Vol. 12 N.º 2 (2025): Acesso à justiça e defesa dos direitos – uma introdução
Imagine entrar num tribunal pela primeira vez na sua vida. Sente-se nervoso que tudo está em jogo. Agora, imagine que do outro lado está uma seguradora ou uma agência governamental que já passou por isso centenas de vezes. Esse contraste — entre o que Marc Galanter (1974) chamou de «one-shotter» (quem está nessa situação pela primeira vez) e «repeat player» (quem já passou por isso várias vezes) — é o tema central da sua obra clássica Why the «Haves» Come Out Ahead. Galanter mostrou que os tribunais não operam em condição de igualdade: aqueles que aparecem repetidamente desenvolvem estratégias, cultivam conhecimentos especializados e até moldam as próprias regras, enquanto os indivíduos, que aparecem apenas uma vez, devem arcar com todo o risco de um sistema desconhecido. O resultado não é aleatório, mas estrutural: os jogadores repetidos acumulam vantagens de forma constante, enquanto os jogadores únicos ficam em desvantagem. Mais de quarenta anos após a sua publicação, o argumento de Galanter continua a ressoar: a desigualdade perante os tribunais não se resume simplesmente a quem tem o melhor advogado, mas à forma como as próprias instituições recompensam aqueles que já sabem jogar o jogo.