A organização do trabalho, o socialismo científico e o socialismo utópico
DOI:
https://doi.org/10.31447/AS00032573.197647.02Palavras-chave:
socialismo marxista, socialismo utópico, socialismo científico, organização do trabalhoResumo
Se a corrente socialista fundada por Marx e Engels reclamou desde o início a qualidade de científica, fê-lo em grande parte com o objectivo de se demarcar dos anteriores socialismos, que qualificou de utópicos. O socialismo marxista propunha-se ultrapassar todos esses socialismos, por meio de uma ascensão histórica e definitiva ao estatuto de ciência. Todavia, os socialismos «utopistas», contrariamente à profecia de Marx e Engels, não desapareceram da cena histórica, nem pelo desenvolvimento do capitalismo e sua polarização de classes, nem ofuscados pelo brilho da superioridade doutrinária do «socialismo científico». O «socialismo utópico» — apontado por Marx e Engels e seus discípulos como mero reflexo do estádio embrionário do proletariado e da fase primária das contradições capitalistas nos começos do século passado — tem na verdade sobrevivido a todas as certidões de óbito que, desde o Manifesto do Partido Comunista, lhe têm sido passadas. A sua sobrevivência mostra que muito daquilo que Marx e Engels pretenderam abranger sob a designação de «socialismo utópico» estava afinal longe de apenas «reflectir» o carácter embrionário da realidade capitalista do início do século XIX. E é assim que o «socialismo utópico», permanentemente renascido e renovado, se tem permitido modernamente submeter o «socialismo científico» e as sociedades que hoje se reclamam da sua realização a uma crítica insistente, corrosiva e n´ão raro certeira. É o que sucede, nomeadamente, nos domínios da organização do trabalho e dos próprios instrumentos da produção, campo estudado neste artigo e onde o actual «socialismo utópico» põe em relevo as ambiguidades e contradições do «socialismo científico» e revela um grande poder imaginativo e uma notável flexibilidade teórica.
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