A Inteligência Artificial como vetor de integração entre a investigação e a prática pedagógica: emprego da IA nas Ciências Forenses
DOI:
https://doi.org/10.51126/revsalus.v8iSupII.46561Palavras-chave:
Inteligência Artificial; Ciências Forenses; Inovação Pedagógica; Ética DigitalResumo
Introdução
O presente texto resume a apresentação realizada no âmbito do VII Congresso APCF [1]. No cenário atual de constante evolução das Ciências Forenses, a integração de novas propostas tecnológicas na formação académica é quase uma imposição para garantir a excelência e o rigor da prática pericial. Neste contexto, é proposta a exploração do potencial transformador da Inteligência Artificial (IA) como uma ferramenta pedagógica inovadora, alinhada com a missão do congresso de reformular o ensino e a investigação [2][3].
O desafio da fragmentação e a complexidade crescente
A Ciência Forense encontra-se numa encruzilhada, confrontada com uma identidade complexa, rica em oportunidades, mas também em desafios. O problema central reside no modelo fragmentado que historicamente tem gerado silos de conhecimento e um alheamento da atividade pericial de rotina em relação à investigação científica. Esta separação manifesta-se em currículos que demoram a ser atualizados, na dificuldade em simular a complexidade real dos casos e na sobrecarga de informação para estudantes e profissionais. A crescente sofisticação da criminalidade e o volume de dados exigem uma evolução na forma como se aprende e pratica a ciência forense, necessitando de mais do que apenas métodos tradicionais.
A proposta: IA como uma ponte integradora
O pressuposto de base é que a IA não é um substituto, mas sim um parceiro cognitivo e um catalisador da inovação, com impacto nos processos de ensino e aprendizagem, mas também na sala de aula e nas instituições de ensino superior [4]. O recurso à IA promove uma formação mais integrada e harmonizada, fortalecendo a ligação entre a investigação científica e a atividade pericial de rotina. A proposta modela a IA como uma ponte integradora capaz de estabelecer um ciclo de melhoria contínua, onde a Prática informa a Investigação, a Investigação potencia a Formação, e a Formação eleva a Prática. Aproveitando o existente, complexo e sofisticado ecossistema, bem como a capacidade da IA para processar e analisar publicações científicas relevantes, proporciona oportunidades para acelerar a transposição do conhecimento para a prática, quer em espaço, quer em tempo [5].
Aplicações práticas no ensino forense
Estratégias concretas demonstram o papel da IA no ambiente académico, promovendo uma formação mais prática e personalizada:
- Tutoria virtual adaptativa: a IA permite o desenvolvimento de sistemas de tutoria inteligente que se adaptam ao ritmo de aprendizagem de cada aluno, fornecendo exemplos, micro aulas e testes formativos específicos, por exemplo, no ensino da balística.
- Simulações imersivas: a utilização de Realidade Virtual (VR) e Realidade Aumentada (AR) alimentadas por IA pode criar cenários de crime realistas e dinâmicos. Os alunos podem “presenciar” uma cena de crime virtual, onde a IA altera variáveis (como condições meteorológicas que degradam provas, ângulos ou posições de qualquer tipo de objetos ou pessoas envolvidas), forçando-os a adaptar e justificar protocolos em tempo real.
- Assistência à investigação: a IA pode funcionar como um assistente para estudantes e docentes, analisando grandes conjuntos de dados e de artigos científicos. Por exemplo, pode resumir métodos, identificar lacunas e sugerir hipóteses para projetos de investigação (académica ou não), tal como o caso de (auxílio a) uma revisão bibliográfica na toxicologia forense.
- Análise aumentada: os sistemas de IA podem também auxiliar na análise de padrões complexos, como em Lofoscopia (sobrepondo mapas de calor para minúcias), Patologia (assinalando anomalias celulares) ou Documentoscopia (identificando microtremores em assinaturas). O Processamento de Linguagem Natural (NLP) também pode auditar relatórios periciais e registos de cadeia de custódia simulados, fornecendo o feedback imediato sobre dados e informação, oferecendo um aumentando da clareza e do rigor processual.
Salvaguardas éticas e o papel do Perito
Embora a IA possa constituir uma poderosa aliada, a sua utilização exige um forte enquadramento ético e o desenvolvimento de competências críticas. É fundamental debater os desafios e as considerações éticas, salientando a importância de uma implementação criteriosa que complemente, e não substitua, o raciocínio crítico e a experiência humana.
Os principais desafios éticos que se torna incontornável não lidar, incluem:
- Enviesamento nos dados de treino: se a IA for treinada com dados históricos enviesados, pode perpetuar e amplificar injustiças, o que é inaceitável na esfera forense.
- O problema da caixa negra: a IA generativa não se rege por algoritmos auditáveis, mas sim recorre a redes neuronais, o que levanta o problema da explicabilidade (Explainable AI – XAI). A afirmação “O algoritmo sugeriu” não é um testemunho admissível em tribunal (até porque é mais o modelo), exigindo que o perito compreenda e defenda a conclusão assistida pela tecnologia.
O futuro é de inteligência aumentada, não automatizada. A IA deve ser encarada como um microscópio ou um bisturi de precisão, não como o cirurgião, garantindo que o perito forense mantenha sempre o controlo e o poder de decisão final.
Conclusão
A formação forense deve incluir um módulo obrigatório sobre “Ética e Literacia de IA”, capacitando a nova geração a ser utilizadora crítica e consciente da tecnologia. O apelo é dirigido às Academias, Peritos e Associações (como a APCF) para cocriarem o futuro da formação forense, integrando ferramentas de IA, desenvolvendo simulações realistas e a assumir a liderança na criação de diretrizes e de um código de ética robusto para o uso forense da IA.
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