Alcoforado, M. J., Alegria, M. F. Finisterra, LX(130), 2025, e44086
(seguindo a tradição familiar) e, em anos mais recentes, a realizar tapeçarias a partir dos seus próprios
desenhos. Viveu a guerra de 1939-45, grande parte do tempo em Paris, pelo que segue com apreensão
a presente situação política mundial, estabelecendo paralelismos com o que ela própria passou na
juventude.
A sua biografia científica foi já tratada em diversas publicações. Salientamos aqui o texto bio-
bibliográfico de J. C. Garcia (1997), numerosos artigos sobre a sua obra no número 63 da Finisterra,
que lhe foi dedicado (Medeiros, 1997a; Gaspar, 1997) e o livro coordenado por Maria Fernanda Alegria
(Alegria et al., 2015), ilustrado com sugestivas fotografias, celebrando os seus 90 anos. Ao longo da
vida recebeu prémios, condecorações e doutoramentos Honoris Causa: Senegal (1964), França (1981)
e Portugal (1997, 1998, 2001, 2002, 2017e 2025).
Quando, em 1965, se estabeleceu em Portugal dedicou-se a este espaço de estudo e começou a
percorrer o país com Orlando Ribeiro. Mas já antes fizera carreira em França e na África Ocidental.
Estudou Geografia na Universidade de Paris, foi professora dos ensinos primário, secundário e
superior (Universidades de Besançon e Reims) e fez o Doutoramento ès Lettres na Sorbonne sobre os
habitantes da montanha franco-suíça do Jura (Daveau, 1959a). A sua tese complementar versou a
Geomorfologia da região de Bandiagara, na África Ocidental (Daveau, 1959b). De 1957 a 1964 foi
Professora na Universidade de Dakar, onde desenvolveu notáveis trabalhos de Geomorfologia e de
diversos temas de Geografia Tropical (Alegria et al., 2015; Garcia, 2001; Pélissier, 1997).
Uma das principais preocupações de Suzanne Daveau foi de divulgar amplamente o
conhecimento geográficoi. Importantes para o “grande público” foram O Ambiente Geográfico Natural
(Daveau, 1976b) e Portugal Geográfico (Daveau, 1995). A aparente simplicidade destas obras esconde
elaboradas sínteses, que várias gerações de alunos e outros interessados têm usado com proveito.
Também o livro La Zone Intertropicale Humide (Daveau & Ribeiro, 1973) é uma síntese geográfica
notável. Lembre-se ainda o interesse revelado pela forma como a Geografia era ensinada em Portugal
(Daveau & Sirgado, 1983).
2.
A FUNDAÇÃO DA FINISTERRA
Orlando Ribeiro, Suzanne Daveau e Ilídio do Amaral perceberam que a divulgação internacional
dos trabalhos científicos portugueses e o conhecimento da investigação dos geógrafos estrangeiros se
faria mais facilmente se se dispusesse de um “instrumento” de comunicação, ou seja de uma revista
científica, amplamente permutada com universidades internacionais. Em 2025, em que o acesso a
qualquer artigo de investigação está à distância de um clic (sem falar da inteligência artificial,
largamente utilizada), será talvez difícil entender o isolamento científico em que Portugal se
encontrava nos anos 1960, apenas quebrado pelos esporádicos congressos internacionais de
Geografia, os estágios no estrangeiro dos professores e os contactos que estes aí estabeleciam. Foi
neste contexto que, em 1966, nasceu a Finisterra – Revista Portuguesa de Geografia.
Os fundadores e primeiros diretores foram Orlando Ribeiro, Suzanne Daveau e Ilídio do Amaral.
Criar uma revista do nada não é tarefa fácil, particularmente num país que vivia isolado e em que havia
dificuldades financeirasii. É por isso natural que, nos primeiros números, a colaboração dos diretores
e seus colegas tivesse sido essencial. Mas cedo a Finisterra recebeu textos de geógrafos de outros
países. Claro que a França veio em primeiro lugar, graças aos contactos de Orlando Ribeiro e Suzanne
Daveau. Logo nos primeiros 10 números foram publicados textos de Pierre Gourou (no número 1),
Georges Chabot (3), Jean Demangeot (6), Etienne Juillard (6 e 9). Artigos de autores de outras
nacionalidades apareceram também desde os primeiros números: Brasil, Orlando Valverde (4, 6), Aldo
Paviani (5), Suécia, Torsten Hägestrand (7), Canadá, Pierre Dansereau (6) e Alemanha, Bodo Freund
(9). Num país “salazarista” esta abertura ao mundo era extraordinária.
Os inúmeros afazeres do Professor Orlando Ribeiro e a partida do Professor Ilídio do Amaral
para Munique, por um ano, quando o primeiro número da revista estava na tipografia (Alcoforado,
2017), fizeram com que Suzanne Daveau se tornasse, desde o início, a principal âncora da Finisterra.
Era Suzanne Daveau quem auxiliava os autores a preparar e a rever os textos, com a colaboração de A.
Machado Guerreiro, quem contactava novos colaboradores, quem ajudava a preparar mapas, gráficos
e fotografias. Note-se que o rigor e a clareza são característicos dos trabalhos de Suzanne Daveau, que
os transmitiu aos autores da Finisterra e aos seus alunos. As suas observações críticas, nem sempre
bem recebidas, eram valiosas e muitos aprenderam a apreciá-las. As regras da elaboração de mapas e
outras figuras foram também transmitidas nesse contexto, incluindo aspetos como a escolha do
2