O Estado Novo perante os poderes periféricos: o governo de Assis Gonçalves em Vila Real (1934-39)
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.198690.04Palavras-chave:
Estado Novo salazarista, processo de implantação, enraizamento socialResumo
Entre os memorialistas do Estado Novo português arreigou-se a tendência para o reduzirem a uma ditadura pessoal violentamente imposta. Recentemente, começou a tentar pensar-se em que medida o Estado Novo salazarista tinha, afinal, na estrutura social portuguesa as suas origens e a razão de ser da sua prolongada duração. Acerca do processo de implantação do Estado Novo nos anos 30 - processo político e social obscuro -, tenta o presente artigo ir na nova direcção. Através dos relatórios dirigidos pelo governador civil de Vila Real, entre 1934 e 1939, ao presidente do Conselho, vê-se como as autoridades estado-novistas asseguraram a imposição da sua ordem política por meio do apaziguamento e do aliciamento das tradicionais famílias de influentes dessa região do interior rural. Se bem que os influentes tenham perdido essa ocasião de negociação com o poder central que eram as eleições, a verdade é que souberam e foram convidados a refazer a sua capacidade de pressão no âmbito do Estado instalando-se nos aparelhos administrativos, políticos ou corporativos. Uma conjuntura mais centralista e repressiva modificou o aspecto e o modo de operar dos poderes periféricos, mas não os suprimiu nem sequer transformou imediatamente o seu enraizamento social. Situação essa que poderá, talvez, explicar o bloqueamento do estado salazarista: para se instalar numa sociedade rural, pobre e oligárquica, o Estado Novo abriu-se aos influentes locais, consagrando assim as dominações tradicionais. A partir daí, tornou-se-lhe impossível tentar ou arriscar qualquer política de mudanças que viesse a afectar as suas cumplicidades sociais com os poderes periféricos.

