Para a análise das ideologias burguesas. I – Os costumes do «bom-tom»
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.197749.01Palavras-chave:
regras burguesas, saber viver, manual de civilidadeResumo
Para além de uma aprendizagem fundamentalmente inconsciente, realizada a partir da imitação espontânea da acção dos outros, há uma outra forma de aquisição do saber a partir da imitação voluntarista de modelos propostos através de um discurso. No domínio das regras burguesas do «saber viver», à primeira corresponde a «educação pelo mundo» e à segunda, no período ascensional da burguesia, a educação pelo «manual de civilidade». As duas formas de aprendizagem são complementares, mas, em determinadas circunstâncias, uma sobreleva a outra. Assim aconteceu no período ascensional da burguesia, de que este artigo se ocupa, período ao longo do qual se assiste ao predomínio da segunda forma. Na verdade, o «manual de civilidade» vinha suprir as carências de uma burguesia que necessitava, enquanto classe já guindada à situação de dominante, de aprender a apropriar-se do capital simbólico da nobreza, superada que entretanto fora, com maiores ou menores delongas e conflitos, a oposição entre uma e a outra. Todavia, a apropriação desse capital implicou uma reprodução transformada, a qual, a partir da análise efectuada neste artigo a um certo número de «manuais de civilidade», se revestiu fundamentalmente de três formas: circunscrever o simbólico, reservando-lhe tempos e lugares específicos; preservar uma família-refúgio, mau grado as crescentes exigências de vida social mais alargada; alardear um ideal democrático, numa tentativa de harmonizar as aspirações do primeiro momento (burguesia inicial) com as conquistas do segundo (burguesia dominante).
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