«Durkheim»: das Regras do Método aos métodos desregrados
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.1995131.01Palavras-chave:
método científico, Durkheim, sociologia hipersocializada, sociologia contemporânea, Regras do MétodoResumo
A sociologia que Durkheim ajudou a criar debatia-se com a necessidade de afirmar um método científico baseado num conjunto de regras que a instituíssem como um domínio do saber independente e consagrado. A autonomia da sociologia foi possível graças a um clima exacerbado de anomia disciplinar que Durkheim ajudou a fomentar para melhor poder criar uma zona de exclusividade sociológica. Foi neste contexto que há cem anos surgiram as Regras do Método. A sociologia que hoje praticamos encerra uma conflitualidade crescente não apenas em relação a outros campos de saber (conflitualidade externa), como também ao próprio nível da sua discursividade (conflitualidade interna). A hipertextualidade do social faz com que a sociologia viva em regime multimétodo. Os interstícios intradisciplinares são preenchidos por especialidades interdisciplinares que se acotovelam mutuamente, gerando uma verdadeira explosão de paradigmas e registos teóricos. As (pro)posições uniformes das Regras do Método deram lugar a (dis)posições multiformes de métodos desregrados. Neste cenário anómico surgem vozes alarmadas com as transgressões metodológicas e anárquicas que invadem o campo da sociologia e reclama-se uma Realpolitik que reunifique e ordene a discursividade sociológica. Resta saber se essa pretensão - fiel às Regras do Método - é compatível com a crescente desinstitucionalização, fragmentação e individualização da vida social. Faz hoje sentido um conhecimento ordenado para melhor dar conta de uma ordem feita desordem? As Regras do Método são regras de uma sociologia hipersocializada. Em contrapartida, a sociologia contemporânea repousa numa concepção hipossocializada do indivíduo, que admite a rebeldia do ser (eidos) frente ao dever ser (ethos). Mas talvez nas Regras possamos encontrar um spirit-children inspirador e reunificador que - sem nos impedir de reciclar as dimensões subjectivas da existência social - nos permita desocultar as dimensões sagradas e ritualizadas do quotidiano e toda a sua força coerciva, interdita e supra-individual (exteriorizada) com que as Regras do Método sempre procuraram caracterizar a realidade social.

