Finisterra , LX ( 129 ), 202 5 , e37711 ISSN: 0430 - 5027 doi: 10.18055/ 37711 Artigo Published under the terms and conditions of an Attribution - NonCommercial - NoDerivatives 4.0 International license. ASPIRAÇÕES DE MIGRAÇÃO OU DE IMOBILIDADE ENTRE JOVENS DE ORIGEM CHINESA: REGRESSAR, REMIGRAR OU PERMANECER S OFIA G ASPAR 1 R ENATA C ARONE 1 RESUMO Este artigo analisa as aspirações de jovens descendentes de origem chinesa no que respeita a possíveis percursos futuros de migração ou imobilidade geográfica. Para tal, examinamos de que forma essas aspirações antecipam algum tipo de mobilidade de regresso, remigração ou perma nência em Portugal. O enquadramento teórico centra - se no conceito de aspirações, entendido como um projeto futuro de mobilidade (ou imobilidade), que integra o mapa mental destes indivíduos. A metodologia baseia - se na análise de 26 entrevistas semiestrutur adas a jovens de origem chinesa, entre os 16 e os 35 anos, residentes em Portugal. Os resultados revelam que as suas aspirações de mobilidade futura são diversas, integrando projetos de imobilidade (permanência em Portugal), de regresso ao país de origem d os pais (China) ou de remigração para outro país (geralmente dentro da União Europeia). Na parte final do artigo, discute - se a importância de considerar a confluência de aspirações instrumentais e intrínsecas, tanto nos projetos de migração como nos de per manência, nos percursos de vida de jovens de origem imigrante. Palavras - chave: A spirações , imigração, jovens, descendentes de imigrantes, população chinesa. ABSTRACT MIGRATION OR IMMOBILITY ASPIRATIONS AMONG YOUNG PEOPLE OF CHINESE DESCENT: RETURNING, REMIGRATING OR REMAINING . This article analyses the aspirations of young people of Chinese descent regarding future geographic mobility or immobility. It examines how these aspirations may anticipate return migration, onward migration, or the intention to remain in Portugal. The theoretical framework focuses on the concept of aspirations, understood as a future project of (im)mobility, which forms part of these individuals’ mental maps. The methodology is based on the analysis of 26 semi - structured intervi ews with young people of Chinese origin, aged between 16 and 35, residing in Portugal. The findings reveal a diversity of future mobility aspirations, including projects of immobility (remaining in Portugal), return to their parents’ country of origin (Chi na), or remigration to another country (usually within the European Union). The final section discusses the importance of considering the interplay between instrumental and intrinsic aspirations in both migration and immobility projects in the life traject ories of young people of immigrant origin. Keywords : Aspirations , immigration, young people, descendants of immigrants, Chinese people. HIGHLIGHTS Jovens chineses em Portugal projetam mobilidade, regresso ou permanência. Aspirações futuras combinam motivações instrumentais e intrínsecas. Regresso à China ou remigração ocorrem por razões profissionais e afetivas. Permanência deve - se a laços familiares, oportunidades e qualidade de vida. Recebido: 2 3 /0 9 /202 4 . Aceite: 01 / 06 /202 4 . Publicado: 21 /0 7 /2025. 1 Centro de Investigação e Estudos de Sociologia , Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE - IUL) , Avenida das For as Armadas, nº40, 1649 - 026, Lisboa, Portugal. E - mail: sofia.gaspar@iscte - iul.pt , renata_rodrigues_carone@iscte - iul.pt
Gaspar, S., Carone, R . Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 2 1. INTRODUÇÃO Apesar da policrise a que temos assistido nos últim os anos pandemia do Covid - 19, a crise da inflação da União Europeia, a guerra na Ucrânia, e a recente escalada de violência entre Israel e a Palestina, a Europa continua a ser um dos destinos principais para os imigrantes transnacionais, sobretudo de Áfr ica e da Ásia ( McAuliffe & Oucho , 2024). A forma como o fenómeno da imigração tem adquirido contornos significativos no século XXI, exige que o seu estudo se centre (entre outras temáticas), nas decisões de permanência ou de imigração futuras (aspirações) dos imigrantes já estabelecidos em países de acolhimento, mas que são tal como os cidadãos nacionais, confrontados com diferentes conjunturas. No caso de Portugal, país já há várias décadas consolidado como destino (Góis, 2021) , urge compreender quais são as aspirações migratórias (ou não migratórias) não só daqueles imigrantes que vivem e permanecem, como também dos seus descendentes que cá cresceram e foram educados. Entre os vários contingentes nacionais existentes, os cidadãos originários da China, h á muito estabelecidos no país (Gaspar, 2017), contam atualmente com um grupo expressivo de descendentes de imigrantes que decidem seguir ou não com os projetos empresariais dos seus pais (uma das primeiras gerações estrangeiras empreendedoras), a) permanec endo em Portugal (Gaspar, 2018); b) enveredando por imigrar para outros países (sobretudo dentro do espaço europeu) ou então c) retornando à China. Neste contexto, o objetivo deste artigo é analisar quais são as aspirações (geográficas) futuras dos descendentes de origem chinesa a residir em Portugal. A possibilidade de construir ou não a sua vida num país distinto de Portugal, revela, em parte, o seu nível de integração social e os seus planos educativos e profissionais num contexto transnacional, q ue englobe não só a China, mas também outros países fora ou dentro do espaço europeu. Este artigo inicia - se com um enquadramento teórico sobre a importância do conceito das aspirações no contexto migratório, seguido de uma análise conceptual de três tipos de migração mais representativos deste grupo de jovens ( Gaspar & Carone , 2023). Após esta contextualização teórica, centramo - nos no que sabemos sobre os jovens de origem chinesa em Portugal e noutros países, de modo a enquadrar este grupo social no nosso q uadro analítico. Segue - se uma secção metodológica, onde para além da explicação dos métodos e técnicas adotados, incluímos uma caracterização sociodemográfica dos nossos 26 entrevistados. Em seguida, apresentamos os resultados, focando - nos em três tipos de aspirações distintas, projetadas para o futuro por parte destes jovens: imobilidade, regresso e remigração. Na conclusão, refletimos sobre a necessidade de se desenvolver futuras linhas de investigação no âmbito das aspirações migratórias, e repensar de q ue forma as diferentes perspetivas de vida futuras são estruturadas por imaginários geográficos, emocionais, e simbólicos distintos entre os jovens descendentes de imigrantes. 2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO 2.1. A construção do futuro através das aspirações de migração As aspirações têm constituído um fenómeno quase ausente, até há pouco tempo, no campo das migrações (Boccagni, 2017; Wu, 2022). Contudo, nos últimos anos, vários quadros analíticos procuraram responder quais são os motivos que levam os indivíduos a imigrar, remigrar ou a permanecer no local onde nasceram (Carling, 2002; Carling & Collins, 2018; D e Haas, 2021). Algumas destas perspetivas consideram não só as motivações estruturais e sociais que motivam a migração, mas também a ação individual do ag ente, a sua capacidade de fazer escolhas independentes e de agir em consonância, e consequentemente alterar essas mesmas estruturas que determinam as suas oportunidades enquanto indivíduos. Neste âmbito, por exemplo, Koikkalainen e Kyke (2016) argumentam c omo o processo migratório deveria começar a ser estudado antes da imigração ocorrer, isto é, antes da deslocação geográfica do indivíduo de um local de origem para um local de destino. Segundo os autores, a ‘migração cognitiva’, ou seja, a narração imaginá ria e prospetiva de um indivíduo (emic) a viver num local estrangeiro antes da sua futura mobilidade física, condiciona as ações que irá desenvolver para o seu percurso migratório. Neste artigo iremos recorrer a um marco conceptual e analítico centrado na perspetiva de dois autores, Carling (2002) e D e Haas (2021). Carling (2002) define o conceito de ‘aspirações’ como projetos individuais futuros de migração ou de imobilidade que fazem parte do mapa mental
Gaspar, S., Carone, R. Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 3 prospetivo e imaginado de um indivíduo. Em articula ção com este conceito, D e Haas (2021 ) defende que o conceito de ‘mobilidade’ se refere ao facto de a imigração ser o resultado das capacidades e aspirações de um indivíduo dentro de várias estruturas de oportunidades geográficas. Segundo este autor, as asp irações aludem à liberdade (capacidade) de um indivíduo escolher onde viver, incluindo a opção de ‘ficar’, isto é, a capacidade de escolher a imobilidade (quadro I) . Com isto, as categorias "mobilidade voluntária" e "imobilidade voluntária" aplicam - se apen as a pessoas que têm a capacidade de migrar, mas que também têm uma opção razoável de permanecer (sendo que o termo "razoável" implica que isso não as colocaria em situações perigosas, de grande exploração ou de risco de vida), e para as quais a decisão de partir ou não, é principalmente afetada pelas suas aspirações (instrumentais ou intrínsecas) de migração. Em oposição, a “imobilidade involuntária” refere - se aos indivíduos que desejam, mas não têm a capacidade de migrar (Carling, 2002 ) , permanecendo inv oluntariamente no local onde vivem. Neste sentido, o ‘processo de decisão para a imigração’ diz respeito ao processo durante o qual os indivíduos tomam uma decisão depois de terem ponderado racionalmente os prós e os contras dos motivos para imigrar. Um el emento de análise fundamental neste processo de decisão é a dimensão temporal, uma vez que o indivíduo poderá, ao longo do tempo, manter ou mudar a sua decisão. No mesmo quadrante , junta - se a categoria que articula ‘aspirações’ com ‘capacidades’ é a “mobil idade involuntária” ( D e Haas, 2021). Neste caso, os imigrantes que podem ser classificados como "migrantes de regresso voluntário" pelos governos ou organizações internacionais, podem estar apenas "dispostos" a regressar, não por um desejo real e intrínsec o de o fazer, mas porque não têm acesso a equipamentos sociais e abrigo ou porque correm o risco de serem presos, sofrerem violência e outros abusos (como a separação dos filhos) nos países de destino. Nestas situações de extrema angústia e pressão, os mig rantes podem, eventualmente, decidir regressar e ser obrigados a assinar formulários que confirmam o consentimento para o seu "repatriamento voluntário", mesmo que tal seja contrário às suas preferências ou desejos intrínsecos. Boersema et al . (2014) refer iram - se a esta categoria como "deportação suave". Mesmo que esses migrantes não sejam literalmente forçados a deslocar - se (ou seja, por meios violentos através da deportação), podem sentir - se compelidos a fazê - lo, mesmo que isso seja fortemente contrário a o seu próprio desejo intrínseco. O quadro seguinte resume cada um destes tipos de mobilidade/capacidade segundo a perspetiva de D e Haas (2021): Quadro I Aspirações e capacidades na imigração . Table I Aspirations and capabilities in migration. Capacidade nas migrações Baixa Alta Aspirações nas migrações (Intrínseca e/ou instrumental) Alta Imobilidade involuntária (´sentir - se preso´) Mobilidade voluntária (maior parte das formas de imigração) Baixa Imobilidade aquiescente Imobilidade voluntária e Mobilidade involuntária (refugiados, ‘deportação suave’) Fonte: De Haas (2021, p. 22) Uma última categoria a ter em conta refere - se às pessoas com poucas capacidades e aspirações de deslocação. Como podemos classificar uma pessoa que vive na pobreza e que não tem capacidade para migrar nem nunca se imaginou a fazê - lo? Com base na ideia de q ue as capacidades afetam as aspirações, podemos referir que esse indivíduo está privado da capacidade de aspirar, bem como da capacidade de se deslocar. Isto levanta a questão filosófica de saber até que ponto podemos chamar a esta forma de imobilidade "vo luntária". Por conseguinte, Schewel (2020) propôs a categoria de “imobilidade aquiescente” para descrever situações em que as pessoas não são capazes de migrar nem desejam fazê - lo. A autor a argumentou que, pelo facto de o conceito "aquiescente" implicar um a aceitação de constrangimentos (as origens latinas da palavra significam "permanecer em repouso"), este pode ser um termo apropriado para descrever esta categoria de mobilidade. No entanto, é
Gaspar, S., Carone, R . Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 4 evidente que é necessária mais investigação sobre a formação de aspirações de mudança ou de permanência e sobre como as decisões de permanência podem, de facto, ser vistas como "aquiescentes" ou, pelo contrário, refletir uma racionalização post - hoc da restrição à mobilidade. Por fim, D e Haas (2021) distingue ainda dua s dimensões das aspirações no decurso do percurso migratório: uma dimensão instrumental, isto é, a estratégia de natureza funcional e utilitária para alcançar um fim (migração laboral, mobilidade internacional de estudantes); e uma dimensão intrínseca que remete ao valor subjetivo que um indivíduo atribui à sua experiência migratória, afetando diretamente o seu bem - estar pessoal (ex: migração por estilo de vida, reunificação familiar, gap years , etc.). 2.2. Aspirações futuras: desejo de regressar, reemigrar ou permanecer O projeto de aspiração de (i)migração no futuro poderá assumir diversos tipos. Tendo presente uma análise prévia exploratória ( Gaspar & Carone , 2023), pretende - se agora clarificar quais os tipos de migração que poderão advir das aspirações que fazem parte do mapa mental dos indivíduos. Em primeiro lugar, a migração poderá ser de regresso , isto é, aquela migração designada para definir, sobretudo, os projetos migratórios de retorno dos imigrantes da primeira geração ao seu país de origem. Contudo , este conceito de ‘regresso’ foi ampliado, num texto já clássico, por King e Christou (2008), que o redefiniram como parte da ‘migração de retorno contra - diaspórica’, para referir - se à relocalização dos descendentes de imigrantes no país de origem dos seu s pais. Com efeito, e como referem os autores, alguns destes descendentes (aqueles que nasceram no país de acolhimento da primeira geração), não são imigrantes, e esta ideia de ‘retorno’ deveria ser designada por ‘emigração para o país de origem dos pais’. Apesar das potencialidades deste conceito, neste artigo iremos não só utilizar a proposta de King e Christou (2008) para incluir aqueles jovens que pretendem regressar ao país dos pais; mas também o conceito de ‘imigração de retorno’ (ou de regresso) para identificarmos as aspirações daqueles jovens descendentes que, tendo nascido num outro país e imigrado para Portugal, desejam um dia mais tarde regressar (primeira geração de retorno). Num artigo mais recente, Masdeu Torruella (20 20) analisa como os descendentes de imigrantes chineses em Espanha pretendem retornar ao país dos seus pais para empreenderem uma trajetória de mobilidade social ascendente. Com efeito, o transnacionalism o das redes de contacto sociais e a perceção que cidades como Pequim ou Shangai oferecem melhores condições laborais do que a Europa, é em parte, o motivo impulsionador para as suas intenções de regresso. Um outro tipo de migração que se pode igualmente relacionar com as aspirações futuras é a remigração, isto é, o processo através do qual os indivíduos saem do seu país de origem, estabelecem - se num segundo país por um tempo determinado, e mais tarde remigram para um terceiro país, fora do espaço da União Europeia. Este percurso migratório contraria a perspetiva de uma mobilidade unidirecional de um país de origem para um país de destino, abrindo a possibilidade de trajetórias migratórias para um terceiro ou mais países. Alguns autores (Ramos, 2017) têm - se referido a este processo como ‘migração progressiva’ (onw ard migration), isto é, a possibilidade de um indivíduo, após estar instalado por um tempo num país de destino, remigrar para um outro que inicialmente não tinha previsto ou contemplado. Com base em estudos anteriores (Gaspar & Carone , 2023), a ‘escolha’ por um destes tipos de migração no caso de jovens de origem imigrante é determinada por vários fatores no país de acolhimento. Segundo as autoras, o tempo de permanência em Portugal (o caso que aqui consideramos), a idade de chegada ao país ou, então, o n ascimento no país de destino dos pais, a atividade profissional atual e o seu grau de estabilidade, e as expetativas profissionais futuras, poderão condicionar um tipo de migração que se enquadra num destes dois tipos descritos, ou em alternativa, na perma nência (imobilidade) no país de residência. 2.3. Aspirações de migração futuras de jovens de origem chinesa: o que sabemos Apesar da imigração chinesa para Portugal estar inserida no padrão de mobilidade do Sul da Europa (Rodrigues, 2018), esta pode, no enta nto, ser considerada um caso distinto (Gaspar, 2017). Com base em laços coloniais e fatores económicos e políticos específicos, podem identificar - se três grupos de imigrantes chineses. O primeiro fluxo (1975 - 1999) era constituído por indivíduos de origem c hinesa moçambicana e macaense, que entraram no país devido à sua posição política nas antigas colónias portuguesas (Moçambique e Macau). No início da década de 2000, surgiu um novo fluxo
Gaspar, S., Carone, R. Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 5 migratório, de migrantes económicos, integrado na mesma tendência de migração não qualificada que caracterizou outros países do Sul da Europa. R ecentemente, a partir de 2012, começaram a imigrar cidadãos de origem chinesa para implementar empresas ou investir no país, através de programas como os Vistos Gold ( Gaspar & Ampud ia de Haro & , 2020; Gaspar, 2017). A maioria dos imigrantes chineses em Portugal está concentrada nas áreas de Lisboa e Porto, onde estabeleceram comunidades e negócios empresariais. Muitos deles trabalham nos sectores da restauração e do comércio de retal ho, enquanto outros gerem os seus próprios negócios, como supermercados, armazéns e empresas de importação e exportação. Atualmente, e de acordo com os dados mais recentes (2022), a comunidade chinesa residente em Portugal era de 22 000 indivíduos, deixand o de estar entre as dez principais nacionalidades estrangeiras mais representadas no paí s . De acordo com o último Recenseamento Geral da População (2021), a maioria dos jovens chineses residentes no país possui entre 15 - 24 anos (61,1%) enquanto a faixa etá ria entre 25 - 29 anos representa 38,9%. Estes números mostram a importância da presença de jovens entre os imigrantes chineses comparativamente a um grupo com idades superiores, apontando para a necessidade de conhecermos a sua situação social, educativa, p rofissional, e sobretudo, as suas aspirações futuras de imigração ou de permanência em Portugal. Relativamente ao que sabemos sobre as aspirações dos imigrantes chineses em contexto migratório, os estudos existentes baseiam - se, sobretudo, na primeira gera ção de imigrantes (Migali & Scipioni, 2019; Rodrigues, 2018), apesar de haver dados mais recentes sobre a segunda geração ( Sprong, & Devitt, 2022 , 2022). Com efeito, a análise das aspirações futuras tem sido quase ausente nas investigações que se centram nos trajetos migratórios desta comunidade (Marsden, 2014; Rodrigues, 2018), sobretudo dentro do contexto europeu, e mais especificamente entre a segunda geração (algumas exceções são Gaspar & Mathias, 2023; Masdeu Torruella , 2020; Wu, 2022). O trabalho de natureza qualitativa de Barata (2020) que analisa as aspirações dos pais de jovens de origem chinesa para o futuro dos seus filhos é, não obstante, uma inovação. Segundo o autor, alguns progenitores motivam os seus descendentes a prosseguir para o ensino superior em outros países fora de Portugal (sobretudo em Inglaterra ou em outros países do n orte da União Europeia), uma vez que tais países são percecionados como locais privilegiados e que podem oferecer credenciais e competências mais valorizadas no mer cado profissional. Neste sentido, vários destes pais valorizam escolas privadas e internacionais, onde o ensino é transmitido em língua inglesa, não incentivando os filhos a seguir o negócio de família (frequentemente no caso dos pequenos empresários), mas sim a ter o se u próprio negócio e estudar algo que lhes garanta estabilidade financeira. Estas aspirações dos pais face aos seus filhos vão ao encontro da perspetiva de Rodrigues (2018) de que o desejo de prosperidade, modernização e consumo por p arte dos migrantes chineses correspondem a um projeto mais vasto de "indigenização da modernidade" (Sahlins, 1999), caraterizado por uma pressão social para ser rico e bem - sucedido, mas também pela consciência de que existem desigualdades económicas cada v ez mais prementes, e que a educação é uma via para combatê - las. Neste contexto, é central ampliar a investigação de aspirações futuras não naquilo que os pais projetam para os seus filhos, mas sim no que os descendentes de origem chinesa aspiram para os s eus trajetos de vida futuros de migração ou de imobilidade. Estas aspirações deverão, contudo, ser integradas num modelo de análise mais amplo, que inclua as várias transições para a idade adulta de que os jovens são sujeitos. É neste sentido que Roberts on et al. (201 7 ) propõem a adoção de uma perspetiva de ‘transições de mobilidade’ no estudo da (i)mobilidade transnacional da juventude. Para as autoras, a conceptualização da noção ‘transições’ no plural, indica a necessidade de se entender as aspirações e a mobilidade como algo contingente, plural e fragmentado durante o percurso de vida. Este artigo tem um duplo objetivo. Em primeiro lugar, identificar quais as aspiraç ões de migração ou de permanência em Portugal de jovens d escendentes de origem chinesa; e, em segundo lugar, analisar de que forma as aspirações de migração antecipam algum tipo de mobilidade de regresso, remigração, ou de permanência em Portugal. Neste contexto, é importante desde já mencionar, que estes três tipos de migrações não pretende m alcançar a representatividade das aspirações entre os jovens de origem chinesa, mas sim, captar a diversidade de aspirações baseadas no seu significado sociológico e simbólico. Neste sentido, e seguindo a defini ção de aspirações proposta por Carling ( 200 2 ) como uma orientação para um futuro desejado, quer a curto quer a longo prazo, e envolvendo tanto uma dimensão afetiva (intrínseca) como material (instrumental), procuramos neste artigo articular este conceito de aspirações com diferentes tipos de (i)mobilidades antecipadas por jovens de origem chinesa a residir em Portugal.
Gaspar, S., Carone, R . Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 6 3. METODOLOGIA A metodologia utilizada neste estudo é de natureza qualitativa. Foram realizadas 26 entrevistas semiestruturadas com jovens de origem chinesa residentes em Lisboa, Sintra e Odivelas, entre os 16 e os 35 anos, dos quais 19 eram mulheres e sete eram homens. Entre os participantes, 15 nasceram na China e imigraram para Portugal durante a primeira infância ou adolescência (com idade média de chegada ao país de 12 anos) , enquanto os restantes 11 nasceram em Portugal e, salvo algum caso concreto, sempre viveram n o país. Dos jovens entrevistados, oito encontravam - se a frequentar a escola secundária, oito o ensino superior e dez já estavam inseridos no mercado de trabalho. A idade média dos entrevistados no momento da entrevista era de 22 anos, isso porque a maioria deles frequentavam na época o ensino superior e o mercado de trabalho (18 jovens) e a minoria estava no ensino secundário (8). A maioria ainda vive com os pais (19), apenas sete vivem sozinhos ou com outras pessoas (cônjuge, colegas, primos, etc . ), sendo a quase totalidade solteiros (26) e apenas uma pessoa entrevistada é casada e tem filhos. Em relação à escolaridade dos pais, seis possuem pelo menos um familiar (pai ou mãe) com ensino superior completo; dez com ensino secundário completo; seis c om ensino básico completo; e quatro casos não quiseram dar informações. A identificação dos potenciais entrevistados decorreu segundo a técnica de bola - de - neve, mediante contactos já estabelecidos no passado com informantes privilegiados (associações de i migrantes, igrejas, escolas) e onde a frequência destes jovens era regular. É importante destacar aqui a existência de diferentes trajetos migratórios nas suas vidas, e que determinaram, em parte, a escolha da sua inclusão no grupo a entrevistar. Apesar de vários deles terem nascido em Portugal e de não terem tido, contrariamente aos seus pais, uma experiência migratória prévia; outros viveram a sua infância e adolescência entre Portugal e a China; e ainda outros tiveram experiências de vida em outros paíse s antes de imigrarem para Portugal. Entre os casos apresentados, a maioria dos jovens são descendentes de imigrantes económicos/laborais (proprietários de lojas e restaurantes) e em dois casos os pais obtiveram a residência em Portugal através do programa de Vistos Gold . Depois do primeiro contacto com potenciais entrevistados, procedeu - se à obtenção do consentimento informado para a realização, gravação e transcrição da entrevista. As línguas das entrevistas foram a língua portuguesa (no caso de 21 joven s entrevistados) e chinesa (5 entrevistados), utilizado por uma colaboradora do projeto que possui fluência e competências em mandarim. Estas entrevistas decorreram entre 2021 - 22, com duração de uma a duas horas e foram realizadas na sua maioria pela plata forma Z oom , e em locais da preferência dos entrevistados onde estes se sentiam mais confortáveis: universidades, cafés, locais de trabalho, entre outros. O guião utilizado nas entrevistas baseia - se em pesquisas anteriores (Seabra et al ., 2016) e possui um a série de dimensões analíticas referentes à integração social de jovens de origem imigrante em Portugal : trajetória migratória familiar; trajetória escolar e profissional; domínio da língua; redes de sociabilidade; processos de estigmatização e discrimina ção; e aspirações e expectativas futuras. Relativamente a esta última dimensão, os jovens foram questionados quanto à sua potencial mobilidade e imobilidade. Após a transcrição das entrevistas , procedeu - se à sua análise de conteúdo, segundo as temáticas an alíticas identificadas anteriormente. 4. DISTINTAS ASPIRAÇÕES DOS JOVENS DE ORIGEM CHINESA 4.1. Aspirações de regresso à China Entre os jovens entrevistados, um grupo importante refere ter aspirações de retornar à China no futuro, apesar de indicarem uma certa ambivalência entre ‘o ficar cá ou lá’. É o caso da entrevistada 24, nascida na China e imigrada em Portugal desde os 12 an os. A família de origem pertence a um grupo de imigrantes económicos, que procuraram em Portugal a sua ‘fortuna’ (Rodrigues, 2018), abrindo negócios empreendedores como lojas de venda a retalho ou restaurantes (Gaspar, 2018). No caso desta entrevistada, a mãe não terminou o ensino básico, e o pai estudou até ao equivalente ao 9º ano na China. A família vive numa cidade média em Portugal, onde ela estuda no ensino secundário, tendo optado pelo ensino profissional. Após terminar os estudos, ingressou numa uni versidade pública, onde se licenciou na área das ciências sociais. Atualmente , encontra - se a realizar um mestrado nesta área de estudo. Quando pensa no futuro, refere, com alguma ambivalência que,
Gaspar, S., Carone, R. Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 7 Queria voltar para a China porque sou mais sensível a ler a s coisas em chinês e acho que a vida na China é mais o que eu quero. Mas tenho a certeza que quando eu voltar para a China, vou ter muitas saudades daqui. Porque eu acho que Portugal é muito lento. É muito calmo, mas ao mesmo tempo... não é muito interessa nte. Não há muita coisa para fazer aqui . (Entrevistada 24) Esta jovem insere - se numa primeira geração de retorno uma vez que desenvolveu parte importante da sua vida escolar na China, o que fez com que a sua identidade e sentimento de pertença se identifi quem com aquele país. Assim, este caso não se inclui no que King e Christou (2008) designaram por ‘migração contra - diaspórica’. Com efeito, as suas ‘raízes’ identificam - se com a China, tendo a sua competência em mandarim desempenhado um papel fundamental n o reforço desse mapa futuro de retorno. Um outro caso semelhante é o de uma outra jovem (entrevistada 25) de 16 anos, nascida em Portugal, mas tendo apenas vivido um ano no país, e tendo após esta idade ido viver na China com os avós. Esta jovem permaneceu na China até aos 13 anos, quando regressou novamente a Portugal. Uma vez cá, por dificuldades na língua, repetiu o 4º ano, apesar de já ter idade para frequentar o 8º. Atualmente , estuda arte num colégio numa cidade próxima de Lisboa, e aspira e studar no futuro o curso de animação para apresentar a “cultura da China ao mundo”, pois, segundo refere, “há muitas pessoas que têm uma opinião contra a China, (…) mas não conhecem como a China realmente é”. Quando inquirida sobre as suas aspirações de mi gração futura, explica como reparte o seu tempo entre a aprendizagem de conteúdos e competências ensinados na escola portuguesa e outras competências sobre a China ensinadas por via remota: “ao mesmo tempo que frequento o ensino secundário aqui em Portugal , estou também a frequentar aulas online em chinês, história, geografia, matemática e inglês”. No futuro, tem interesse em retornar à China para estudar numa universidade em Pequim , tal como explica, “d entro de 10 anos, estarei provavelmente a fazer animaç ão porque toda a gente já me conhec e”. Como podemos observar, o regresso à China, em ambos casos, é condicionada pela capacidade de levar a cabo a imigração, assim como determinada por motivações tanto intrínsecas ( na China tinha mais atividades e divertimentos, tinha muitos lugares para ir) como instrumentais (ingressar na universidade e prosseguir a carreira profissional no país, dado haver mais oportunidades) ( D e Haas, 2021). Nestes dois casos estamos perante ‘mobilidades voluntárias’, sendo a C hina entendida como um local onde estas jovens poderão ascender socialmente (Masdeu Torruella , 20 20) . Ambas as socializações d e infância e d e adolescência foram realizadas no país de origem dos seus pais, influenciando em parte os seus valores, comportamen tos, e afetos perante o país. É nesta perspetiva que King e Christou (2008, p. 17) referem que “a segunda geração procura um lugar de descanso final contra a sua ansiedade existencial relativa à ambiguidade onde pertencem. Como relatariam vários dos nossos entrevistados, em paralelo ao estudo de King e Christou (2008, p. 7): Estou f inalmente em casa, onde pertenço... o ciclo está encerrado”. Por outras palavras, o retorno do exílio é alimentado pela nostalgia da estabilidade e coerência imaginadas de tempos e lugares passados: o plano é realocar o eu deslocado de alguma forma em um t empo e lugar anteriores e mais autênticos. Por outro lado, as motivações instrumentais que influenciam estas jovens a considerarem a China como um local de retorno, vão de encontro a estudos prévios (Masdeu Torruella , 20 20 ) onde a procura por melhores con dições de vida (sobretudo profissionais) é privilegiada, mais além de desejos de ‘realidades imaginadas’ ou ligações emocionais ancestrais ao país de origem ( King & Christou , 2008). 4.2. Aspirações de remigrar A intenção dos jovens que declararam querer remigrar no futuro (no caso daqueles que nasceram na China e imigraram para Portugal), ou i migrar para outro país (no caso daqueles que nasceram em Portugal), decorre, fundamentalmente, de motivações instrumentai s ( D e Haas, 2021), isto é, a procura de melhores condições profissionais, melhores salários, inserção em empresas multinacionais com uma maior capacidade de mobilidade profissional, ou a procura por um ambiente mais cosmopolita.
Gaspar, S., Carone, R . Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 8 Este é justamente o perfil do entrevistado 21, com 16 anos e chegado a Portugal com 12. A sua família pertence à classe média, é proveniente do Sul da China, e procurou neste país melhores condições de vida. O entrevistado está inscrito no 11º ano numa escola privada perto de Lisboa , e teve aulas de Português como Língua Não Materna (PLNM) durante 3 anos. Contudo, devido à idade tardia de chegada a Portugal, tem sentido dificuldade em acompanhar os colegas nas aulas de “português normal”. Os pais são professores, mas nenhum deles t e m profissões nessa área (“ a minha mãe não faz nada, ela só cuida de nós dois ”) e o pai encontra - se em teletrabalho (“ penso que se chama middleman” , como explica referindo - se ao trabalho do pai). Ele diz que a convivência com a mãe é difícil, que pretende es tudar ciências numa universidade pública em Lisboa, e futuramente, trabalhar na Apple ou Google nos Estados Unidos ou Inglaterra, porque em Portugal existem menos oportunidades. Acha que sua vida não será parecida com a dos pais porque o pai não vivenciou uma experiência migratória enquanto jovem, como ocorreu com ele: [ Daqui a dez anos] já terminei a universidade e já estou a trabalhar, já são vinte e seis anos, talvez já saí de Portugal, porque em Portugal existe menos oportunidade de trabalhar… e digo um trabalho numa empresa normal, vivendo como cidadão normal… Pode ser na América, pode ser, Inglaterra, pode ser os países maiores, pronto… não estou a dizer que Portugal é um país pequeno, mas pronto, as empresas não são tão grandes . (Entrevistado 21) Uma outr a participante (entrevistada 9) tem 21 anos, nasceu em Portugal e é filha de pais chineses provenientes da província de Zhejiang. Inicialmente, os pais imigraram para França, estiveram lá uns anos, tendo imigrado posteriormente para Portugal, uma vez que já cá tinham familiares. O seu irmão mais velho nasceu na China, veio para Portugal com 12/13 anos, mas não se adaptou porque sofreu bullying na escola, e foi viver para França com familiares. Os seus pais completaram o ensino secundário na China, e atualmente têm uma loja no Alentejo. Esta entrevistada relata a existência de uma barreira linguística com os pais, que não falam bem português e, ao mesmo tempo, considera que ela própria não fala bem chinês (estudou a língua em Portugal durante 10 anos). Estudou no ensino secundário, inicialmente em Lisboa, e depois mudou - se, e studando no Alentejo onde os pais atualmente vivem. Mais tarde, regressou a Lisboa para ingressar na universidade na área de engenharia, e atualmente faz um mestrado numa universidade pública, também em Lisboa. Quando terminar o mestrado pretende trabalhar numa consultoria. Sempre foi dedicada aos estudos e os seus pais acompanhavam - na mais “à distância”. Como ela refere, desde o 5º ano até ao final da licenciatura foi quase sempre a única estudante de origem chinesa nas suas turmas, tendo sofrido episódios de bullying e discriminação étnica. Por esse motivo, no futuro, não pensa em viver cá porque diz não querer que seus filhos passem pelo mesmo que ela passou. Entretanto, deseja ter a mesma coragem que os pais tiveram ao imigrar para outro país, e ir futur amente possivelmente para a Holanda. Como ela própria explica , Espero estar a trabalhar na minha área e, sinceramente, não espero estar a trabalhar em Portugal… Porque daqui a 10 anos terei 31 anos, e quero começar uma família ...honestamente , não gostaria que os meus filhos passassem pelo mesmo que eu, por isso não gostaria de estar a criar uma família aqui em Portugal. Eu sei isso... por outras palavras, Portugal não é muito diverso, por isso ainda há muito racismo aqui e eu sei que... bem, como eu disse, eu tenho uma família na Holanda, e eu sei que eles são muito mais abertos lá . E gostava de criar família num país em que aceitassem mais outras culturas, por isso se eu começar já a trabalhar noutro país vai ser mais fácil depois de construir família lá e depois obviamente que procuro melhores condições financeiras e em Portugal neste momento não estão a dar as melhores condições para os jovens e sei que nos outros países eles valorizam muito mais. (Entrevistada 9) Os motivos apontados quanto às suas aspirações de futuro passam, assim, por uma remigração devido a motivações tanto intrínsecas (não querer educar os filhos num país onde sofreu discriminação étnica e bullying ), como instrumentais (encontrar melhores cond ições de vida do que existem em Portugal), sendo elevada a capacidade que tem para levar a cabo essa imigração futura (mobilidade voluntária). No caso específico desta entrevistada, a sua motivaç ão intrínseca, isto é, o valor subjetivo atribuído ao destino prospetivo da imigração (Holanda) , ganha sentido devido à sua necessidade de escapar de contextos de discriminação é tni c a e de orig e m nacional (Portugal) . Com efeito, e stas motivações para remigrar têm sido designadas na literatura por ‘etnicidade reativa’
Gaspar, S., Carone, R. Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 9 (Portes & Rumbaut 2001), isto é, quando os imigrantes ou os seus descendentes se sentem rejeitados pelo país de residência, tendem a estar mais ligados às suas comunid ades étnicas de origem. E studos anteriores (França et al ., 2024; Gaspar, 2018), revelaram a ocorrência de vários episódios de microagressões ou de discriminação étnica explícita face a cidadãos de origem chinesa ou asiática em Portugal, tanto durante a cri se sanitária do COVID - 19 (França et al. , 2024) como antes da pandemia (Gaspar, 2018). De igual modo, no contexto francês, Caron (2020) verificou que os descendentes de imigrantes chineses que tinham nascido em França, revelavam aspirações mais elevadas de remigração ou retorno à China motivadas pela sua perceção de racismo na sociedade francesa. 4.3. ASPIRAÇÕES DE PERMANECER EM PORTUGAL Tal como sucede com as aspirações de remigrar ou de retornar à China, os jovens que não pretendem emigrar, mas sim permanecer em Portugal, revelam fazê - lo por motivações intrínsecas ficar próximo da sua família e amigos. Esta motivaç ão de permanecer devido a relações afetivas interge ne racionais , isto é, devido à existência de redes familiares e de amizade, tem sido i dentificada em estudos anteriores como um forte incentivo à imobilidade dos jovens ( Holdsworth, 2013; Schewel & Fransen , 2022) . Por outro lado, para alguns entrevistados, o desejo de continuar o negócio dos pais é uma razão importante para permanecer no país (motivações instrumentais), já que assumir o controlo do negócio da família impõe - se como uma obrigação à qual alguns destes jovens sentem o dever de cumprir (motivações intrínsecas) . Querer abrir um negócio distinto, a título pessoal ou com amigos, é outra das estratégias adotadas para continuar a trabalhar por conta própria, sem ter de passar por uma potencial precariedade no mercado de trabalho português (Gaspar, 2019), tal como, aliás, foi igualmente assinalado em outros países (Yiu, 2013). Neste sentido, as futuras aspirações são a permanência em Portugal, onde muitos entrevistados nasceram ou cresceram e formaram redes afe tivas e profissionais. Com efeito , e tal como em estudos anteriores (Silva, 2025), a existência de oportunidades educativas e laborais desempenha um papel fundamental na imobilidade destes jovens. É o caso do entrevistado 11, com 20 anos, nascido em Portug al e cuja família é proveniente da região de Zhejiang, sendo por isso , enquadrados como imigrantes económicos. Estudou o ensino secundário numa escola privada perto de Lisboa na área de Ciência e Tecnologia, por opção dos pais, que gostavam que eu conhecesse pessoas mais de média gama pelo menos (…) foi a principal razão que queriam que eu mudasse para uma privada . Começou a licenciatura numa universidade de Lisboa, mas desistiu no final do primeiro semestre , aquilo não era para mim.... era m muita s maquetes e não... não gostava daquilo . E mudou para uma universidade privada para o curso de Gestão , a escola em si não é uma das melhores, mas o que é bom é as pessoas que conheces lá ”. Esta decisão, influenciada pelos pais, em inscrever - se numa lice nciatura que lhe possibilitasse acesso a um trabalho bem remunerado e sem riscos de precaridade, vai de encontro ao estudo de Wu (2022). Segundo o autor, os descendentes de imigrantes chineses socializados num ambiente de classe trabalhadora ou média baixa , tendem a internalizar uma hierarquia de profissões, que lhes permita perspetivar como serão aqueles percursos profissionais de maior ou menor sucesso. As aspirações deste participante inscrevem - se no que D e Haas ( 2021 ) designou por ‘imobilidade voluntária’, uma vez que pretende viver em Portugal, continuar os negócios dos pais (loja a retalho e alojamento local), e ter seu próprio negócio com os amigos. Como ele próprio explica quando lhe perguntamos como se vê no futuro, Com uma família já e um pouco mais rico [risos]. Honestamente, acho que é isso. Ah, em Portugal, sim. Portugal. Imagino tudo em Portugal. Acho que vou construir o meu futuro em Portugal. Os meus pais querem que eu faça um mestrado. Eu tenho as notas para isso, mas não sei se que ro fazê - lo porque acho que prefiro começar a ganhar dinheiro imediatamente. Em outras palavras, o que eu quero fazer? Tenho amigos que pensam como eu e... Quer dizer, tenho um grupo de pessoas e vamos fazer algo juntos. Essa é uma das minhas ideias. E a se gunda ideia, além disso, é continuar o negócio dos meus pais. Eu queria fazer as duas coisas ao mesmo tempo porque eu sei... Quero assumir o negócio dos meus pais porque é inevitável, ou seja, mesmo que eu não quisesse, tinha de o fazer e os meus pais já m e estão a dar essa responsabilidade. (Entrevistado 11)
Gaspar, S., Carone, R . Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 10 Outro ponto a destacar no caso desse jovem é a questão linguística. O jovem menciona a importância de vizinhos portugueses que ajudaram a família inclusive facilitando a aprendizagem da língua portugu esa pela sua mãe : e foi aí que eles começaram a ensinar a minha mãe... sempre que a minha mãe não sabia o que dizer perguntava e eles diziam qual é que seria a melhor palavra. (…) Todos os chineses que eu conheço que sabem falar português, eles sentem - se integrados. Todos os que falam mais ou menos, eles não se sentem integrados. É isso (Entrevistado 11) Por outro lado, um outro motivo intrínseco ( D e Haas , 2021) que determina as aspirações futuras destes jovens é a qualidade de vida em Portugal; motivo este, aliás, igualmente reportado em estudos anteriores por cidadãos chineses pertencentes à classe média alta e estabelecidos em Portugal através dos Visto s Gold (Beck & Gaspar, 2024) . Com efeito, o equilíbrio entre o trabalho, a família e a vida pessoal, são assumidos como valores pós - materialistas que estruturam a vida destes jovens, assim como as suas aspirações de emigrar ou não. O próximo discurso de uma entrevistada que veio para Portugal na adolescência e fez no país todo o seu percurso escolar e universitário, ilustra bem esta questão: e u penso que vou escolher ficar em Portugal. Na situação atual, e porque posso ir para três sítios, o estilo de vid a é o mais adequado, nem é rápido nem lento… E o custo de vida também é o melhor... Os adolescentes e as crianças podem estudar aqui… Também é possível criar uma empresa pequena… Talvez faça isso, não sei… Neste momento, só penso que terei que ter tempo pa ra trabalhar, tempo para a família e tempo para mim mesm a . (Entrevistada 17) 5. CONCLUSÕES Este artigo analisa as aspirações de migração ou permanência futura de jovens de origem chinesa a viver em Portugal. Como mencionámos no início, a análise das aspira ções na migração é extremamente importante, uma vez que permite antever as intenções dos indivíduos e as estratégias que potencialmente estes desenvolverão para levar a cabo essa mobilidade. Se este é um tema já explorado entre algumas comunidades de imigr antes de primeira geração, existem poucos estudos a abordar as aspirações futuras nos jovens descendentes. Por este motivo, este artigo é uma contribuição nesse âmbito, nomeadamente, entre os jovens de origem chinesa que nasceram ou cresceram em Portugal. Os resultados obtidos através de uma análise temática do discurso dos entrevistados, vão no sentido daqueles já mencionados em estudos prévios ( Wang & Chen , 2021; Wu, 2022). Com efeito, verificámos que no caso destes jovens, as aspirações de migração não p odem ser entendidas como um processo de duas etapas que conduz ou não à imigração, mas sim como um processo emocional e instrumental contínuo, sujeito a ruturas, frustrações e redefinições durante o seu percurso de vida e transições para a vida adulta ( Robertson et al ., 201 7 ) . Como tal, este artigo reforça a ideia de que as aspirações na migração fazem parte de um processo em transformação constante, sendo fundamental incluir uma dimensão temporal e conting ente no modo como os indivíduos expressam e enqu adram as suas memórias passadas, e perspetivam o seu futuro (Robertson et al . , 201 7 ; Silva, 2025). No caso dos jovens adolescentes e jovens adultos aqui entrevistados, devido à fase da vida em que se encontram, os seus relatos revelam justamente a existênc ia de aspirações fluídas e indefinidas quanto ao seu futuro. Se alguns têm uma convicção forte sobre onde aspiram viver, estudar ou trabalhar, muitos outros estão indecisos. Por este motivo, é fundamental incluir nesta dimensão temporal a perspetiva interg eneracional na abordagem das aspirações, uma vez que , tal como estudos anteriores já demonstraram ( Robertson et al ., 201 7 ; Silva, 2025 ), o momento da trajetória individual em que um indivíduo se encontra determina, necessariamente, as suas aspirações presentes e futuras. Com efeito, a adoção de uma perspetiva de percurso de vida permite clarificar a dinâmica entre a agência individual do j ovem em permanecer ou imigrar tendo em consideração a sua etapa de vida. Por outro lado, e retomando as dimensões do marco teórico desenvolvido por Hein De Haas (2021), observámos que entre os nossos entrevistados existe uma confluência de aspirações de mi gração instrumentais (relacionadas com posições profissionais melhores, mais bem pagas e mais estáveis) e intrínsecas (essencialmente relacionadas com o local onde a família de origem e alargada
Gaspar, S., Carone, R. Finisterra, LX (12 9 ), 202 5 , e 37711 11 se encontra a viver, melhor qualidade de vida, equilíbrio ent re vida privada - profissional). Estas duas dimensões moldam, de forma clara, as aspirações destes jovens permanecerem ou não em Portugal. Relativamente à forma como estas aspirações conformam diferentes tipos de migração regresso, remigração ou permanên cia, entre os jovens entrevistados a migração intraeuropeia (para outro país da União Europeia ) é algo mais projetado para o seu futuro. Do mesmo modo, a remigração (emigração para um outro país fora da União Europeia) é algo menos desejado. E por fim, a permanência em Portugal é uma possibilidade bastante assinalada, tanto por aqueles que nasceram no país como aqueles que nasceram na China. Estudos futuros sobre esta temática poderão incluir uma linha de análise fundamental e que aqui não foi explorada. C om efeito, alguns autores (Wu, 2022) propõem uma abordagem das aspirações de migração tendo em conta uma temporalidade fluída, com o registo de momentos bem definidos antes da migração, durante o processo migratório e após a migração. De facto, o nosso o bjetivo neste artigo foi desenvolver aquilo que Koikkalainen e Kyke (2016) designam por ‘migração cognitiva’, ou seja, as aspirações de mobilidade futura antes mesmo de estas ocorrerem. A análise das aspirações, expectativas, e transformação das emoções pr ojetadas no futuro, são condicionadas por dimensões estruturais (por exemplo, condições de acesso ao país de destino, sistema de integração social, aprendizagem da língua do país de destino, facilidade em obter emprego no mercado de trabalho) e pessoais (n ecessidade de estar perto da família e dos amigos), que podem sofrer modificações ao longo do processo migratório. Esta temporalidade é fundamental ser identificada e entendid a em investigações futur a s, sobretudo, nos estudos de jovens de origem imigrante. AGRADECIMENTOS Este artigo baseia - se numa investigação no âmbito do projeto Trajetória escolar, académica e profissional de jovens brasileiros, ucranianos e chineses , (Refª PT/2020/FAMI/517), financiado pelo Programa Nacional do Fundo para o Asilo, a Migração e a Integração (FAMI), no âmbito do Quadro Financeiro Plurianual (QFP) 2014 - 2020. As autoras agradecem os comentários dos três revisores a uma versão inicial deste arti go, que ajudaram a repensar várias questões de uma forma muito construtiva. CONTRIBUTOS DAS AUTORAS Sofia Gaspar : Conceptualização; Metodologia; Validação; Análise formal; Escrita preparação do esboço original, Redação revisão e edição; Supervisão; Administração do projeto; Aquisição de financiamento. Renata Carone : Metodologia; Software; Validação; Análise form al; Investigação; Redação revisão e edição; Visualização. ORCID Sofia Gaspar https://orcid.org/0000 - 0003 - 0002 - 6246 Renata Carone https://o rcid.org/0000 - 0003 - 4960 - 8167 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Barata, M. (2020). The social and economic integration of Chinese immigrants in Portugal: generation 2.0 .. [Master’s dissertation, ISCTE]. Repositório da Universidade de Lisboa. https://repositorio.iscte - iul.pt/handle/10071/20945 Beck, F., & Gaspar, S. (2024). In pursuit of a ‘good enough life’: Chinese ‘educational exiles’ in Lisbon and Budapest. Journal of Ethnic and Migration Studies , 50 (16), 4070 4088. https://doi.org/10.1080/1369183X.2023.2245156 Boccagni , P. (2017). Aspirations and the Subjective Future of Migration: Comparing Views and Desires of the ‘Time Ahead’ Through the Narratives of Immigrant Domestic Workers. Comparative Migration Studies , 5 (4), 2 18. https://doi.org/10.1186/s40878 - 016 - 0047 - 6 Boersema, E., Leerkes, A., & van Os, R. (2014). What drives soft deportation? Understanding the rise in
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