Insónia comportamental numa consulta de sono pediátrica: estudo retrospetivo

  • Rosa Araújo Martins Serviço de Pediatria, Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Lisboa Norte, Centro Académico de Medicina de Lisboa
  • Lia Oliveira Serviço de Pediatria, Centro Hospitalar Lisboa Norte, Centro Académico de Medicina de Lisboa
  • Rosário Ferreira Unidade de Pneumologia Pediátrica, Department of Pediatrics, Hospital de Santa Maria, Centro Hospitalar Lisboa Norte, Centro Académico de Medicina de Lisboa
Palavras-chave: insónia comportamental, crianças, sono

Resumo

Introdução/Objetivo: A insónia comportamental é um distúrbio do sono frequente em idade pediátrica, com repercussões potencialmente negativas na saúde, comportamento e capacidade cognitiva das crianças. O objetivo deste estudo foi caracterizar a população referenciada a uma consulta pediátrica do sono de um hospital terciário por insónia comportamental.
Métodos: Estudo retrospetivo e descritivo baseado na revisão de processos clínicos de doentes seguidos por insónia na referida consulta especializada durante um período de oito anos (2008−2016). Os resultados são apresentados como mediana (mínimo–máximo), média (desvio padrão) e percentagem.
Resultados: No total, 964 crianças foram referenciadas à consulta de sono, 162 (16.8%) das quais por insónia e 137 (14.2%) por insónia comportamental. A maioria (58.4%) era do sexo masculino e a mediana de idades aquando da referenciação foi de 45 meses (5 meses–18 anos). A mediana da hora de deitar foi 22:00 (20:00–4:00), tendo sido frequentes os despertares noturnos, sobretudo em idade pré-escolar. Relativamente às rotinas na hora de deitar, 62% das crianças não adormeciam sozinhas, 48.9% tinham televisão no quarto e 43.1% (11.9% das quais, adolescentes) precisavam de um objeto e 42.3% de luz acesa para adormecer. A maioria (62%) das crianças tinha uma rotina para adormecer, dependente do cuidador em crianças mais novas e de televisão e leitura nos adolescentes. Os sintomas diários mais frequentemente referidos foram sonolência em crianças mais velhas e irritabilidade em crianças mais novas. Relativamente ao tratamento, 29.9% encontrava-se a receber tratamento farmacológico antes da referenciação.
Conclusão: A maioria das crianças neste estudo encontrava-se em idade pré-escolar, a qual constitui uma importante janela de atuação. A hora de deitar tardia, presença de televisão no quarto e dependência dos pais para adormecer foram frequentes, o que revela a necessidade de intervenção na área. Os autores propõem um maior investimento na formação dos profissionais de saúde e cuidadores, de modo a promover a adoção de medidas de higiene do sono adequadas como forma de prevenção.

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Publicado
2020-03-24
Como Citar
Araújo Martins, R., Oliveira, L., & Ferreira, R. (2020). Insónia comportamental numa consulta de sono pediátrica: estudo retrospetivo. NASCER E CRESCER - BIRTH AND GROWTH MEDICAL JOURNAL, 29(1), 9-16. https://doi.org/10.25753/BirthGrowthMJ.v29.i1.15081
Secção
Artigos Originais