai). Ele diz que a convivência com a mãe é difícil, que
pretende es
tudar ciências numa universidade pública em Lisboa, e futuramente, trabalhar na
Apple
ou
Google nos Estados Unidos ou Inglaterra, porque em Portugal existem menos oportunidades. Acha que
sua vida não será parecida com a dos pais porque o pai não vivenciou
uma experiência migratória
enquanto jovem, como ocorreu com ele:
[
Daqui
a
dez anos] já terminei a universidade e já estou a trabalhar, já são vinte e seis
anos, talvez já saí de Portugal, porque em Portugal existe menos oportunidade de
trabalhar… e digo um trabalho numa empresa normal, vivendo como cidadão normal…
Pode ser na
América, pode ser, Inglaterra, pode ser os países maiores, pronto… não
estou a dizer que Portugal é um país pequeno, mas pronto, as empresas não são tão
grandes
. (Entrevistado 21)
Uma outr
a participante (entrevistada 9)
tem 21 anos, nasceu em Portugal e é
filha de pais
chineses provenientes da província de Zhejiang. Inicialmente, os pais imigraram para França,
estiveram lá uns anos, tendo imigrado posteriormente para Portugal, uma vez que já cá tinham
familiares. O seu irmão mais velho nasceu na China, veio
para Portugal com 12/13 anos, mas não se
adaptou porque sofreu
bullying
na escola, e foi viver
para
França com familiares. Os seus pais
completaram o ensino secundário na China, e atualmente têm uma loja no Alentejo. Esta entrevistada
relata a existência
de uma barreira linguística com os pais, que não falam bem português e, ao mesmo
tempo, considera que ela própria não fala bem chinês (estudou a língua em Portugal durante 10 anos).
Estudou no ensino secundário, inicialmente em Lisboa, e depois mudou
-
se, e
studando no Alentejo
onde os pais atualmente vivem. Mais tarde, regressou a Lisboa para ingressar na universidade na área
de engenharia, e atualmente faz um mestrado numa universidade pública, também em Lisboa. Quando
terminar o mestrado pretende trabalhar
numa consultoria. Sempre foi dedicada aos estudos e os seus
pais acompanhavam
-
na mais “à distância”. Como ela refere, desde o 5º ano até ao final da licenciatura
foi quase sempre a única estudante de origem chinesa nas suas turmas, tendo sofrido episódios
de
bullying
e discriminação étnica. Por esse motivo, no futuro, não pensa em viver cá porque diz não
querer que seus filhos passem pelo mesmo que ela passou. Entretanto, deseja ter a mesma coragem
que os pais tiveram ao imigrar para outro país, e ir futur
amente possivelmente para a Holanda. Como
ela própria explica
,
Espero estar a trabalhar na minha área e, sinceramente, não espero estar a trabalhar
em Portugal… Porque daqui a 10 anos terei 31 anos, e quero começar uma
família
...honestamente
, não gostaria
que os meus filhos passassem pelo mesmo que eu,
por isso não gostaria de estar a criar uma família aqui em Portugal. Eu sei isso... por
outras palavras, Portugal não é muito diverso, por isso ainda há muito racismo aqui e
eu sei que... bem, como eu disse,
eu tenho uma família na Holanda, e eu sei que eles são
muito mais abertos lá
.
E gostava de criar família num país em que aceitassem mais
outras culturas, por isso se eu começar já a trabalhar noutro país vai ser mais fácil
depois de construir família lá e
depois obviamente que procuro melhores condições
financeiras e em Portugal neste momento não estão a dar as melhores condições para
os jovens e sei que nos outros países eles valorizam muito mais.
(Entrevistada 9)
Os motivos apontados quanto às suas aspirações de futuro passam, assim, por uma remigração
devido a motivações tanto intrínsecas (não querer educar os filhos num país onde sofreu
discriminação étnica e
bullying
), como instrumentais (encontrar melhores cond
ições de vida do que
existem em Portugal), sendo elevada a capacidade que tem para levar a cabo essa imigração futura
(mobilidade voluntária).
No caso específico desta entrevistada, a
sua
motivaç
ão
intrínseca, isto é, o
valor subjetivo atribuído ao destino
prospetivo da imigração
(Holanda)
, ganha sentido devido à sua
necessidade de escapar
de
contextos
de discriminação
é
tni
c
a e
de orig
e
m
nacional
(Portugal)
. Com
efeito,
e
stas motivações para remigrar têm sido designadas na literatura por ‘etnicidade reativa’
Gaspar, S., Carone, R.
Finisterra,
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9
(Portes & Rumbaut 2001), isto é, quando os imigrantes ou os seus descendentes se sentem rejeitados
pelo país de residência, tendem a estar mais ligados às suas comunid
ades étnicas de origem.
E
studos
anteriores (França
et
al
., 2024; Gaspar, 2018), revelaram a ocorrência de vários episódios de
microagressões ou de discriminação étnica explícita face a cidadãos de origem chinesa ou asiática em
Portugal, tanto durante a cri
se sanitária do COVID
-
19 (França
et al.
, 2024) como antes da pandemia
(Gaspar, 2018). De igual modo, no contexto francês, Caron (2020) verificou que os descendentes de
imigrantes chineses que tinham nascido em França, revelavam aspirações mais elevadas de
remigração ou retorno à China motivadas pela sua perceção de racismo na sociedade francesa.
4.3.
ASPIRAÇÕES DE PERMANECER EM PORTUGAL
Tal como sucede com as aspirações de remigrar ou de retornar à China, os jovens que não
pretendem emigrar, mas sim
permanecer
em Portugal, revelam fazê
-
lo por motivações intrínsecas
–
ficar próximo da sua família e amigos.
Esta
motivaç
ão
de permanecer devido a
relações afetivas
interge
ne
racionais
,
isto é, devido à existência de
redes
familiares
e de amizade,
tem sido
i
dentificada
em estudos anteriores como um forte incentivo à imobilidade
dos jovens
(
Holdsworth, 2013;
Schewel
&
Fransen
, 2022)
.
Por outro lado, para alguns entrevistados, o desejo de continuar o negócio dos pais é uma razão
importante para permanecer no país (motivações instrumentais), já que assumir o controlo do negócio
da família impõe
-
se como uma obrigação à qual alguns destes
jovens sentem o dever de cumprir
(motivações intrínsecas)
. Querer abrir um negócio distinto, a título pessoal ou com amigos, é outra das
estratégias adotadas para continuar a trabalhar por conta própria, sem ter de passar por uma potencial
precariedade no
mercado de trabalho português (Gaspar, 2019), tal como, aliás, foi igualmente
assinalado em outros países (Yiu, 2013). Neste sentido, as futuras aspirações são a permanência em
Portugal, onde muitos entrevistados nasceram ou cresceram e formaram redes afe
tivas e profissionais.
Com efeito
,
e tal como em estudos anteriores (Silva, 2025),
a existência de oportunidades
educativas e
laborais
desempenha um papel fundamental na imobilidade destes jovens.
É o caso do entrevistado 11, com 20 anos, nascido em Portug
al e cuja família é proveniente da
região de Zhejiang, sendo por isso
, enquadrados como
imigrantes económicos. Estudou o ensino
secundário numa escola privada perto de Lisboa na área de Ciência e Tecnologia, por opção dos pais,
que
“
gostavam que eu
conhecesse pessoas mais de média gama pelo menos (…) foi a principal razão
que queriam que eu mudasse para uma privada
”
. Começou a licenciatura numa universidade de Lisboa,
mas desistiu no final do primeiro semestre
,
“
aquilo não era para mim.... era
m
muita
s maquetes e não...
não gostava daquilo
”
.
E
mudou para uma universidade privada para o curso de Gestão
,
“
a escola em si
não é uma das melhores, mas o que é bom é as pessoas que conheces lá
”.
Esta decisão, influenciada pelos pais, em inscrever
-
se numa lice
nciatura que lhe possibilitasse
acesso a um trabalho bem remunerado e sem riscos de precaridade, vai de encontro ao estudo de Wu
(2022). Segundo o autor, os descendentes de imigrantes chineses socializados num ambiente de classe
trabalhadora ou média baixa
, tendem a internalizar uma hierarquia de profissões, que lhes permita
perspetivar como serão aqueles percursos profissionais de maior ou menor sucesso.
As aspirações deste participante inscrevem
-
se no que
D
e Haas (
2021
) designou por ‘imobilidade
voluntária’, uma vez que pretende viver em Portugal, continuar os negócios dos pais (loja a retalho e
alojamento local), e ter seu próprio negócio com os amigos. Como ele próprio explica quando lhe
perguntamos como se vê no futuro,
Com uma família já e um
pouco mais rico [risos]. Honestamente, acho que é isso. Ah, em
Portugal, sim. Portugal. Imagino tudo em Portugal. Acho que vou construir o meu futuro
em Portugal. Os meus pais querem que eu faça um mestrado. Eu tenho as notas para
isso, mas não sei se que
ro fazê
-
lo porque acho que prefiro começar a ganhar dinheiro
imediatamente. Em outras palavras, o que eu quero fazer? Tenho amigos que pensam
como eu e... Quer dizer, tenho um grupo de pessoas e vamos fazer algo juntos. Essa é
uma das minhas ideias. E a se
gunda ideia, além disso, é continuar o negócio dos meus
pais. Eu queria fazer as duas coisas ao mesmo tempo porque eu sei... Quero assumir o
negócio dos meus pais porque é inevitável, ou seja, mesmo que eu não quisesse, tinha
de o fazer e os meus pais já m
e estão a dar essa responsabilidade.
(Entrevistado 11)
Gaspar, S., Carone, R
.
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Outro ponto a destacar no caso desse jovem é a questão linguística. O jovem menciona a
importância de vizinhos portugueses que ajudaram a família inclusive facilitando a aprendizagem da
língua portugu
esa pela sua mãe
:
e
foi aí que eles começaram a ensinar a minha mãe... sempre que a minha mãe não sabia
o que dizer perguntava e eles diziam qual é que seria a melhor palavra. (…) Todos os
chineses que eu conheço que sabem falar português, eles sentem
-
se integrados. Todos
os
que falam mais ou menos, eles não se sentem integrados. É isso
…
(Entrevistado 11)
Por outro lado, um outro motivo intrínseco (
D
e Haas
, 2021) que determina as aspirações futuras
destes jovens é a qualidade de vida em Portugal; motivo este, aliás, igualmente reportado em estudos
anteriores por cidadãos chineses pertencentes à classe média alta e estabelecidos em Portugal através
dos
Visto
s Gold
(Beck & Gaspar, 2024)
. Com efeito, o equilíbrio entre o trabalho, a família e a vida
pessoal, são assumidos como valores pós
-
materialistas que estruturam a vida destes jovens, assim
como as suas aspirações de emigrar ou não.
O próximo discurso de
uma entrevistada que veio para Portugal na adolescência e fez no país
todo o seu percurso escolar e universitário, ilustra bem esta questão:
e
u penso que vou escolher ficar em Portugal. Na situação atual, e porque posso ir para
três sítios, o estilo de vid
a é o mais adequado, nem é rápido nem lento… E o custo de
vida também é o melhor... Os adolescentes e as crianças podem estudar aqui… Também
é possível criar uma empresa pequena… Talvez faça isso, não sei… Neste momento, só
penso que terei que ter tempo pa
ra trabalhar, tempo para a família e tempo para mim
mesm
a
.
(Entrevistada 17)
5.
CONCLUSÕES
Este artigo analisa as aspirações de migração ou permanência futura de jovens de origem
chinesa a viver em Portugal. Como mencionámos no início, a análise das aspira
ções na migração é
extremamente importante, uma vez que permite antever as intenções dos indivíduos e as estratégias
que potencialmente estes desenvolverão para levar a cabo essa mobilidade. Se este é um tema já
explorado entre algumas comunidades de imigr
antes de primeira geração, existem poucos estudos a
abordar as aspirações futuras nos jovens descendentes. Por este motivo, este artigo é uma contribuição
nesse âmbito, nomeadamente, entre os jovens de origem chinesa que nasceram ou cresceram em
Portugal.
Os resultados obtidos através de uma análise temática do discurso dos entrevistados, vão no
sentido daqueles já mencionados em estudos prévios (
Wang & Chen
, 2021; Wu, 2022). Com efeito,
verificámos que no caso destes jovens, as aspirações de migração não p
odem ser entendidas como um
processo de duas etapas que conduz ou não à imigração, mas sim como um processo emocional e
instrumental contínuo, sujeito a ruturas, frustrações e redefinições
durante o seu percurso de vida e
transições para a vida adulta
(
Robertson
et al
., 201
7
)
. Como tal, este artigo reforça a ideia de que as
aspirações na migração fazem parte de um processo em transformação constante, sendo fundamental
incluir uma dimensão temporal e conting
ente
no modo como os indivíduos expressam e enqu
adram
as suas memórias passadas, e perspetivam o seu futuro
(Robertson
et
al
.
,
201
7
;
Silva, 2025).
No caso dos jovens adolescentes e jovens adultos aqui entrevistados, devido à fase da vida em
que se encontram, os seus relatos revelam justamente a existênc
ia de aspirações fluídas e indefinidas
quanto ao seu futuro. Se alguns têm uma convicção forte sobre onde aspiram viver, estudar ou
trabalhar, muitos outros estão indecisos. Por este motivo, é fundamental incluir nesta dimensão
temporal a perspetiva
interg
eneracional
na abordagem das aspirações, uma vez que
, tal como estudos
anteriores já demonstraram (
Robertson
et al
.,
201
7
;
Silva, 2025
),
o momento da trajetória individual
em que um indivíduo se encontra determina, necessariamente, as suas aspirações presentes e futuras.
Com efeito, a adoção de uma perspetiva de percurso de vida
permite clarificar a dinâmica entre a
agência
individual do j
ovem em permanecer ou imigrar
tendo em
consideração a sua etapa de vida.
Por outro lado, e retomando as dimensões do marco teórico desenvolvido por Hein
De
Haas
(2021), observámos que entre os nossos entrevistados existe uma confluência de aspirações de
mi
gração instrumentais (relacionadas com posições profissionais melhores, mais bem pagas e mais
estáveis) e intrínsecas (essencialmente relacionadas com o local onde a família de origem e alargada
Gaspar, S., Carone, R.
Finisterra,
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11
se encontra a viver, melhor qualidade de vida, equilíbrio ent
re vida privada
-
profissional). Estas duas
dimensões moldam, de forma clara, as aspirações destes jovens permanecerem ou não em Portugal.
Relativamente à forma como estas aspirações conformam diferentes tipos de migração
–
regresso, remigração
–
ou permanên
cia, entre os jovens entrevistados a migração intraeuropeia (para
outro país da União
Europeia
) é algo mais projetado para o seu futuro. Do mesmo modo, a remigração
(emigração para um outro país fora da União Europeia) é algo menos desejado. E por fim, a
permanência em Portugal é uma possibilidade bastante assinalada, tanto por aqueles que nasceram
no país como aqueles que nasceram na China.
Estudos futuros sobre esta temática poderão incluir uma linha de análise fundamental e que
aqui não foi explorada. C
om efeito, alguns autores (Wu, 2022) propõem uma abordagem das
aspirações de migração tendo em conta uma temporalidade fluída,
com
o registo de momentos bem
definidos
–
antes da migração, durante o processo migratório e após a migração. De facto, o nosso
o
bjetivo neste artigo foi desenvolver aquilo que Koikkalainen e Kyke (2016) designam por ‘migração
cognitiva’, ou seja, as aspirações de mobilidade futura antes mesmo de estas ocorrerem. A análise das
aspirações, expectativas, e transformação das emoções pr
ojetadas no futuro, são condicionadas por
dimensões estruturais (por exemplo, condições de acesso ao país de destino, sistema de integração
social, aprendizagem da língua do país de destino, facilidade em obter emprego no mercado de
trabalho) e pessoais (n
ecessidade de estar perto da família e dos amigos), que podem sofrer
modificações ao longo do processo migratório. Esta temporalidade é fundamental ser identificada e
entendid
a
em investigações futur
a
s, sobretudo, nos estudos de jovens de origem imigrante.
AGRADECIMENTOS
Este artigo baseia
-
se numa investigação no âmbito do projeto
Trajetória escolar, académica e
profissional de jovens brasileiros, ucranianos e chineses
,
(Refª
PT/2020/FAMI/517), financiado pelo
Programa Nacional do Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI), no âmbito do Quadro
Financeiro Plurianual (QFP) 2014
-
2020.
As autoras agradecem os comentários dos três revisores a uma
versão inicial deste arti
go, que ajudaram a repensar várias questões de uma forma muito construtiva.
CONTRIBUTOS DAS AUTORAS
Sofia Gaspar
: Conceptualização; Metodologia; Validação; Análise formal; Escrita
–
preparação do esboço
original, Redação
–
revisão e edição; Supervisão; Administração do projeto; Aquisição de financiamento.
Renata Carone
: Metodologia; Software; Validação; Análise form
al; Investigação; Redação
–
revisão e
edição; Visualização.
ORCID
Sofia Gaspar
https://orcid.org/0000
-
0003
-
0002
-
6246
Renata Carone
https://o
rcid.org/0000
-
0003
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4960
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