Parentesco por iniciativa: a possibilidade de escolha dos consumidores e as novas tecnologias da reprodução
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.1991114.06Palavras-chave:
relações de parentesco, opções reprodutivas, cultura de iniciativa, fertilidade prescritiva, consumismo prescritivo, comercialização prescritiva, doação de gametasResumo
Outrora as relações de parentesco, tal como a constituição genética das pessoas, não se podiam alterar, pertenciam ao domínio da «natureza», que se considerava imutável. Hoje, graças às novas tecnologias de reprodução, o parentesco está em vias de deixar de ser algo que não se pode alterar, abrem-se novas perspectivas ao nível das opções reprodutivas. As famílias são livres de escolher a forma que irão assumir, o que tem implicações para a forma como as pessoas vêem as suas obrigações e responsabilidades. A ideia de que um filho deve existir por opção está implantada numa matriz que é a cultura de iniciativa. A criança surge como a encarnação do acto de optar. Na «cultura de iniciativa», as opções que se fazem devem ter sempre por finalidade a valorização pessoal. Esta valorização pessoal assume um carácter prescritivo. A fertilidade prescritiva está assim de acordo com o consumismo prescritivo. Ora o consumismo prescritivo estipula que não existe outra opção senão a de fazer sempre uma opção. A sua outra face é a comercialização prescritiva. Urna cultura que considera ter iniciativa tende a reproduzir cada vez mais as tecnologias que lhe permitam comercializar a sua reprodução. O problema que se põe é então o de saber como pode a doação de gâmetas ser pensada como uma dádiva.

