Elementos para a história do fascismo nos campos: A «Campanha do Trigo»: 1928-38 (I)
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.197646.06Palavras-chave:
fascismo português, Campanha do Trigo, proteccionismo, 1928-1938Resumo
Como contributo para a história do fascismo português nos campos, estudam-se neste artigo os antecedentes e os aspectos económicos da chamada «Campanha do Trigo», que se desenrolou entre 1928 e 1938. Em artigo posterior, serão analisados os seus aspectos sociais, políticos e ideológicos. A insuficiência da produção cerealífera para satisfazer as necessidades do consumo tem sido uma constante da história agrícola portuguesa. Todavia, nunca houve, até ao século XIX, uma política sistemática tendente a aumentar essa produção. Foi só depois da revolução liberal de 1820 que pela primeira vez se delineou uma política proteccionista em relação ao trigo. Interesses divergentes de distintas fracções das classes dominantes fizeram, porém, oscilar a política entre o proteccionismo e o livre-cambismo - até que em 1899 o primeiro triunfou através duma lei a que a lavoura chamou «lei da riqueza» e as classes populares «lei da fome». A «Campanha do Trigo» representou a restauração desse proteccionismo, acompanhado de medidas (concessão de subsídios e de créditos) destinadas a fomentar directamente o aumento da produção e a auto-suficiência nacional nesse domínio. Aproveitou-se uma situação real de desequilíbrio da balança comercial, parcialmente provocado pela importação de trigo, para legitimar a instauração do proteccionismo. Tradicionalmente, os custos de produção do trigo eram muito elevados, pelo que a produção só poderia crescer ou por efeito duma racionalização global da agricultura ou mediante grandes ajudas financeiras. Foi esta última via que se seguiu durante a «Campanha do Trigo». Das ajudas concedidas, a que teve maior repercussão foi o subsídio aos preços. Mas este não beneficiou igualmente todos os produtores: de facto, reverteu sobretudo em proveito dos grandes produtores do Sul. No entanto, os principais beneficiários, economicamente falando, da «Campanha do Trigo», não terão sido tanto os latifundiários e rendeiros capitalistas do Sul, como sobretudo o grande capital industrial-comercial a montante da actividade agrícola, por um lado, e a usura local por outro lado, podendo todavia esta última confundir-se com a grande burguesia rural latifundiária.
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