Tristes trópicos e alegres luso-tropicalismos: das notas de viagem em Lévi-Strauss e Gilberto Freyre
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.1998146.11Resumo
Este artigo pretende abrir uma janela sobre o luso-tropicalismo através da leitura de uma obra menos conhecida de Gilberto Freyre: o livro de viagens Aventura e Rotina (1953). Este é analisado em contraponto com o seu quase contemporâneo Tristes Trópicos, de Claude Lévi-Strauss, também ele feito das reminiscências e reflexões que um antropólogo em viagem se permite fazer e dar a público num formato mais livre do que o da etnografia ou proposta teórica. Através do contraste entre as duas obras, que remetem para uma quase simetria de posições entre os dois autores, tornam-se salientes certas componentes da doutrina luso-tropical: onde Lévi-Strauss se concentra na alteridade como o fundamento e pilar do social, e do real, a proposta de Freyre concentra-se na similitude, que estaria no cerne da especificidade da colonização portuguesa, ou luso-tropical. Aquilo que é outro em Lévi-Strauss aparece como nós em Freyre; se o antropólogo-filósofo francês equaciona distância com alteridade ao «orientalizar» os trópicos, o antropólogo-sociólogo brasileiro tenta anular distâncias e oposições ao «tropicalizar» o mundo; e, já que constata também que essa «tropicalização» do mundo se dá fundamentalmente em português, o autor dedica-se a documentar o processo com exemplos colhidos dos espaços coloniais lusófonos. Fazendo referência a alguns dos aspectos biográficos que explicariam a motivação de Freyre, este artigo pretende sobretudo apontar para a simetria estrutural de posições entre os dois autores e o impacto deste contraste na referência ao tropos «tropical».

