A pesquisa médica, a SIDA e as clivagens da ordem mundial: uma proposta de antropologia da ciência
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.1997140.03Palavras-chave:
processo de produção científica, implicações sociais, investigação científica, construção social da ciência, investigação médica sobre SIDAResumo
Este artigo traça uma proposta de estudo social do processo de produção científica a partir de um encadeado de problemas contemporâneos de carácter global: epidemia da SIDA e as suas múltiplas implicações sociais, as dificuldades encontradas pela medicina para promover uma resposta eficaz e rápida à epidemia, o escrutínio público a que a pesquisa médica ficou, por conseguinte, exposta e ainda o impacto que o movimento social gerou na própria investigação científica. Na discussão será incluída teorização contemporânea sobre a construção social da ciência, cuja literatura será brevemente revista. Situando a investigação médica sobre SIDA entre a imunologia e a pesquisa das origens virais do cancro - que levou à definição de retrovírus humanos, entre os quais veio a identificar-se o agente infeccioso associado à SIDA, o HIV - , faremos referência às interrogações e dificuldades levantadas por esta epidemia e contextualizá-las-emos em questões mais amplas que incluem os limites do actual paradigma de pesquisa médica, as contradições no sistema político internacional, a revisão dos termos da transição epidemiológica associada ao desenvolvimento e o papel fermentador das alianças entre parceiros sociais distintos na criação de novas ideias e estratégias de pesquisa. Desenvolveremos este último aspecto, interrogando-nos sobre a possibilidade de a «globalização» da luta contra a epidemia ter efectivamente promovido as parcerias entre lugares centrais e periféricos no sistema mundial com vista à intensificação da troca de saberes especializados relativamente a infecções e epidemias e à inovação que advém deste tipo de acções colaborativas.

