A renaturalização urbana e regeneração de rios urbanos visando a justiça ambiental em comunidades de baixa renda e racializadas: O caso do Mané Dendê em Salvador (Bahia, Brasil)
Palavras-chave:
renaturalização urbana, justiça ambiental, periferias urbanasResumo
A emergência das mudanças climáticas exige políticas públicas efetivas para a governança dos recursos hídricos em ambientes urbanos, visando a garantia da disponibilidade hídrica nas grandes cidades. O estudo realizado no Mané Dendê, um riacho da bacia do rio do Cobre, localizado em Salvador (Bahia, Brasil), teve como objetivo principal avaliar um processo de renaturalização urbana como uma estratégia de recuperação de cursos d’águas em uma área periférica, de baixa renda e desigual, a partir da instrumentalização de soluções baseadas na natureza e infraestruturas verdes-azuis. Os procedimentos metodológicos foram baseados em pesquisa e análise bibliográfica, levantamento de dados estatísticos e cartográficos, bem como em pesquisas de campo. A bacia do rio do Cobre representa o último reduto hídrico com bons índices de qualidade de água em Salvador, sendo a única exceção o seu tributário Mané Dendê. É evidente a importância e urgência da regeneração desse corpo hídrico, para a garantia da disponibilidade hídrica, o aumento da qualidade de água e a oferta de espaços de lazer à comunidade, majoritariamente de baixa renda e racializada. A dimensão técnica da ação de renaturalização do Mané Dendê foi problematizada através de questões referentes à justiça ambiental. As intervenções do Projeto de Requalificação da bacia do Mané Dendê representam uma obra viária que preza pela interconexão de modais de transportes na cidade e desconsidera o aspecto socioambiental, criando mais áreas impermeabilizadas, removendo zonas de mata ciliar e mantendo o rio principal poluído e canalizado, não atende padrões de sustentabilidade.
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