Investigando arquivos sonoros coloniais: a escuta compreensiva e partilhada de uma canção popular angolana
DOI:
https://doi.org/10.4000/154s3Palavras-chave:
música cokwe – Angola, arquivos sonoros coloniais, poder, trabalho forçado/contratado, metodologias de investigaçãoResumo
Este artigo recorre à antropologia, etnomusicologia, história, estudos do som e teoria pós-colonial para analisar uma canção cokwe gravada na década de 1950 no nordeste de Angola. A canção Muambuâmbua aborda a deserção do trabalho contratado/forçado colonial, uma prática frequentemente entendida pela historiografia como um ato inequívoco de resistência anticolonial. No entanto, ao analisar esta canção através de uma metodologia que designo “escuta compreensiva e partilhada”, a fuga revela significados que ultrapassam este enquadramento restrito. O estudo articula investigação arquivística com trabalho de campo etnográfico colaborativo e multissituado em Portugal e Angola (2014-2016). A canção é analisada em diálogo com diversas fontes de arquivo e narrativas partilhadas por interlocutores. Esta abordagem mostra como experiências sensíveis, moldadas por relações de poder desiguais não podem ser plenamente compreendidas somente quer através de gravações sonoras, quer de documentos visuais ou escritos. Ao envolver-se com o som por meio de modos alternativos de escuta – tanto do próprio arquivo como das pessoas que habitam as suas histórias –, o artigo expõe camadas ocultas de significado sobre processos de dominação colonial de resistência e agencialidade africanas contribuindo para a reativação descolonial dos arquivos sonoros coloniais.