Oliveira, J. M., Cruz. F. T. Finisterra, LXI(131), 2026, e44567
cooperativas, enquanto outros permanecem sem atividades coletivas estruturadas.
Dos 36 grupos encontrados, apenas dois estão organizados em cooperativas e 13 em associações ou
possuem apenas a agroindústria formalizada. Esta fornece para mercados de proximidade e formais,
incluindo os mercados institucionais, seja de forma direta ou por meio de cooperativas. As associações
possuem um processo de criação juridicamente mais simples do que as cooperativas e são uma forma inicial
interessante de organização coletiva da produção, gestão e comercialização dos alimentos, auxiliando as
famílias assentadas no acesso a crédito, assistência técnica, comercialização conjunta, etc.
Os demais são grupos informais ligados à produção de mel e de “quitandas” (bolos caseiros), doces,
conservas, cujos canais de venda se restringem às feiras locais, amigos, vizinhos, cestas e por encomenda.
Há ainda famílias que coletam o baru, fruto nativo do Cerrado, dentro dos assentamentos e fornecem
diretamente para as cooperativas locais. O quadro II demonstra as estruturas produtivas e formas de
funcionamento dos grupos encontrados na presente pesquisa. Todos eles se encaixam em um dos seis tipos
de grupo detalhados abaixo.
Quadro II - Dinâmicas organizacionais dos 36 grupos produtivos presentes nos assentamentos do INCRA/Goiás.
Table II - Organizational Dynamics of the 36 Productive Groups Located in INCRA/Goiás Settlements.
Tipo de grupo
Estrutura produtiva e forma de funcionamento
Exemplo de assentamentos
Produzem e processam alimentos em espaços específicos (casas de
farinha, panificadoras, casas do mel, unidade de produção de
conservas e doces), fiscalizados pela vigilância sanitária municipal;
vendem principalmente a mercados institucionais.
Jenipapo, Olga Benário, Roberto Martins
Melo, José Martí, Bacuri, Formiguinha,
Romulus de Souza Pereira, D. Helder.
1. Grupos com estrutura
coletiva formalizada
Agricultores(as) produzem e transformam alimentos em seus próprios
lotes (doces, conservas, defumados, panificados, hortaliças) e se unem Santa Fé da Laguna, D. Tomás Balduíno,
para vender em bancas de feira, cestas camponesas etc.,
compartilhando logística e renda
2. Grupos informais com
processamento nos próprios
lotes
Lagoa Seca
3. Extrativistas de baru e
outras castanhas
Famílias coletam e quebram o baru de forma dispersa, mas vendem
coletivamente para cooperativas regionais, como a Rede ExtratiUni
São Pedro, Oziel Alves Pereira e Vale do
Araguaia, Região de Bom Jardim de Goiás
4. Extrativistas de frutos do
Cerrado (buriti, babaçu,
coco, baru)
Praticam o extrativismo e processam artesanalmente óleos e
castanhas, comercializando em feiras locais.
Plínio de Arruda Sampaio, Lagoa Seca
Cachoeira Bonita, Keno, Lagoa da Serra,
N.S. Abadia, Morrinhos, Padre Ilgo; D.
Fernando, Querência, Mata do Baú, S.
Carlos, Liberdade, Sta Rosa, Sta Marta,
Gustavo Martins, Rio Araguaia, Canudos
5. Apicultores organizados
em rede
Apiários individuais, mas colheita e beneficiamento coletivos;
comercialização autônoma ou via cooperativas.
6. Famílias que produzem
em lotes e comercializam
por meio de associações
Processam alimentos (farinha, panificados, doces etc.)
individualmente, mas vendem em conjunto para o Programa de
Aquisição de Alimentos (PAA), via associações locais
Boa Vista II / Recanto Sonhado,
Nossa Senhora Guadalupe
Fonte: Autores
Essa pluralidade de formatos organizativos revela a capacidade adaptativa dos assentamentos diante
das condições locais e das políticas públicas disponíveis. Em síntese, os grupos produtivos constituem
núcleos de inovação social, capazes de fortalecer as famílias e sustentar alternativas concretas de permanência
no campo.
4.3.
Composição dos grupos produtivos
Em relação à composição dos grupos produtivos, 72% (26 grupos) são formados por homens e
mulheres que processam e/ou beneficiam os alimentos nos assentamentos, enquanto em 28% (10) dos grupos,
apenas mulheres trabalham na atividade, ou seja, elas são responsáveis por todas as etapas, até à
comercialização dos produtos, sendo que a participação dos homens se dá esporadicamente ou em algumas
etapas de produção. Algumas pesquisas têm revelado situações em que as mulheres estão à frente das
agroindústrias familiares (Lutke & Costa, 2019; Paixão & Nogueira, 2019; Silva et al., 2016), assumindo um
papel importante para o desenvolvimento da comunidade assentada, como a diversificação da renda familiar,
maior qualidade de vida e menor impacto ambiental.
Esses efeitos positivos também foram vistos com o grupo de mulheres Roseli Nunes, que substituiu a
atividade insalubre de produção de carvão vegetal por processamento de panificados no Assentamento José
Dias, em Inácio Martins/PR, incrementando significativamente a renda e o bem-estar de toda a comunidade
envolvida (Novak & Soares, 2020). Também, o estudo realizado por Nascimento et al. (2022) na
agroindústria Mãos na Massa, em Nova Santa Rita (RS), revela o protagonismo das mulheres assentadas no
processamento e comercialização de alimentos como um marco de fortalecimento do trabalho coletivo e
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