«Os fabricantes dos gozos da inteligência» – alguns aspectos da organização do mercado de trabalho intelectual no Portugal de Oitocentos
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.198375.01Palavras-chave:
profissionalização de intectuais, comercialização da literatura, profissão de jornalista, Portugal, século XIXResumo
Ao longo da primeira metade do século XIX começava a desenvolver-se, em Portugal, um lento processo de comercialização da literatura e, simultaneamente, de criação de novas oportunidades de profissionalização para intelectuais. A implantação do regime parlamentar-representativo, suscitando nos grupos político-partidários a necessidade de dispor de órgãos de expressão para consolidar e alargar as respectivas clientelas, contribuiria para criar um novo profissional das letras - o jornalista. Para além disso, a imprensa periódica, em articulação com o incipiente aparelho político-partidário, funciona como ponte para a passagem à função pública. Por sua vez, o surto empresarial no domínio do teatro e da edição concorria para emancipar os intelectuais do mercado tradicional sem, contudo, lhes permitir eximir-se ao exercício da dupla profissão, caracterizada por uma combinatória dominante - a da actividade literária com a carreira burocrático-política, subordinando-se, em regra, a primeira à segunda. A dependência dos intelectuais em geral em relação à esfera da política e a dos intelectuais de periferia relativamente à hegemonia da intelligentsia lisboeta destacavam-se entre os elementos que configuravam as lutas desta categoria social. A conjuntura cabralista favoreceria a formação de uma espécie de frente unida de intelectuais diferentemente situados no leque partidário e na própria hierarquia intelectual, actuando no sentido de procurar garantir a sua autonomia enquanto produtores culturais, o direito ao livre exercício da sua prática específica e a segurança de emprego quando no desempenho dessa prática.

