As micropátrias do interior português
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.198798.03Palavras-chave:
Portugal, regionalismo, corrente migratória para Lisboa, aldeiasResumo
Desde os finais do século XIX desenvolveu-se no centro interior do País (em área montanhosa caracterizada por fraca densidade populacional, com os respectivos aglomerados distanciados uns dos outros, embora de povoamento concentrado) uma forte corrente migratória em direcção a Lisboa. Essa corrente demográfica acarretou consequências positivas para a sobrevivência e para um certo desenvolvimento de grande parte das povoações, através de um peculiar e poderoso mecanismo associativo. A aldeia distante tornou-se ponto de referência emocional, ganhando uma representação imaginária que a identifica e caracteriza. Imaginaram-se emblemas e divisas que constituem a base de uma heráldica popular; «nobilitaram-se» as personalidades dos naturais que se ilustram em plano local ou nacional; criaram-se encómios diferenciados que sobrelevam cada lugar em relação a todos os outros numa afirmação competitiva de identidades e de pertenças específicas. Em síntese, reuniram-se condições afectivas e materiais, para que aos olhos dos residentes e dos emigrados cada uma das terras de origem se torne uma pequena mas inconfundível pátria. Cúpula de todas as ideias agregadoras unificadoras, aplicável aos movimentos de menor dimensão e expressão, como às redes federativas do associativismo - a nível concelhio ou distrital -, o regionalismo é um ideal omnipresente, com grande potencial operativo, que conduz à construção da unidade e ao reforço da solidariedade individual e colectiva, entre o conjunto de micropátrias distintas constituído pelas gentes da Serra.

