Finisterra, LXI (131), 2026, e44567  
ISSN: 0430-5027  
doi: 10.18055/Finis44567  
Artigo de Investigação  
AGROINDUSTRIALIZAÇÃO COLETIVA DE ALIMENTOS NO CERRADO  
GOIANO, BRASIL:  
DINÂMICAS PRODUTIVAS EM ASSENTAMENTOS DA REFORMA AGRÁRIA  
JANICE MORAIS OLIVEIRA  
FABIANA THOMÉ DA CRUZ  
1
RESUMO Em meio às contradições que marcam a reforma agrária brasileira, emergem experiências coletivas nos  
assentamentos de reforma agrária, ainda pouco visibilizadas. Este artigo analisa grupos produtivos voltados ao processamento  
de alimentos em assentamentos sob a jurisdição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) em Goiás,  
buscando identificar o que produzem, como comercializam e de que maneira criam alternativas de geração de renda. A partir  
de uma investigação quantitativa-qualitativa, foram mapeados 36 grupos ativos em 34 assentamentos, de um total de 297. Estes  
36 grupos desenvolvem atividades contínuas de processamento de alimentos para comercialização, sendo que 34 deles (94%)  
aproveitam a matéria-prima produzida nos lotes. Dentre os alimentos processados, destacam-se: mel, panificados, doces  
artesanais e derivados da mandioca. Predominam canais informais de comercialização, mas os mercados institucionais, como  
o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) sustentam grupos mais  
estruturados. Fundamentadas na multifuncionalidade, cooperação e no vínculo com o território, essas experiências apontam  
para um relevante potencial de fortalecimento socioeconómico das famílias assentadas por meio do trabalho coletivo, mas  
ainda condicionado à melhoria da infraestrutura, ao suporte técnico contínuo e à estabilidade das políticas públicas.  
Palavras-chave: Organização produtiva; processamento de alimentos; políticas públicas; agregação de valor;  
desenvolvimento territorial.  
ABSTRACT COLLECTIVE AGRO-INDUSTRIALIZATION OF FOOD IN THE GOIANO CERRADO, BRAZIL:  
PRODUCTIVE DYNAMICS IN AGRARIAN REFORM SETTLEMENTS. Among the contradictions that mark Brazilian  
agrarian reform, collective experiences are emerging in agrarian reform settlements, which are still largely invisible. This article  
analyzes productive groups focused on food processing in settlements under the jurisdiction of the National Institute of  
Colonization and Agrarian Reform (INCRA) in Goiás, seeking to identify what they produce, how they market their products,  
and how they create alternative sources of income. Based on a quantitative-qualitative investigation, 36 active groups were  
mapped in 34 settlements, out of a total of 297. These groups engage in continuous food-processing activities for commercial  
purposes, with 34 groups (94%) using raw materials produced on their own settlement plots. The most notable processed foods  
are honey, baked goods, handmade sweets, and cassava derivatives. Informal marketing channels predominate, but institutional  
markets, such as the Food Acquisition Program (PAA) and the National School Feeding Program (PNAE), support more  
structured groups. Based on multifunctionality, cooperation, and ties to the territory, these experiences point to significant  
potential for the socioeconomic strengthening of settled families through collective work, but this is still conditional on  
infrastructure improvements, ongoing technical support, and stable public policies.  
Keywords: Productive organization; food processing; public policies; value addition; territorial development.  
DESTAQUES  
Todos os assentamentos do INCRA em Goiás foram investigados no presente estudo.  
A agroindustrialização é um eixo da multifuncionalidade da agricultura familiar.  
Atividades produtivas coletivas promovem inclusão social de mulheres e jovens.  
A reforma agrária é instrumento de inclusão produtiva e dinamização socioeconómica.  
Há convergência entre multifuncionalidade, reforma agrária e enfoque territorial.  
Recebido: 14/12/2025. Aceite: 05/06/2026. Publicado: 23/07/2026.  
Janice Morais Oliveira: janmorais2001@gmail.com  
1 Setor de Desenvolvimento Rural, Escola de Agronomia, Universidade Federal de Goiás (UFG), Av. João Leite, nº 1520 Setor Santa Genoveva [INCRA],  
Goiânia, Brasil.  
Published under the terms and conditions of an Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International license.  
 
Oliveira, J. M., Cruz. F. T. Finisterra, LXI(131), 2026, e44567  
1.  
INTRODUÇÃO  
Nos assentamentos de reforma agrária, a vida no campo constrói-se a partir de múltiplas estratégias  
de trabalho e de organização socioprodutiva, que buscam integrar a produção familiar e coletiva em torno do  
uso dos recursos locais, da cooperação entre as famílias e da valorização dos alimentos como expressão de  
cultura e identidade das populações do campo.  
A partir do reconhecimento do território como espaço de vida, surgem experiências coletivas de  
produção e processamento de alimentos como ferramentas de resistência, inovação social e geração de renda.  
Quando conduzidas pelas mulheres, essas práticas reafirmam seu protagonismo na preservação dos saberes  
alimentares e na promoção da segurança alimentar e nutricional nos territórios rurais (Sales et al., 2019).  
Conforme destacam Maluf (2004) e Bonnal et al. (2008), a transformação dos alimentos possibilita  
que as famílias se apropriem de uma parcela maior do valor final dos produtos e, simultaneamente, fortaleçam  
o tecido social e cultural dos territórios onde vivem.  
Nesse sentido, a agroindustrialização materializa a multifuncionalidade da agricultura familiar, pois  
combina geração de renda, preservação de saberes e fortalecimento das dinâmicas territoriais. O conceito de  
multifuncionalidade amplia a compreensão do papel da agricultura familiar no meio rural, ao superar a visão  
estritamente produtiva e incorporar também funções sociais, culturais e ambientais.  
Considerando, portanto, a agroindustrialização como uma atividade que diversifica e amplia as fontes  
de renda das famílias assentadas e reconhecendo a importância das organizações coletivas para o  
desenvolvimento social das comunidades, investigou-se como tais experiências ocorrem nos assentamentos  
de Goiás. Assim, este estudo procurou responder à seguinte pergunta de pesquisa: “Quais assentamentos sob  
a jurisdição do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária em Goiás (INCRA/Goiás) possuem  
unidades coletivas de processamento de alimentos destinadas à comercialização e de que modo essa atividade  
é conduzida pelas famílias assentadas?”  
Para responder a esta questão, o objetivo do presente estudo foi: mapear, caracterizar e analisar as  
organizações produtivas que atuam no processamento e comercialização de alimentos em assentamentos de  
reforma agrária sob a jurisdição do INCRA/Goiás, identificando as múltiplas formas de organização coletiva  
e analisando suas estratégias de comercialização, produção e as dinâmicas específicas, relacionadas à  
agroindustrialização.  
Além desta introdução, o presente artigo está estruturado em quatro secções. A próxima secção  
apresenta o referencial teórico, que discorre sobre os assentamentos da reforma agrária do INCRA em Goiás,  
a agroindustrialização dos alimentos pela agricultura familiar, os grupos produtivos nos assentamentos e seus  
canais de comercialização e, ainda, as contribuições da reforma agrária para o desenvolvimento territorial.  
Em seguida, detalha-se metodologia utilizada para identificar os grupos produtivos entre os assentamentos  
investigados. Na secção de resultados e discussão, apresenta-se a análise dos dados provenientes dos  
questionários respondidos. Por fim, tem-se as considerações finais, onde são apresentados os principais  
achados da pesquisa.  
2.  
REFERENCIAL TEÓRICO  
2.1.  
Assentamentos da Reforma Agrária sob a jurisdição do INCRA em Goiás  
O INCRA é o órgão federal responsável pela execução da Política Nacional de Reforma Agrária no  
Brasil. Em Goiás, ele se divide em duas superintendências: INCRA/Distrito Federal, responsável pelos  
assentamentos do Entorno do Distrito Federal e Nordeste Goiano, e o INCRA/Goiás, foco deste estudo. Sob  
a jurisdição do INCRA/Goiás, são 306 assentamentos distribuídos em 80 municípios, onde vivem  
aproximadamente 14 mil famílias assentadas. Destas, aproximadamente seis mil já receberam os seus títulos  
de domínio (INCRA, 2025), que é a etapa conclusiva do processo de reforma agrária, o qual garante a posse  
definitiva da terra e o acesso a outras políticas de crédito rural (República Federativa do Brasil, 2019). Antes  
desta etapa, outros créditos específicos são disponibilizados para os assentamentos.  
A aquisição de imóveis para a reforma agrária em Goiás resulta, em grande parte, da atuação dos  
movimentos sociais de luta pela terra, os quais auxiliam o INCRA na identificação prévia de imóveis rurais  
com possíveis irregularidades fundiárias, trabalhistas ou produtivas. Contudo, a limitação de recursos  
humanos e financeiros reduz a atuação do órgão. Nesse cenário, o mapeamento de práticas produtivas nos  
assentamentos torna-se estratégia fundamental para subsidiar políticas públicas e orientar estratégias de  
desenvolvimento territorial rural.  
De modo geral, as famílias assentadas enfrentam diversos desafios estruturais e organizativos, mesmo  
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após anos de permanência no assentamento: longas distâncias até os centros urbanos, escassez de canais de  
comercialização, inexistência de cadeias produtivas locais, pouca atuação dos municípios, conflitos internos  
e ausência de assistência técnica permanente. Ainda assim, surgem experiências que demonstram a  
capacidade de adaptação e inovação das comunidades assentadas.  
As atividades em agroindústrias de pequeno porte, instaladas no interior dos assentamentos (Eid et al.,  
2015; Nascimento et al., 2022), permitem elevar o valor dos alimentos e diversificar as fontes de renda. Além  
de gerar novas possibilidades económicas, essas iniciativas ampliam o protagonismo de mulheres e jovens  
(Paula, 2023; Spanevello et al., 2019), tradicionalmente subestimados nas dinâmicas produtivas e vistos  
somente como força de trabalho auxiliar.  
No contexto europeu e africano, ainda que não se referindo a assentamentos de reforma agrária,  
estudos como o de Ortiz-Miranda et al. (2022) reforçam que pequenos estabelecimentos voltados ao  
processamento de alimentos são importantes nos sistemas alimentares regionais, especialmente quando o  
processamento de alimentos é realizado na propriedade, quando há inserção dos produtos em circuitos curtos  
de comercialização e, ainda, quando há integração aos territórios.  
A partir da pesquisa, os autores apontam quatro cenários possíveis para esses empreendimentos e,  
ainda que com distinção importante entre as regiões estudadas e entre os cenários identificados, os resultados  
evidenciam que essas agroindústrias são essenciais para a agregação de valor aos alimentos, para o  
abastecimento local e para a diversificação económica.  
2.2.  
Agroindustrialização dos alimentos pela agricultura familiar  
As agroindústrias rurais surgiram na América Latina nos anos 1980 como estratégia de enfrentamento  
da pobreza e de inserção dos pequenos estabelecimentos nos mercados, por meio da agregação de valor aos  
produtos primários (Requier-Desjardins, 1999). No Brasil, embora o Censo Agropecuário de 2017 realizado  
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registe 720 644 estabelecimentos familiares com  
algum tipo de agroindústria (IBGE, 2017a), apenas uma pequena parcela está situada em áreas de reforma  
agrária: 115 644 estabelecimentos, sendo 2 542 em Goiás (Marques, 2021). Esse número, contudo, é  
superestimado, pois o IBGE classifica como agroindústria qualquer processamento rural, sem distinguir se a  
destinação dos produtos é para autoconsumo e/ou comercialização.  
Para esta pesquisa, adotou-se o conceito de Mior (2005), que define agroindústria familiar rural  
também chamada artesanal ou colonial como forma de organização voltada à transformação da produção  
agrícola e/ou pecuária com foco em valor de troca. Bergamasco e Almeida (2009) destacam que essa  
atividade agrega valor desde a seleção até à comercialização dos produtos, ampliando renda e capacidade de  
desenvolvimento. Mesmo quando formalizadas, essas iniciativas preservam forte vínculo cultural, baseado  
em práticas tradicionais e receitas herdadas (Quadros, 2012), elaborando produtos que expressam identidade  
territorial e hábitos alimentares, como sublinham Mior (2003) e Spanevello et al. (2019).  
A comercialização ocorre maioritariamente em circuitos curtos, como feiras e mercados locais (Wesz  
Junior, 2009), mas os programas institucionais, especialmente o Programa Nacional de Alimentação Escolar  
(PNAE), após a Lei 11.947/2009i, ampliaram a inserção de assentamentos e comunidades tradicionais  
(República Federativa do Brasil, 2009). Pesquisas mostram que a agroindustrialização representa um marco  
de amadurecimento das iniciativas económicas pós-conquista da terra (Eid et al., 2015) e constitui alternativa  
relevante para a geração de renda, reprodução social e permanência das famílias (Paula, 2023) e dos jovens  
no campo (Deggerone, 2013; Pelegrini & Gazolla, 2009). Além do valor económico, essa atividade produz  
valor social, expresso na forma como o trabalho familiar se organiza, para elaborar produtos alimentares  
representativos de cada território (Gazolla, 2013).  
No que se refere à comercialização em circuitos curtos, cabe destacar a relevância dessa estratégia  
também no contexto europeu, como evidencia o estudo de Stoeva et al. (2024), realizado em 14 países  
europeus. O artigo, que analisa quatro tipos de relações em circuitos curtos, demonstra que os circuitos curtos  
de comercialização não são um único modelo, mas um conjunto de arranjos organizacionais que funcionam  
como redes colaborativas que geram valor económico e social.  
Porém, em que pesem os aspetos positivos de comercialização em circuitos curtos, algumas  
experiências apontam que pode haver benefícios relacionais negativos, como distribuição desigual do retorno  
financeiro, evidenciando que a qualidade das relações entre os atores é um fator de sucesso importante para  
essas iniciativas.  
Rivera et al., (2020) avaliam a contribuição de pequenas explorações agrícolas (estabelecimentos  
agropecuários) para a produção e a disponibilidade regional de alimentos, considerando diferentes territórios  
e produtos. Esse estudo foi feito por meio de análise comparativa de evidências provenientes de 15 países  
europeus, com foco em produção, comércio e consumo ao nível regional. Os resultados apontam que a  
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contribuição das pequenas explorações para a produção regional está relacionada com a paisagem agrícola.  
Além disso, o estudo aponta que a contribuição dessas explorações para a disponibilidade regional de  
alimentos depende da estrutura das cadeias de suprimento específicas e dos canais de comercialização  
disponíveis para essas explorações, especialmente em relação ao autoconsumo e às vendas diretas aos  
consumidores.  
Embora o contexto de agroindústrias familiares seja distinto no Brasil em relação aos casos estudados  
por Stoeva et al., (2024) e de Rivera et al., (2020), os achados desses estudos contribuem para evidenciar a  
relevância do tema e para aprofundar estudos que podem enriquecer a análise no contexto brasileiro.  
2.3.  
Grupos produtivos nos assentamentos da Reforma Agrária e seus canais de comercialização  
Uma vez caracterizada a agroindustrialização familiar, importa compreender como ela se organiza  
coletivamente nos assentamentos. Diversos formatos de organização coletiva estão presentes nos  
assentamentos rurais, sendo as associações os mais comuns, responsáveis por articular demandas sociais e  
económicas, como acesso a crédito, infraestrutura e políticas públicas.  
Paralelamente, destacam-se os grupos produtivos, formados por famílias que se unem para processar  
ou beneficiar coletivamente alimentos destinados à comercialização em diferentes mercados, muitas vezes  
por meio de pequenas agroindústrias rurais, formais ou informais (Nascimento et al., 2022; Novak & Soares,  
2020; Paixão & Nogueira, 2019; Santana & Lima, 2018; Siliprandi & Cintrão, 2011).  
Os mercados institucionais mostram-se canais estratégicos de comercialização para a agricultura  
familiar assentada, especialmente o PNAE, que favorece a geração de renda, preservação dos hábitos  
alimentares, diversificação produtiva e fortalecimento territorial (Melo & Vieira, 2012; Wesz Junior, 2009).  
Estudos em Goiás, como os de Freitas (2020), Filgueiras (2017) e Monteiro (2019) evidenciam que o apoio  
estatal é decisivo para a participação dos assentamentos nesses programas, embora persistam desafios como  
burocracia e custos de adequação sanitária.  
Paralelamente, os canais curtos de comercialização feiras, vendas a vizinhos, cestas camponesas,  
encomendas e mercados locais desempenham um papel central na inclusão socioprodutiva e na segurança  
alimentar e nutricional (Verano & Medina, 2021). Eles proporcionam preços mais justos, alimentos frescos  
e relações de confiança, além de fortalecerem os laços comunitários e reduzirem a dependência de  
intermediários. Algumas feiras chegam a ocorrer dentro dos próprios assentamentos de Goiás, como em  
Canudos e Santa Marta, organizadas pelas famílias e associações locais (informação verbal)ii.  
Ao diversificarem estratégias de venda, os grupos produtivos desenvolvem a sua capacidade  
organizativa, fortalecem as economias locais e contribuem para sistemas agroalimentares mais sustentáveis  
e democráticos.  
2.4.  
Contribuições da reforma agrária para o desenvolvimento territorial  
Para Cazella et al. (2009), o território é um espaço socialmente construído, formado por dimensões  
materiais como recursos naturais e espaço geográfico e imateriais, relacionadas à identidade, cultura e  
simbolismos. Ele reflete disputas, acordos e estruturas de poder historicamente constituídas, como  
evidenciam comunidades indígenas, quilombolas e assentamentos rurais.  
Por sua vez, o desenvolvimento territorial consiste em um processo endógeno de transformação social  
e económica baseado em saberes locais, vínculos comunitários e cooperação (Cazella et al., 2009),  
dependente da governança participativa e da coordenação entre atores e políticas públicas (Bonnal et al.,  
2012).  
Sob essa perspetiva, a reforma agrária ultrapassa a função de redistribuição fundiária e se transforma  
em instrumento de reconfiguração territorial. O acesso à terra permite a criação de redes produtivas, a  
dinamização económica e o fortalecimento de populações historicamente marginalizadas, desde que  
articulado com políticas estruturantes. Saldanha et al. (2009) mostram que assentamentos sustentados por  
práticas coletivas consolidam novas territorialidades, como observado no norte do Espírito Santo.  
Nesse processo, as organizações sociais rurais sindicatos, cooperativas, associações, movimentos e  
grupos produtivos tornam-se protagonistas na construção de territórios mais autónomos e politicamente  
ativos. Além de garantir representação, promovem educação popular e cadeias produtivas solidárias,  
reforçando a capacidade dos territórios de resistir a pressões externas e planear seu próprio desenvolvimento  
(Cazella et al., 2009).  
A multifuncionalidade da agricultura familiar, conforme Bonnal et al. (2008), expressa as funções  
económicas, sociais, ambientais e culturais da atividade agrícola, que extrapolam a lógica produtivista.  
A reforma agrária, em complemento, potencializa a multifuncionalidade ao democratizar a terra,  
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reforçar práticas agroecológicas, preservar paisagens e valorizar identidades locais. No contexto desta  
pesquisa, os grupos produtivos de processamento de alimentos materializam essa convergência entre  
multifuncionalidade e enfoque territorial.  
3.  
ASPECTOS METODOLÓGICOS  
Trata-se de uma pesquisa de natureza exploratória, pois aborda um fenómeno pouco documentado.  
Não houve aplicação de técnicas de amostragem, visto que o mapeamento dos grupos produtivos abrangeu  
todos os assentamentos rurais administrados pelo INCRA/Goiás. A seleção dos contactos seguiu o princípio  
das redes sociais descrito por Barnes (1987), segundo o qual as relações sociais configuram redes interligadas  
em que indivíduos e grupos estabelecem laços formais e informais, que influenciam o fluxo de informações,  
recursos e oportunidades.  
O estudo concentrou-se nos grupos produtivos permanentes, tanto os compostos por homens e  
mulheres, como os integrados maioritária ou exclusivamente por mulheres, cujas atividades de  
processamento e comercialização ocorrem de forma contínua ao longo do ano ou conforme a disponibilidade  
de matéria-prima.  
As experiências temporárias, voltadas apenas ao fornecimento pontual da produção, não foram  
incluídas na análise. Foram considerados tanto os grupos que realizam coletivamente todas as etapas da  
produção definidos como organização coletiva integral quanto aqueles que compartilham apenas uma ou  
mais fases do processo, como o cultivo, a colheita, o beneficiamento, o processamento e/ou a comercialização  
(organização coletiva parcial).  
Para identificá-los e compreender as suas dinâmicas nos assentamentos rurais de Goiás, foram  
utilizados os seguintes procedimentos e instrumentos metodológicos, detalhados no quadro I.  
Quadro I Procedimentos e instrumentos utilizados para a identificação dos grupos produtivos inseridos nos assentamentos  
rurais sob a jurisdição do INCRA/Goiás.  
Table I Procedures and instruments used to identify productive groups located in rural settlements under the jurisdiction of  
INCRA/Goiás.  
Etapa  
Procedimento  
Instrumento  
Banco de dados público do INCRA  
Levantamento dos assentamentos sob jurisdição do  
INCRA/Goiás  
1
Identificação de contactos locais (intermediários e finais) e da  
existência de grupo produtivo no assentamento  
2
3
Rede social (Whatsapp, ligações)  
Google Forms  
Aplicação de questionário on-line a um membro do grupo  
produtivo  
(dependendo do caso, respondido diretamente pelo membro do grupo ou  
junto com a pesquisadora, durante ligação telefónica)  
4
5
Tabulação e sistematização dos questionários respondidos  
Análise e visualização dos resultados  
Planilha Excel  
Quadros e gráficos descritivos  
Fonte: Autores  
Considerando que este foi um estudo exploratório, o questionário foi construído a partir de evidências  
empíricas e contemplou perguntas exclusivamente voltadas ao perfil dos grupos, como a diversidade de  
alimentos processados, as formas de comercialização, a origem das matérias-primas, a constituição dos  
grupos por género, o número de famílias envolvidas e as suas formas de organização.  
Nesse sentido, como a análise inicial se orientou para a caracterização produtiva dos grupos  
identificados, não foram recolhidos dados sobre o perfil individual dos seus integrantes.  
Ainda, a pesquisa quantificou as atividades coletivas de processamento voltadas à comercialização,  
não abrangendo aquelas destinadas apenas ao autoconsumo (Mior, 2005) ou relacionadas à produção de  
alimentos in natura e de géneros não alimentíciosiii.  
O fluxograma apresentado na figura 1 ilustra os passos metodológicos utilizados neste estudo, que  
conduziram à identificação dos assentamentos do INCRA/Goiás com grupos produtivos que processam  
alimentos.  
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Fig. 1 Fluxograma da metodologia para identificar os grupos produtivos nos assentamentos rurais do INCRA/Goiás.  
Fig. 1 Flowchart of methodology to identify productive groups in INCRA/Goiás rural settlements.  
Fonte: Autores  
Quanto aos requisitos éticos de aplicabilidade de questionários, o termo de consentimento livre e  
esclarecido (TCLE) está em conformidade com a instituição de ensino superior à qual a pesquisa está  
vinculada. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de  
Goiás em março de 2024, sob o protocolo CAAE: 76732923.0.0000.5083.  
4.  
DINÂMICAS PRODUTIVAS NOS ASSENTAMENTOS RURAIS DE GOIÁS  
De maneira geral, as organizações produtivas presentes nos assentamentos de reforma agrária  
constituem um importante passo para o desenvolvimento local. Nesta secção, apresentam-se os resultados  
obtidos a partir dos questionários online, organizados em quatro subsecções, as quais descrevem a  
diversidade organizacional, localização, composição, produtos processados e estratégias de comercialização  
dos grupos identificados.  
Dos 306 assentamentos sob jurisdição do INCRA/Goiás, nove foram excluídos por não terem  
concluído o processo oficial de seleção de famílias, totalizando 297 analisados. Entre eles, foram  
identificados 36 grupos produtivos distribuídos em 34 assentamentos, ativos até ao início de 2024, o que  
representa apenas 11,4% (34) do total. Essa baixa presença de organizações produtivas sugere uma frágil  
inserção dos assentamentos nos mercados formais e informais de alimentos processados e reflete a ausência  
histórica de planeamento orientado ao desenvolvimento rural.  
Como aponta Graziano da Silva (1997), prevaleceu uma visão restrita de reforma agrária centrada na  
expansão agrícola, ignorando dimensões económicas e sociais fundamentais. Apesar de formulada há quase  
três décadas, essa crítica permanece atual, uma vez que muitos assentamentos seguem marginalizados dos  
circuitos económicos, com acesso limitado a mercados, tecnologias e apoio técnico contínuo.  
4.1.  
Panorama geral dos grupos produtivos nos assentamentos de Goiás  
A análise da distribuição dos grupos produtivos identificados nos assentamentos rurais em Goiás,  
permite compreender, tanto a abrangência territorial dessas experiências quanto os desafios estruturais e  
institucionais que limitam sua expansão. Em 2017, o IBGE propôs uma nova regionalização do Brasil,  
baseada em Regiões Geográficas Intermediárias e Imediatas, priorizando as interações socioeconómicas e o  
desenvolvimento regional (IBGE, 2017b).  
A Figura 2 apresenta os 34 assentamentos do INCRA/Goiás, que abrigam os 36 grupos produtivos  
com atividades de processamento e comercialização de alimentos identificados nesta pesquisa. Estes se  
distribuem em nove regiões geográficas imediatas, com destaque para Jataí-Mineiros, responsável por 35%  
(13 grupos) do total. Essa concentração revela o peso das regiões Sudoeste e Sul Goiano, as quais reúnem  
maior densidade de assentamentos e melhores condições logísticas, enquanto o Norte e o Nordeste do estado  
apresentam menor incidência de grupos produtivos, possivelmente reflexo da maior distância dos centros  
urbanos e da escassez de políticas públicas de apoio.  
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0
500 1000 km  
Fig. 2 Assentamentos de reforma agrária no estado de Goiás com presença de grupos produtivos.  
Fig. 2 Agrarian reform settlements in the state of Goiás. with the presence of productive groups.  
Fonte: INCRA (2025)  
Os resultados indicam que os 36 grupos reúnem aproximadamente 346 famílias (2,5%) diretamente  
envolvidas nas atividades coletivas, de um total de 14 mil famílias assentadas em Goiás (INCRA, 2025). Esse  
dado revela o alcance ainda reduzido das experiências de cooperação produtiva, resultado de entraves  
estruturais e institucionais, os quais limitam a expansão dessas iniciativas.  
Essa limitação aparece de forma ainda mais evidente nos relatos dos(as) interlocutores(as). Durante  
os contactos telefónicos realizados na fase exploratória da pesquisa, foram recorrentes as menções à baixa  
coesão entre famílias, dificuldades de reuniões periódicas, distâncias físicas entre os lotes, carência de  
assistência técnica contínua, infraestrutura precária, dificuldade de acesso ao crédito, barreiras sanitárias e  
instabilidade dos mercados institucionais. Esses fatores sugerem que as atividades de processamento e  
comercialização de alimentos ainda permanecem restritas a uma parcela pequena das famílias assentadas em  
Goiás.  
4.2.  
A diversidade organizacional dos grupos produtivos  
Verificou-se que os grupos produtivos se organizam de formas diversas, evidenciando o carácter  
dinâmico e adaptativo das experiências coletivas, assim como as condições específicas de cada assentamento,  
como: infraestrutura disponível, perfil das famílias, acesso a políticas públicas, assistência técnica e crédito.  
Além disso, outros fatores não considerados neste estudo, como proximidade com centros urbanos,  
apoio dos municípios, história de mobilização pela terra, existência de cooperativas na região e oportunidades  
de comercialização local, também podem influenciar a forma como os grupos se estruturam.  
Essa multiplicidade de estratégias demonstra que as atividades podem ocorrer tanto formalizadas, em  
pequenas agroindústrias rurais, quanto por meio de iniciativas informais, sustentadas em redes de vizinhança  
e solidariedade. Moreira et al. (2012), ao analisarem a realidade organizativa de assentamentos na Paraíba,  
concluíram que a forma como as famílias se organizam coletivamente é determinante para o alcance de bons  
resultados socioeconómicos, políticos e culturais. Assim, compreender as especificidades de cada contexto é  
essencial para explicar porque alguns assentamentos consolidam grupos produtivos, associações ou  
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cooperativas, enquanto outros permanecem sem atividades coletivas estruturadas.  
Dos 36 grupos encontrados, apenas dois estão organizados em cooperativas e 13 em associações ou  
possuem apenas a agroindústria formalizada. Esta fornece para mercados de proximidade e formais,  
incluindo os mercados institucionais, seja de forma direta ou por meio de cooperativas. As associações  
possuem um processo de criação juridicamente mais simples do que as cooperativas e são uma forma inicial  
interessante de organização coletiva da produção, gestão e comercialização dos alimentos, auxiliando as  
famílias assentadas no acesso a crédito, assistência técnica, comercialização conjunta, etc.  
Os demais são grupos informais ligados à produção de mel e de “quitandas” (bolos caseiros), doces,  
conservas, cujos canais de venda se restringem às feiras locais, amigos, vizinhos, cestas e por encomenda.  
Há ainda famílias que coletam o baru, fruto nativo do Cerrado, dentro dos assentamentos e fornecem  
diretamente para as cooperativas locais. O quadro II demonstra as estruturas produtivas e formas de  
funcionamento dos grupos encontrados na presente pesquisa. Todos eles se encaixam em um dos seis tipos  
de grupo detalhados abaixo.  
Quadro II - Dinâmicas organizacionais dos 36 grupos produtivos presentes nos assentamentos do INCRA/Goiás.  
Table II - Organizational Dynamics of the 36 Productive Groups Located in INCRA/Goiás Settlements.  
Tipo de grupo  
Estrutura produtiva e forma de funcionamento  
Exemplo de assentamentos  
Produzem e processam alimentos em espaços específicos (casas de  
farinha, panificadoras, casas do mel, unidade de produção de  
conservas e doces), fiscalizados pela vigilância sanitária municipal;  
vendem principalmente a mercados institucionais.  
Jenipapo, Olga Benário, Roberto Martins  
Melo, José Martí, Bacuri, Formiguinha,  
Romulus de Souza Pereira, D. Helder.  
1. Grupos com estrutura  
coletiva formalizada  
Agricultores(as) produzem e transformam alimentos em seus próprios  
lotes (doces, conservas, defumados, panificados, hortaliças) e se unem Santa Fé da Laguna, D. Tomás Balduíno,  
para vender em bancas de feira, cestas camponesas etc.,  
compartilhando logística e renda  
2. Grupos informais com  
processamento nos próprios  
lotes  
Lagoa Seca  
3. Extrativistas de baru e  
outras castanhas  
Famílias coletam e quebram o baru de forma dispersa, mas vendem  
coletivamente para cooperativas regionais, como a Rede ExtratiUni  
São Pedro, Oziel Alves Pereira e Vale do  
Araguaia, Região de Bom Jardim de Goiás  
4. Extrativistas de frutos do  
Cerrado (buriti, babaçu,  
coco, baru)  
Praticam o extrativismo e processam artesanalmente óleos e  
castanhas, comercializando em feiras locais.  
Plínio de Arruda Sampaio, Lagoa Seca  
Cachoeira Bonita, Keno, Lagoa da Serra,  
N.S. Abadia, Morrinhos, Padre Ilgo; D.  
Fernando, Querência, Mata do Baú, S.  
Carlos, Liberdade, Sta Rosa, Sta Marta,  
Gustavo Martins, Rio Araguaia, Canudos  
5. Apicultores organizados  
em rede  
Apiários individuais, mas colheita e beneficiamento coletivos;  
comercialização autônoma ou via cooperativas.  
6. Famílias que produzem  
em lotes e comercializam  
por meio de associações  
Processam alimentos (farinha, panificados, doces etc.)  
individualmente, mas vendem em conjunto para o Programa de  
Aquisição de Alimentos (PAA), via associações locais  
Boa Vista II / Recanto Sonhado,  
Nossa Senhora Guadalupe  
Fonte: Autores  
Essa pluralidade de formatos organizativos revela a capacidade adaptativa dos assentamentos diante  
das condições locais e das políticas públicas disponíveis. Em síntese, os grupos produtivos constituem  
núcleos de inovação social, capazes de fortalecer as famílias e sustentar alternativas concretas de permanência  
no campo.  
4.3.  
Composição dos grupos produtivos  
Em relação à composição dos grupos produtivos, 72% (26 grupos) são formados por homens e  
mulheres que processam e/ou beneficiam os alimentos nos assentamentos, enquanto em 28% (10) dos grupos,  
apenas mulheres trabalham na atividade, ou seja, elas são responsáveis por todas as etapas, até à  
comercialização dos produtos, sendo que a participação dos homens se dá esporadicamente ou em algumas  
etapas de produção. Algumas pesquisas têm revelado situações em que as mulheres estão à frente das  
agroindústrias familiares (Lutke & Costa, 2019; Paixão & Nogueira, 2019; Silva et al., 2016), assumindo um  
papel importante para o desenvolvimento da comunidade assentada, como a diversificação da renda familiar,  
maior qualidade de vida e menor impacto ambiental.  
Esses efeitos positivos também foram vistos com o grupo de mulheres Roseli Nunes, que substituiu a  
atividade insalubre de produção de carvão vegetal por processamento de panificados no Assentamento José  
Dias, em Inácio Martins/PR, incrementando significativamente a renda e o bem-estar de toda a comunidade  
envolvida (Novak & Soares, 2020). Também, o estudo realizado por Nascimento et al. (2022) na  
agroindústria Mãos na Massa, em Nova Santa Rita (RS), revela o protagonismo das mulheres assentadas no  
processamento e comercialização de alimentos como um marco de fortalecimento do trabalho coletivo e  
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inclusão produtiva dessas mulheres, para além do ambiente doméstico.  
A diversidade produtiva observada entre os grupos estudados não se expressa apenas na escala ou no  
volume da produção, mas também na variedade de alimentos transformados, nas origens das matérias-primas  
e nas formas de inserção nos mercados locais. Seguidamente, apresentam-se os principais produtos  
agroindustrializados e os canais de comercialização que sustentam as iniciativas coletivas nos assentamentos  
de Goiás.  
4.4.  
Alimentos agroindustrializados e canais de comercialização  
4.4.1.  
Diversificação produtiva e identidade alimentar local  
Os dados revelam que 34 dos 36 grupos produtivos utilizam como matéria-prima os alimentos  
cultivados nos próprios lotes ou adquiridos a vizinhos e familiares. Essa dinâmica fortalece o sentido  
comunitário, promove certa autossuficiência, além de reduzir custos logísticos e beneficiar as famílias que  
não estão diretamente envolvidas na atividade coletiva.  
Esse resultado corrobora o estudo de Bergamasco e Almeida (2009), que destacaram o uso  
predominante de matérias-primas oriundas dos próprios lotes como elemento estruturante de redes locais de  
comercialização. Tal prática fortalece a (re)inclusão social e económica das famílias direta e indiretamente  
envolvidas no processamento de alimentos e reafirma a importância da produção agrícola local como base  
da agroindustrialização familiar no meio rural.  
A figura 3 apresenta a proporção dos principais alimentos beneficiados e/ou processados pelos 36  
grupos produtivos, demonstrando a riqueza da diversidade alimentar presente nos 34 assentamentos do  
INCRA/Goiás. Destacam-se o mel (16), os panificados (9), os doces (7) e geleias (4), farinha de mandioca  
(6) e polvilho (4), conservas e castanhas (5), além de itens complementares, como: rapadura, castanhas,  
polpas, queijos, requeijão, desidratados, açafrão, bebidas, defumados, óleo de babaçu, óleo de gergelim,  
mandioca descascada e legumes a vácuo.  
Fig. 3 Proporção dos alimentos processados nos 36 grupos produtivos dos assentamentos rurais do INCRA/Goiás.  
Fig. 3 Proportion of Processed Foods among the 36 Productive Groups in INCRA/Goiás Rural Settlements.  
Fonte: Autores  
A diversidade de alimentos processados é expressiva e evidencia o potencial da agricultura familiar e  
sua contribuição para o abastecimento local e a segurança alimentar e nutricional (SAN), além de ressaltar o  
protagonismo das mulheres na preservação dos saberes e as adaptações técnicas incorporadas ao longo do  
tempo.  
Entre as atividades mais consolidadas, a apicultura vem se expandindo em diversos assentamentos por  
demandar pouco investimento inicial e gerar retorno rápido, envolvendo famílias de diferentes faixas etárias.  
Essa atividade tem sido favorecida pelo apoio institucional da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do  
São Francisco e do Parnaíba (CODEVASF), com a doação de kits de apicultura individuais e comunitários,  
possibilitando o início da produção de mel em vários assentamentos.  
De forma alinhada às evidências da presente pesquisa, o estudo conduzido por Silva et al. (2020)  
constatou que o fortalecimento da apicultura no sertão de Alagoas tem promovido renda às famílias  
assentadas, preservação do bioma Caatinga, além de incluir os jovens rurais na atividade. Já a panificação e  
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o beneficiamento da mandioca destacam-se em assentamentos com melhor infraestrutura de processamento,  
permitindo a inserção dos produtos nos mercados proporcionados por compras públicas de alimentos,  
especialmente o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o PNAE, os quais garantem escoamento e  
renda mais estáveis. O processamento da mandioca, presente em dez grupos, seja como farinha, polvilho ou  
in natura, reafirma sua importância cultural e económica, sendo um alimento historicamente cultivado pela  
agricultura familiar goiana (IBGE, 2017a).  
A figura 4 ilustra um exemplo de processamento da mandioca no assentamento José Martí, em  
Niquelândia.  
Fig. 4 Algumas etapas da produção e processamento da mandioca pelo grupo produtivo do assentamento José Martí.  
Fig. 4 Some stages of cassava production and processing by the productive group of the José Martí settlement.  
Fonte: Autores  
Por sua vez, a produção artesanal de doces, conservas e geleias representa um importante elo entre  
tradição e inovação, ressaltando o múltiplo uso das frutas cultivadas nos quintais produtivos e reafirmando a  
identidade alimentar goiana, além de incorporar saberes culinários, tradicionalmente restritos ao ambiente  
doméstico e às dinâmicas de uma atividade económica. O beneficiamento de castanhas, especialmente do  
baru, realizado por cerca de 14% dos grupos, revela o aproveitamento sustentável de recursos nativos do  
Cerrado. Apesar de ser uma alternativa promissora, ainda enfrenta limitações de escala e de mercado, devido  
aos altos custos e às exigências técnicas para agregar valor ao produto.  
Destacou-se também a produção de doces, presentes em sete grupos produtivos. Essa prática artesanal  
possui grande relevância cultural no meio rural goiano, pois, como observa Abdala (2011), os doces  
tradicionais carregam memórias, afetos e modos de fazer transmitidos entre gerações. O que antes era  
destinado ao autoconsumo familiar, hoje representa fonte de renda e valorização do trabalho feminino.  
Essas experiências confirmam o que Mior (2003) descreve como a emergência de “novas convenções”  
de qualidade alimentar, baseadas na origem, no modo artesanal de preparo e no vínculo direto com o  
consumidor, distinguindo os produtos da agricultura familiar daqueles da agroindústria convencional. A  
diversidade produtiva observada nos assentamentos traduz, portanto, a multifuncionalidade da agricultura  
familiar (Cazella et al., 2009), ao articular saberes tradicionais, diversificação económica e fortalecimento  
de identidades territoriais.  
Além disso, os dados apresentados convergem com os achados de Ortiz-Miranda et al. (2022), que,  
ao analisarem experiências de pequenos estabelecimentos de processamento de alimentos na Europa e na  
África, destacam o papel desses empreendimentos no fortalecimento dos sistemas alimentares regionais,  
sobretudo quando inseridos em circuitos curtos de comercialização e articulados com os territórios. Em  
consonância com os resultados observados nos grupos produtivos dos assentamentos de Goiás, esses autores  
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evidenciam que tais agroindústrias desempenham função central não apenas na agregação de valor aos  
alimentos, mas também no abastecimento local e na diversificação económica das famílias envolvidas.  
Por fim, os modos de preparo e as receitas herdadas expressam a memória coletiva das comunidades  
rurais, reafirmando o alimento como elemento cultural e afetivo, para além da dimensão económica (Abdala,  
2011). Nos assentamentos, essa herança se traduz na produção artesanal de doces, pães, farinhas e conservas,  
os quais preservam práticas camponesas e fortalecem o protagonismo das mulheres como guardiãs da cultura  
local (Paula, 2023).  
4.4.2.  
Canais de comercialização e os desafios estruturais  
Os dados da figura 5 revelam que os canais de comercialização, predominantes, dos alimentos  
processados pelos grupos produtivos dos assentamentos do INCRA/Goiás são informais, destacando-se as  
vendas para amigos/vizinhos (26 grupos) e as feiras locais (18 grupos), seguidos por encomendas diretas (8  
grupos) e o PAA (8 grupos). Esses resultados estão em consonância com Verano e Medina (2021), que  
apontam as feiras como os principais espaços de inclusão socioprodutiva da agricultura familiar e de  
fortalecimento dos canais curtos de comercialização em Goiás.  
Fig. 5 Principais canais de comercialização dos 36 grupos produtivos pertencentes aos assentamentos do INCRA/Goiás.  
Fig. 5 Main Marketing Channels of the 36 Productive Groups Located in INCRA/Goiás Settlements.  
Fonte: Autores  
As cestas camponesas, praticadas apenas por dois grupos de mulheres, configuram uma modalidade  
organizada de venda direta, na qual cada agricultora fornece produtos variados e uma representante coordena  
a montagem e entrega dos kits semanais ou quinzenais aos consumidores. Já o mel é comercializado  
principalmente por meio de três principais canais: amigos e vizinhos (16 grupos), seguido das feiras (9  
grupos) e encomendas (5 grupos).  
A formalização sanitária é um dos principais entraves às agroindústrias familiares. A burocracia e os  
custos de adequação dificultam a obtenção de inspeção, sobretudo para produtos de origem animal, como o  
mel, restringindo-os a mercados informais. Mesmo para os de origem vegetal, o cumprimento das normas  
exige apoio técnico e institucional. Como observa Cruz (2020), as regulamentações ainda se baseiam em  
padrões industriais, descompassados da realidade dessas pequenas unidades, o que perpetua a informalidade  
e limita a inserção de agroindústrias familiares rurais em mercados estruturados. Os mercados institucionais,  
em especial o PAA, viabilizam a compra direta de alimentos da agricultura familiar, promovendo a SAN e  
fortalecendo as economias locais por meio da valorização dos alimentos regionais (República Federativa do  
Brasil, 2023). Na presente pesquisa, o PAA destacou-se como o principal canal de escoamento para os  
panificados produzidos nas agroindústrias de sete grupos, confirmando os achados de Bergamasco e Almeida  
(2009) e Grisa et al. (2010) sobre a relação direta entre o programa, o processamento de alimentos e a geração  
de renda na agricultura familiar.  
Contudo, em que pese a importância do programa, o PAA não foi consolidado como uma política  
estrutural e, por anos, enfrentou fortes retrocessos no volume de recursos e burocratização, especialmente  
após o impeachment da presidente Dilma em 2016 (Reis & Thomaz Jr, 2020), sendo retomado e ampliado  
somente a partir de 2023.  
11  
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5.  
CONSIDERAÇÕES FINAIS  
O presente estudo teve como objetivo mapear, caracterizar e analisar as organizações produtivas que  
atuam no processamento e comercialização de alimentos em assentamentos de reforma agrária sob a  
jurisdição do INCRA/Goiás. Os resultados mostram que, apesar das limitações estruturais e institucionais,  
essas iniciativas possuem significativa capacidade de organização social e produtiva das famílias assentadas,  
contribuindo para geração de renda, valorização dos saberes locais e fortalecimento de práticas colaborativas.  
Este trabalho, inédito por investigar a totalidade dos 297 assentamentos de reforma agrária sob a  
jurisdição do INCRA/Goiás , identificou 36 experiências coletivas que transformam matérias-primas locais  
em produtos com valor agregado. O processamento de alimentos emerge como prática de resistência e  
inovação social, articulando dimensões económicas, culturais e ambientais. Esses achados dialogam com a  
multifuncionalidade da agricultura familiar e com a abordagem territorial da reforma agrária, orientada ao  
desenvolvimento rural. O uso de matérias-primas locais, a diversificação produtiva e a autogestão, quando  
articulados com outras políticas públicas existentes, ampliam a inclusão produtiva e as possibilidades de  
sustentação económica nos assentamentos.  
A predominância de alimentos como panificados, doces, mel, castanhas, farinha, polvilho e geleias  
reafirma o protagonismo das mulheres na preservação dos saberes alimentares, na construção da identidade  
territorial e na promoção da segurança alimentar e nutricional. Suas práticas, profundamente vinculadas à  
memória e à cultura camponesa local, fortalecem os vínculos comunitários e melhoram o acesso a diferentes  
mercados, como feiras e programas institucionais.  
As feiras locais confirmam-se como espaços de interação, confiança e circulação de alimentos frescos,  
embora enfrentem desafios estruturais relacionados com a logística e a regulamentação sanitária. Já os  
mercados institucionais, como o PAA e o PNAE, mesmo que sejam políticas sociais que, em maior ou menor  
medida, são suscetíveis a mudanças de cenários políticos no país, mostraram-se estratégicos para a  
consolidação das organizações produtivas, ao proporcionarem maior estabilidade à produção e inclusão  
socioeconómica da agricultura familiar assentada.  
O estudo também mostrou que apenas 11,4% (34) dos assentamentos contam com grupos produtivos  
ativos, indicando a distância entre as necessidades das famílias e a oferta de políticas públicas, infraestrutura  
e assistência técnica. Ainda assim, a existência e resistência dos grupos identificados demonstram que as  
famílias assentadas constroem, com base no apoio mútuo, alternativas concretas de renda e permanência no  
campo. A consolidação dessas iniciativas, entretanto, depende da continuidade e integração de políticas  
públicas que garantam as condições indispensáveis, para que a reforma agrária cumpra seu papel histórico  
de promover desenvolvimento rural com justiça social e sustentabilidade.  
Diante desse conjunto de evidências, observa-se que as experiências de agroindustrialização coletiva  
analisadas não se restringem à geração de renda, mas envolvem as dimensões económicas, sociais e  
territoriais de forma integrada. Ao mesmo tempo, esses resultados convergem com a literatura internacional  
ao evidenciar que pequenos estabelecimentos, quando enraizados nos territórios, desempenham papel  
relevante na segurança alimentar e nutricional e na dinamização das economias locais. A sua contribuição  
está diretamente associada às formas de inserção em circuitos de comercialização mais próximos e às relações  
de cooperação entre os agricultores, que geram benefícios que extrapolam a dimensão económica.  
Conclui-se que a atividade coletiva de transformação dos alimentos, ainda que em pequena escala,  
constitui uma expressão concreta da multifuncionalidade da agricultura familiar nos assentamentos de  
reforma agrária. Ela potencializa o uso sustentável dos recursos locais, amplia a autonomia das famílias e  
fortalece a dimensão social da produção, conectando o trabalho de mulheres e homens assentados às políticas  
de abastecimento e inclusão económica. Essas experiências revelam a diversidade dos formatos  
organizativos, o papel relevante das mulheres e as diferentes estratégias de comercialização. Portanto, o  
presente estudo contribui para o debate sobre a permanência das famílias no campo e para a reflexão sobre  
os efeitos da presença (ou da ausência) das políticas públicas, na construção de alternativas sustentáveis de  
geração de renda e de desenvolvimento territorial.  
i A Lei Nº 15.226, de 30/09/2025 altera a Lei nº 11.947, de 16/06/2009 e amplia para 45% o percentual mínimo para aquisição de gêneros alimentícios  
diretamente da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural no âmbito do PNAE.  
ii  
Informação fornecida pelos assentados dos dois assentamentos em 2024.  
iii  
Informação fornecida pelos assentados dos dois assentamentos em 2024.  
12  
     
Finisterra, LXI (131), 2026, e44567  
ISSN: 0430-5027  
doi: 10.18055/Finis44567  
Artigo de Investigação  
AGRADECIMENTOS  
À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa de pós-graduação  
concedida.  
CONTRIBUTOS DOS AUTORES/AS  
Janice Morais Oliveira: Conceptualização, Metodologia, Validação, Análise formal, Investigação, Recursos,  
Curadoria de dados, Redação preparação do rascunho original, Redação revisão e edição, Visualização,  
Administração do projeto. Fabiana Thomé da Cruz: Conceptualização, Metodologia, Validação, Análise formal,  
Curadoria de dados, Redação revisão e edição, Visualização, Supervisão.  
ORCID  
Janice Morais Oliveira  
Fabiana Thomé da Cruz  
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