Cena de Crime Digital: Potencialidades e Desafios

Autores

  • Filipe T. Moreira ESE, Instituto Politécnico do Porto, Portugal

DOI:

https://doi.org/10.51126/revsalus.v8iSupII.46548

Palavras-chave:

Cena de crime; Digitalização 3D; 3D Forensic Science

Resumo

A documentação tradicional da cena de crime apresenta, entre outros, limitações na reconstrução espacial e temporal. A emergência da 3D Forensic Science [1] propõe a integração de técnicas de digitalização, modelação e animação 3D para melhorar a análise da dinâmica do evento e a comunicação da prova em tribunal, respondendo à crescente complexidade investigativa.

Esta comunicação teve como objetivo sintetizar criticamente a evidência recente sobre digitalização 3D da cena de crime, avaliando: (i) o potencial para evitar o regresso físico ao local; (ii) o contributo para testar hipóteses reconstrutivas; e (iii) o impacto na compreensão da prova por magistrados e jurados.

Para isso foi realizada uma revisão narrativa da literatura (2010–2024) na base Scopus, complementada com referências cruzadas. Incluíram-se estudos de caso com reconstruções 3D da cena [2][3], workflows de fotogrametria automatizada [4] e investigações empíricas com visualizações 3D em contexto judicial [5]. Os trabalhos foram analisados quanto a objetivos, metodologias e principais contributos.

Como resultado, pode-se aferir que os modelos 3D integrados mostraram capacidade para reconstruir trajetórias de projéteis, atropelamentos e eventos complexos, dispensando, por exemplo, novas deslocações ao local [2]. Reconstruções baseadas em documentação fragmentar permitiram excluir versões fisicamente incompatíveis e restringir hipóteses plausíveis [3]. Workflows fotogramétricos automáticos possibilitaram um “virtual return to the scene” com resolução subcentimétrica [4]. Estudos com jurados simulados indicam que flythroughs 3D de nuvens de pontos aumentam a compreensão e retenção da prova de Bloodstain Pattern Analysis sem acréscimo significativo de impacto emocional [5]. Todavia, apesar dos enormes avanços na última década, persistem desafios na validação, na gestão de grandes volumes de dados e no enquadramento ético da aplicação de Artificial Intelligence para, por exemplo, simulações ou análise de grandes quantidades de dados.

A literatura da especialidade demonstra, ainda, que a digitalização 3D ultrapassa a função documental, constituindo uma ferramenta reconstrutiva e comunicacional robusta e de difícil corrupção. Podendo também ser agregadora de outras formas de prova e de mais fácil acesso e exploração comparativa às formas tradicionais. Como exemplo disso salientam-se os estudos analisados que convergem na relevância do 3D para testar hipóteses concorrentes, melhorar a inteligibilidade da prova e permitir revisitações virtuais da cena.

Porém, apesar da evolução assistida nas últimas duas décadas, permanecem lacunas como a ausência de protocolos normalizados, a variabilidade de workflows, e insuficiente avaliação da incerteza, o que leva a que a 3D forsensic science não seja ainda considerada como prova em muitos tribunais.

Concluindo, a digitalização 3D tem potencial para fortalecer a prova pericial e a sua apresentação em tribunal, sobretudo quando articulada com ambientes imersivos, mas no contexto português há ainda a necessidade de avanços (tanto técnicos como de formação e legislação) para sua consideração como sendo verdadeiramente 3D Forensic Science.

Publicado

2026-05-26

Como Citar

T. Moreira, F. (2026). Cena de Crime Digital: Potencialidades e Desafios. RevSALUS - Revista Científica Internacional Da Rede Académica Das Ciências Da Saúde Da Lusofonia – RACS, 8(SupII). https://doi.org/10.51126/revsalus.v8iSupII.46548