Justiça moral, metafísica e natural
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.1998146.04Palavras-chave:
justiça moral, justiça metafísica, justiça naturalResumo
É um desejo natural do homem ver ser feita justiça tanto na história como no plano pessoal. A Tora sugere o carácter operacional dessa justiça nas questões humanas, embora o processo seja, por vezes, lento ou enviesado. Os filósofos, de Anaximandro a al-Farabi e outros, descobrem uma justiça cosmológica nos elementos da natureza - que é quer a base, quer o substituto, da justiça natural na história. Platão e Aristóteles encontram no carácter humano um meio-termo para garantir as promessas que articulam justiça com mérito/demérito: a virtude estimula o êxito e o vício alimenta a fraqueza - debilidade no individual e instabilidade no Estado. A integração, social ou pessoal, é força; a injustiça corresponde ao fracasso da integração. Do ponto de vista bíblico, Balaão não pode amaldiçoar os israelitas migrantes porque a justiça por que se regem, patente no acampamento e visível mesmo ao longe, lhes retira espaço para a dissenção destruidora e a dissolução. Tal como a pomba sobrevive ao dinossauro, também os valores e instituições civilizacionais, bem como as comunidades que vivem em conformidade com esses valores, sobrevivem à extinção dos impérios que equiparam poder a violência e sabedoria a dissimulação pragmática. A justiça metafísica adequa os nossos actos às nossas capacidades, embora nos permita desenvolvê-las. A justiça natural inculca as nossas intenções no nosso carácter, fazendo de nós as vítimas ou os beneficiários das nossas escolhas individuais e das nossas políticas. A justiça moral é a componente da justiça natural a que nós, humanos, recorremos para tentarmos a nossa sorte e o nosso julgamento nas ocorrências que envolvem risco e violência, sempre na esperança de superarmos os veredictos da natureza, mas nunca com a certeza de que não virão a abater-se sobre as nossas próprias faltas inconscientes.

