LUXAÇÕES TARDIAS DO COMPLEXO SACO-LENTE INTRA-OCULAR: ANÁLISE DEMOGRÁFICA, FATORES DE RISCO E ABORDAGEM CIRÚRGICA

  • Bernardo Feijoo Hospital da Luz, Departamento de Oftalmologia
Palavras-chave: luxação de lente intra-ocular, subluxação de lente intra-ocular, cirurgia de catarata, explante de lente intra-ocular, pseudoexfoliação.

Resumo

OBJECTIVOS: Os relatos de luxações tardias espontâneas, parciais ou totais, do complexo saco capsular-lente intraocular (LIO) têm vindo a aumentar. Esta complicação é reportada em média 6.9-10.9 anos após a cirurgia de catarata, em doentes com idades médias entre 71-80 anos. A crescente exigência visual da população, que tem conduzido ao implante de LIOs em indivíduos cada vez mais jovens, tem contribuído para um aumento exponencial da população pseudofáquica. É assim expectável que com o envelhecimento global, possamos vir a assistir a uma prevalência cada vez maior desta complicação. A PEX tem sido reportada como fator de risco mais comum, contribuindo para 40% ou mais dos casos. Não existem para Portugal dados epidemiológicos de complicações com LIOs, nem de prevalência de fatores de risco. O objetivo deste trabalho é caracterizar esta complicação, em termos demográficos, na nossa prática clínica com identificação dos fatores de risco e avaliação das abordagens cirúrgicas utilizadas. 

MATERIAL E MÉTODOS: Estudo retrospetivo que envolveu 4 centros da área da Grande Lisboa. Foram incluídos casos de subluxações tardias do complexo saco-LIO, pelo menos 3 meses após cirurgia de catarata não complicada, com indicação operatória, diagnosticados entre Janeiro de 2015 e Setembro de 2016. Foi calculado o período de tempo decorrido entre a cirurgia de catarata e o diagnóstico da subluxação. Apresentamos os dados demográficos dos doentes, fatores de risco, abordagem cirúrgica, acuidades visuais pré- e pós-operatórias e complicações pós-operatórias.

RESULTADOS: Analisámos 37 olhos de 34 doentes, com idade média de 79.94 anos e predomínio do sexo masculino (73.53%). A subluxação foi diagnosticada em média 9.18 anos depois da cirurgia de catarata. O fator de risco mais frequentemente identificado foi a pseudoexfoliação (67.57%). Na maioria dos doentes operados (92.3%) houve melhoria da acuidade visual corrigida. As abordagens cirúrgicas utilizadas incluíram reposicionamento do complexo com fixação escleral, fixação da lente original à íris, explante do complexo e implante de lente de fixação à iris (pré- ou retro-pupilar), associadas ou não a vitrectomia via pars plana.

CONCLUSÕES: Identificámos um número considerável de casos num período de tempo relativamente curto (20 meses). A pseudoexfoliação foi o fator de risco mais frequentemente identificado e com uma prevalência superior à média reportada na literatura. As técnicas cirúrgicas utilizadas ofereceram bons resultados, em termos de acuidade visual. A caracterização desta patologia é fundamental para compreendermos a fisiopatologia deste processo e identificarmos precocemente doentes em risco, de forma a prevenir e otimizar a abordagem desta grave complicação da cirurgia de catarata moderna.

Publicado
2018-03-01
Secção
Artigos originais