A ecologia política dos diamantes: VIH/SIDA e os inesperados legados da extração colonial
DOI:
https://doi.org/10.4000/154sePalavras-chave:
HIV-1, emergência viral, tecnologia biomédica, epidemiologia histórica, história socialResumo
O primeiro estudo sobre a prevalência do VIH/SIDA em Angola revelou um dado surpreendente: 14,2% na cidade do Dundo na Lunda-Norte – antigo centro administrativo da Companhia de Diamantes de Angola (Diamang) –, muito acima da média nacional de 2%. Este enigma serve de ponto de partida para questionar os pressupostos de narrativas biomédicas sobre a origem do VIH-1. Explicações centradas em grandes urbes, comércio sexual, transportes mecânicos e coinfeções com doenças sexualmente transmissíveis mostram-se insuficientes para explicar a magnitude e a localização periférica e rural deste surto. A investigação adota uma abordagem interdisciplinar, combinando dados biológicos, epidemiológicos e sócio-históricos. A análise sócio-histórica revela a ausência dos fatores dominantes dessas narrativas: grandes centros urbanos, predomínio masculino, comércio sexual e epidemias venéreas. A empresa incentivava o recrutamento de famílias e o envolvimento laboral de mulheres africanas, contrariando estereótipos coloniais que as associavam ao sexo comercial. O estudo propõe uma nova leitura da disseminação do VIH-1, destacando o papel da biomedicina, em particular de práticas iatrogénicas associadas à indústria extrativa, contribuindo para uma compreensão mais complexa e histórica das epidemias.