Silva, A., Silva, F. Finisterra, LXI(131), 2026, e42713
No quadro dos modelos espaciais e normativos do destino turístico, o modelo de Dredge (1999)
constitui o principal referencial teórico adotado neste estudo. A autora propõe uma abordagem sistémica ao
planeamento da região de destino, estruturada em componentes interligados: mercados emissores, nós,
distritos, rotas de circulação e gateways.
Os nós, entendidos como concentrações de atrações e serviços, organizam-se hierarquicamente
segundo o seu poder de atração e papel motivacional, podendo o destino assumir configurações de nó único,
múltiplos nós ou modelo encadeado. O modelo de Região de Destino de Múltiplos Nós revela-se
particularmente pertinente para contextos insulares, ao conceber o destino como um sistema policêntrico de
áreas funcionalmente diferenciadas e articuladas. Contudo, a sua aplicação a SIDS exige adaptação às
especificidades institucionais, infraestruturais e socioeconómicas destes territórios.
2.2.
Turismo nos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento
Os SIDS constituem uma categoria específica de países caracterizado por um conjunto distintivo de
vulnerabilidades estruturais que moldam profundamente as suas trajetórias de desenvolvimento, em geral, e
do turismo, em particular (Briguglio, 1995; McElroy, 2006; Moncada et al., 2021; Pratt, 2015; Read, 2008;
Stephenson, 2023). Estas vulnerabilidades decorrem de múltiplos fatores, entre os quais se destacam:
economias de pequena escala com fraca diversificação setorial; elevada dependência de importações,
financiamento e investimento externo; isolamento geográfico e fortes constrangimentos de acessibilidade;
baixa produtividade e qualificação dos recursos humanos; e reduzida resiliência às alterações climáticas
(Briguglio, 1995; Briguglio & Vella, 2018; Reguero et al., 2019).
Paradoxalmente, algumas destas vulnerabilidades podem ser, simultaneamente, fatores que potenciam
a atratividade turística. O isolamento e as caraterísticas geográficas, a pequena escala e uma estrutura
económica e social relativamente tradicional alimentam imaginários ocidentais de "paraísos tropicais" e
"refúgios de tranquilidade", associados a experiências de "evasão" e "autenticidade" (Alipour et al., 2020;
Belle & Bramwell, 2005; Brito-Henriques, 2009; Currie, 2018; Dodds et al., 2018; Echtner, 2010). Esta
dualidade entre a vulnerabilidade estrutural e atratividade turística constitui um paradoxo central que
caracteriza o desenvolvimento turístico nos SIDS.
O turismo consolidou-se como o principal setor exportador e fonte de divisas em muitos SIDS,
assumindo frequentemente uma importância económica desproporcionada, que gera uma dependência
excessiva de um único setor (McElroy, 2003; United Nations Conference on Trade and Development
[UNCTAD], 2021).
Representa mais de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) em vários SIDS das Caraíbas e do Pacífico,
contrastando com médias globais inferiores a 10% (UNCTAD, 2021; United Nations Office of the High
Representative for the Least Developed Countries, Landlocked Developing Countries and Small Island
Developing States [UN-OHRLLS], 2023). Esta centralidade, embora proporcione oportunidades de
crescimento e criação de emprego, acarreta riscos de dependência externa e de vulnerabilidade a choques.
Alguns SIDS registam ainda uma pressão turística muito acentuada sobre os recursos e as
comunidades locais. Por exemplo, a intensidade turística (medida pelo rácio entre o número de chegadas de
turistas e a população residente) atinge aproximadamente sete em Santa Lúcia, cinco em Palau, e quatro na
Dominica e em Grenada. Por contraste, destinos mais afastados dos mercados emissores e rotas turísticas,
como São Tomé e Príncipe, apresentam rácios significativamente inferiores (0.2 em 2019) (UNCTAD, 2023;
World Bank, 2025a), o que sugere simultaneamente um elevado potencial de crescimento e uma oportunidade
para um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável.
Um dos principais desafios estruturais enfrentados pelos SIDS é a fuga sistemática de receitas
turísticas, que limita o impacto do setor no desenvolvimento nacional e local. Esta fuga resulta de múltiplos
fatores: domínio do capital estrangeiro nas infraestruturas turísticas (hotéis, resorts, companhias aéreas,
agências de viagens); dependência de importações para fornecimento de bens e serviços turísticos; e produção
local limitada ou dependente de cadeias de valor globais controladas por operadores externos (Britton, 1982;
Hampton & Jeyacheya, 2013). Estimativas indicam que, nos SIDS caribenhos, a fuga de receitas turísticas
pode variar entre 40% e 85%, dependendo do destino e do modelo de desenvolvimento adotado (Russell,
2020; Sharpley & Telfer, 2015; Telfer, 2015).
Esta dinâmica é particularmente acentuada nos modelos all-inclusive, frequentemente organizados
como enclaves com ligações reduzidas à economia local. Embora atraiam grandes volumes de turistas e
investimento estrangeiro, os efeitos multiplicadores na economia local são limitados e podem acentuar
dualismos económicos entre setores "modernos", orientados para o turismo e setores "tradicionais",
tendencialmente marginalizados.
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