Reis, V., Julião, R. P., Fiel, E. Finisterra, LXI(131), 2026, e42387
Em Portugal, por exemplo, a Universidade Lusófona definiu como regra que é o docente que deve
“permitir”, ou não, a utilização de ferramentas de IA pelos seus alunos nas tarefas de avaliação, estabelecendo
diretrizes para cada opção (Universidade Lusófona, 2023). A Faculdade de Medicina da Universidade de
Lisboa definiu um conjunto de princípios e práticas, que orientam os alunos no sentido de “garantir o acesso
equitativo às ferramentas de IA e fomentar uma cultura de uso responsável” (Faculdade de Medicina da
Universidade de Lisboa [FMUL], 2025, p. 1).
Estes documentos, centram-se nos receios ligados à errada aplicação das ferramentas de IAGen e nas
questões éticas da sua exploração. A inclusão de orientações para a integração harmoniosa desta tecnologia
e que enquadrassem a sua aplicação na otimização da aquisição de conhecimento e na simplificação de
processos, tanto de alunos como de docentes, poderia tornar estes documentos mais relevantes na
implementação de políticas eficazes de regulação. Estes deverão definir a postura institucional de banir,
regulamentar ou integrar, e alinhar-se com a capacitação em IAGen para docentes e alunos. Tendo em conta
os riscos, torna-se necessário que as instituições: desenhem programas de formação de professores e alunos,
seguindo por exemplo os referenciais da Comissão Europeia o DigiCompEdu 2.2 (Vuorikari et al., 2022),
que criem programas de desenvolvimento personalizados, que se concentrem especificamente nas
competências de literacia em IA; promovam trabalho em equipa institucional, criando comunidades de
prática ativa; desenhem políticas éticas sobre o uso ético da IA, incluindo revisão e atualização regulares;
promovam o desenvolvimento de competências dos alunos, garantindo que estes também adquiram a literacia
em IA e que o seu acesso seja equitativo (Tenberga & Daniela, 2024).
Aumentando a sua abrangência, incluindo programas de formação que potenciassem a utilização da
IAGen e que simultaneamente sensibilizassem para as questões éticas e de segurança, poderiam envolver
toda a comunidade académica. Pelo contrário, posturas demasiado rígidas, ou até desinformadas, podem
afastar os estudantes e desperdiçar oportunidades de aprendizagem crítica e inovadora. As instituições de
ensino superior podem vir a reconhecer o potencial da IA como instrumento criativo, quando usada com
responsabilidade e enquadramento ético.
As metodologias de Aula Magistral, reduzem o papel do professor à mera transmissão de
conhecimentos. Estas metodologias limitam os alunos nas suas capacidades de aplicar, analisar, criticar e
sintetizar (Ribeiro., 2007). Desta forma estamos a reduzir o papel do professor à mera transmissão de
conhecimentos, o que é uma simplificação errada da profissão docente. Se assim fosse, efetivamente a IAGen
poderia ser vista como uma ameaça direta à profissão. Uma leitura apressada que alguns têm vindo a
anunciar, como fez Bill Gates em entrevista no programa da NBC The Tonight Show Starring Jimmy Fallon.
Nessa entrevista, o cofundador da Microsoft sugere que “a IA vai substituir médicos, professores e
muito mais nos próximos 10 anos, tornando os humanos desnecessários para a maioria das coisas” (The
Tonight Show Starring Jimmy Fallon, 2025). Esta opinião é contrariada pelo relatório Future of Jobs 2025
do Fórum Económico Mundial que aponta o foco na requalificação profissional, como literacia digital e
competências em tecnologias emergentes e que ampliará a necessidade de educadores com formação
especializada (World Economic Forum, 2025). O que está verdadeiramente em causa é, mais uma vez, tal
como noutros momentos da história, a redefinição do papel do professor. Agora, num cenário em que a
empatia, a mediação humana, o pensamento crítico e a relação pedagógica continuarão a ser insubstituíveis.
Assim, a formação de professores, neste contexto, assume um papel fundamental. Para além de
dominarem a sua área científica e as ferramentas digitais, é fundamental que os professores possam
desenvolver competências que lhes permitam compreender de forma crítica o papel da IA nos processos
ensino-aprendizagem (Duque, et al., 2023). Os autores referem que haverá obstáculos e que alguns serão
colocados pelos próprios professores. A resistência à mudança, a escassez de recursos nas escolas e a falta
de atualização dos currículos.
No Luxemburgo, o Lycée Aline Mayrisch destaca-se como um exemplo interessante de integração da
IA em práticas educativas inovadoras. Embora ainda sem orientações oficiais para o uso destas tecnologias,
ferramentas como o ChatGPT têm sido utilizadas em sala de aula de forma ponderada, com uma clara
preocupação pedagógica e ética. Esta escola tem investido na formação dos professores e promovido a
participação dos alunos em projetos que articulam criatividade, tecnologia e reflexão crítica. Trata-se de um
caso de estudo que mostra como a IA pode ser integrada no ensino de forma responsável, num ambiente que
valoriza a experimentação e o pensamento interdisciplinar (European Schoolnet, 2023).
A nível internacional, são muitos os estudos que apresentam resultados do impacto positivo da IA na
personalização das aprendizagens, na adaptação ao ritmo dos alunos e na diversificação das estratégias
pedagógicas. Casos como o Squirrel AI, na China, demonstram uma redução significativa no tempo
necessário para atingir os objetivos de aprendizagem, acompanhada de um aumento na motivação e na
autonomia dos estudantes. No Reino Unido, a Open University recorre a sistemas baseados em IA para
fornecer feedback imediato e orientações adaptadas ao perfil de cada aluno. Nos Estados Unidos, plataformas
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