Uso (In)certo da Fenilefrina no Bloco Operatório

  • Júlio Teixeira Interno de Formação Específica de Anestesiologia, Serviço de Anestesiologia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Coimbra, Portugal. http://orcid.org/0000-0002-0832-7054
  • Maria Rosário Matos Órfão Assistente Graduada Sénior de Anestesiologia, Serviço de Anestesiologia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Coimbra, Portugal.
  • Anabela Azevedo Marques Assistente Hospitalar de Anestesiologia, Serviço de Anestesiologia, Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Coimbra, Portugal
Palavras-chave: Complicações Intraoperatórias; Fenilefrina; Hemodinâmica; Hipotensão

Resumo

A hipotensão no intra-operatório é frequente e pode ser causa de importante morbi-mortalidade. Rotineiramente é tratada com a administração de fluidos ou de vasopressores. Na prática atual, a
fluidoterapia excessiva é indesejável e a manipulação farmacológica a alternativa mais viável. A fenilefrina, como vasoconstritor, é teoricamente indicada nos casos de hipotensão por vasodilatação periférica ou diminuição da atividade simpática. Contudo, pela bradicardia reflexa e aumento do afterload, a perfusão orgânica pode ser prejudicada apesar do aumento da pressão arterial.
O nosso objectivo foi efectuar uma revisão literatura sobre os efeitos hemodinâmicos da fenilefrina na correcção da hipotensão intraoperatória.
Esta revisão narrativa foi efectuada com recurso à base de dados PubMed. Utilizaram-se as seguintes palavras-chave: “phenylephrine”, “cardiac output”, “cerebral oxygenation”, “safety”, “disadvantages”;
“monitorization”. A selecção final foi realizada pelos autores.
A farmacodinâmica da fenilefrina é complexa e há evidência de efeitos contraditórios, sobretudo na oxigenação cerebral e manutenção do débito cardíaco. Muitos estudos comparativos entre a fenilefrina e a efedrina mostram vantagem da última na optimização dos dois parâmetros referidos. Tal diferença diminui quando há a determinação do estado volemico do doente de acordo com a curva de Frank-Starling e este encontra-se na fase ascendente ou plateau. Sempre que se encontrava na fase ascendente a administração da fenilefrina foi benéfica, enquanto na fase de plateau não o foi. Ainda que nenhum estudo relacione directamente oxigenação cerebral e débito cardíaco, muitos sugerem essa relação de dependência direta.
A fenilefrina é eficaz no tratamento da hipotensão. Porém, nem sempre o aumento da pressão arterial está associado à manutenção ou melhoria da perfusão e oxigenação orgânica, sobretudo se a sua utilização for feita sem monitorização adequada. A optimização hemodinâmica goal-directed permitirá melhorar os outcomes.

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Publicado
2019-12-28
Como Citar
Teixeira, J., Órfão, M. R. M., & Marques, A. A. (2019). Uso (In)certo da Fenilefrina no Bloco Operatório. Revista Da Sociedade Portuguesa De Anestesiologia, 28(4), 232 - 237. https://doi.org/10.25751/rspa.18519
Secção
Artigo de Educação Médica Contínua