Finisterra em Mudança

Desde a sua fundação, em 1966, a Finisterra foi dirigida por prestigiados académicos. A sua dedicação e os padrões científicos exigidos contribuíram para uma publicação ininterrupta, a manutenção de elevadas normas de qualidade científica e tornaram possível que esta se tornasse a revista Portuguesa de Geografia de referência. A tarefa da direção da Finisterra na atualidade apresenta-se, por isso, como uma herança de grande responsabilidade, à qual acresce a complexidade da internacionalização, a sobrevivência na competição das revistas académicas pela captação da produção científica no mundo editorial profissionalizado e o consequente processo de aceleração da publicação.

A qualidade das revistas científicas não é facilmente mensurável, já que os critérios de avaliação têm diferentes propósitos, desde o impacto do conteúdo científico, a indexação em bases de dados, a captação de financiamento da publicação por instituições financiadoras de ciência e tecnologia, o desenvolvimento da coleção, etc. Quanto ao conteúdo, que expressa a relevância da publicação, é valorizada a divulgação de resultados de investigações através de artigos originais, tematicamente relacionados com a missão da revista e que representam contribuições para o avanço do conhecimento. Outros indicadores da qualidade do conteúdo correspondem à dupla revisão por pares (double blind review), ao corpo editorial constituído por investigadores de reconhecida atuação na área científica, respeitabilidade e reconhecimento pelos pares, provenientes de instituições com diversidade nacional e internacional. A periodicidade, a duração, a normalização, o trabalho editorial, a difusão e a indexação são também indicadores de qualidade formal e assumem atualmente um papel preponderante na avaliação das revistas científicas. Como é sabido, o prestígio de uma revista científica é cada vez mais medido por indicadores internacionais (contagem de citações, h index, impact factor, scimago jornal rank, entre outros).

A política editorial da Direção cessante, sob 15 anos de orientação de Maria João Alcoforado, acompanhada por uma equipa de “geometria variável” (ver Finisterra, 2015, nº100. Biografia de uma revista de geografia, Finisterra, pp.9-33), lutou continuamente para preservar o alcançado prestígio da Finisterra (pelos seus antecessores) no mundo cada vez mais competitivo das editoras internacionais que absorveram a produção científica. Captou financiamento para a revista e profissionalizou a sua gestão, com o apoio de sucessivas direções do CEG. Com a sua equipa, procedeu a inúmeras alterações de funcionamento da revista: reestruturação das diversas comissões que compõem os corpos diretivos, executivos e consultivos da Finisterra; criação do editor de secção (que inclui os coordenadores dos núcleos de investigação do CEG), alargamento da rede de consultores, crescimento do número de revisores especializados (anónimos) externos. Sublinhe-se ainda o acesso online livre de todos os textos da revista, desde o seu início, a adesão à plataforma do Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP), através da qual se procede atualmente a todo o processo de gestão/acompanhamento dos textos submetidos (autores, revisores, editores), a diminuição do tempo entre a submissão e a avaliação e posterior publicação de textos, a manutenção do rigor e a transparência dos critérios de publicação, o alargamento do âmbito geográfico dos autores que publicam na revista, sobretudo à América Latina, a integração da revista em bases de dados internacionais e a adoção do identificador de conteúdos (DOI), etc.

Com efeito, e em resultado deste esforço coletivo, espírito de missão e supervisão eficiente, a Finisterra iniciou um processo de internacionalização, como se pode comprovar pelo crescente número de citações dos conteúdos da revista nas bases de dados que efetuam contagens de citações (Scopus, Google Scholar, EBSCO, QUALIS, etc.). Indexar a Finisterra nas principais bases de dados multidisciplinares (Scopus, Scielo, Latindex, Dialnet, DOAJ, CAPES) foi uma meta conseguida. Esse processo de afirmação no mundo editorial científico não está todavia assegurado e terminado.

Falta alcançar o objetivo de ser reconhecida na Web of Science mas a sua reintegração permanente na Scielo (a Thompson Reuters colabora atualmente com a Scielo, através do Scielo Citation Index, integrando-a na Web of Knowledge, e onde se encontra actualmente a Finisterra), é um importante passo dado nessa direcção. É ainda uma prioridade o processo de expansão da sua presença noutras bases de dados online, como também melhorar os indicadores bibliométricos/métricas de desempenho, encurtar os tempos entre a submissão e a publicação dos artigos, captar mais autores reconhecidos no mundo científico. O projeto para o futuro da Finisterra (sem descurar o incentivo à produção científica portuguesa) conta com uma visão eclética, renovadas estratégias de internacionalização, artigos de revisão de autores de reconhecido mérito internacional, estimulando a colaboração internacional nas publicações.

O futuro da Finisterra está comprometido com esta missão de continuidade da expansão do horizonte de autores que comunicam os resultados das suas investigações e simultaneamente de leitores da produção científica, ainda maioritariamente de expressão portuguesa, mas que cada vez mais se estende a outras línguas, como a inglesa. Este compromisso de validação do conhecimento e de canal formal de comunicação e disseminação científica é igualmente importante para a evolução do Centro de Estudos Geográficos.

A direcção e comissão executiva agora renovadas têm como critérios, a paridade de géneros, a integração de doutores das várias áreas científicas da Geografia, a visibilidade científica através de jovens investigadores(as) que publicam e têm experiência de revisão de artigos científicos e, como tal, conhecem o processo de publicação da produção científica segundo os critérios de exigência nos planos internacional e nacional, bem como estão familiarizados com a componente de edição digital, dando vantagem competitiva à Finisterra que (sem descurar a edição em papel) procura um melhor posicionamento no mundo editorial online.

O compromisso da nova equipa para o próximo triénio passará ainda pela publicação de três números por ano, fator indispensável para o aumento da sua visibilidade, e contará com números temáticos respondendo a exigentes critérios de seleção e sem perder a sua característica eclética, comprometendo-se a direção a abrir um call para números temáticos, de acordo com um conjunto de regras pré-definida.

A partir de 2016 a Finisterra estará presente em eventos nacionais e internacionais e instituirá um prémio anual de melhor artigo publicado na revista, selecionado por uma comissão nomeada pelos editores de secção e pela comissão executiva.

Ainda no âmbito da aceleração do processo de difusão, a Finisterra: (i) continuará a marcar presença nas redes sociais, incentivando os autores e leitores a discutir os artigos publicados, continuando a lançar concursos sobre os textos editados e a divulgar eventos relacionados com o mundo editorial; (ii) terá uma página Web onde informações sobre os procedimentos de avaliação de textos e de gestão estarão atualizados e disponíveis, para além de toda a informação já existente e disponível online, (iii) será ainda um objetivo, a divulgação dos textos online em acesso aberto mesmo antes da sua publicação oficial, procedimento apenas permitido através do DOI.

A atual direção da Finisterra compromete-se ainda com a criação de uma Lição Anual a partir de 2016. A Finisterra Annual Lecture Series contará com personalidades proeminentes, convidadas para conduzir o debate sobre assuntos de relevo social e científico na atualidade. Apresentar-se-á como um importante evento do CEG e procurará encorajar a comunidade académica, profissionais e estudantes a encetar um diálogo acerca de assuntos controversos. A publicação da Lição faz parte do processo de expansão da revista.

Lisboa, 31 de março de 2016

Margarida Queirós