Os limites do agir ético no dia-a-dia do enfermeiro

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DOI:

https://doi.org/10.48492/servir022.23674

Resumo

INTRODUÇÃO

Considerando uma abordagem progressiva do tema, fazemos um enquadramento filosófico da ideia de limite, situamos a ética e a ética de enfermagem, de modo a abordar, a seguir, a gestão dos limites e a consciência dos limites no agir do enfermeiro.

DESENVOLVIMENTO

Abordamos otema em cinco etapas. Na primeira, Questionamento em torno dos limites aborda o campo semântico, algumas perspetivas teóricas e é sintetizável como a identificação do que caracteriza os limites e o questionamento sobre os limites com alguns autores. Na segunda, Da tripla fórmula do plano ético aos limites partimos da formulação de Ricoeur para alicerçar as perspetivas ética, ontológica e existencial dos limites humanos. Na terceira, Ética de Enfermagem foca-se na fundamentação da dimensão ética da práxis, com centro na dignidade da pessoa, a sua autonomia, o seu contexto situado e associando responsabilidade e respeito pelo Outro, compromisso de cuidado e processo transpessoal e intersubjectivo da acção do enfermeiro. Na quarta, Limites do agir ético, enunciamos um conjunto de elementos, a partir do sentido (ou finalidade) da autoregulação e dos contornos da ação profissional, incluindo a expressão de vontade da pessoa cuidada, o quadro normativo de expressão deontológica,  as  leges  artis,  as  regras  da  arte e do cuidado humano, na transição para a responsabilidade profissional e reconhecendo a relação com a cidadania e direitos humanos. Na quinta, A consciência e a gestão dos limites no agir profissional consideramos os territórios da ação, com diversas geografias e geometrias variáveis, com enfoque nas escolhas difíceis e recusas, limites provenientes dos intervenientes e dos contextos, conferindo espaço à solicitude aos dilemas, a uma “moral da medida”, à reflexão sobre a gestão dos depois (as questões da falibilidade e da falta, sentimento de culpabilidade, do arrependimento e do remorso, assim como da satisfação e da alegria, da estima de Si).

CONCLUSÕES

No global, procuramos os limites do agir ético no dia-a-dia do enfermeiro, com o sentido de agregação das dimensões ética, deontológica, práxica do exercício profissional. Que, pela própria natureza da profissão, estreita laços com questões antropológicas e existenciais.

Referências

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Idem, p. 227.

Cf. Nunes, L. Ética de Enfermagem. Fundamentos e horizontes. Loures: Lusociência, 2011.

Declaração universal sobre bioética e direitos humanos, art.º 5.º- “A autonomia das pessoas no que respeita à tomada de decisões, desde que assumam a respectiva responsabilidade e respeitem a autonomia dos outros, deve ser respeitada. No caso das pessoas incapazes de exercer a sua autonomia, devem ser tomadas medidas especiais para proteger os seus direitos e interesses.”

Phaneuf M. Comunicação, entrevista, relação de ajuda e validação. Loures: Lusodidacta, 2004. p 324.

Nunes L. Justiça, Poder e Responsabilidade. Articulação e mediações nos cuidados de enfermagem. Loures: Lusodidacta, 2005. p. 418.

De entre as teorizações de enfermagem que nos afetam, neste pensamento, reconhecemos a influência de vários autores. Jean Watson, Parse, Hildegard Peplau, Zerad & Paterson, mas também com tom de fundo que ressoa a Colliére. O cuidar como encontro com o Outro e o tecer laços de confiança, afirma Hesbeen. O cuidado transpessoal que inclui a dimensão espiritual, com Watson. O cuidado como reparador e mantenedor, essencial à vida, de Colliére. O cuidado que apela a uma presença de ser autêntico, em que as relações interpessoais se constituem como instrumentos do cuidado, com Peplau. O relacionamento enfermeiro - pessoa e o seu intuito principal que é a qualidade de vida sob a perspetiva da pessoa, conforme Parse.

Sobre o assunto, cf. Renaud M. «Antropologia da morte». Revista Portuguesa de Bioética: Cadernos de Bioética. ISSN: 0874-4696. n.º 40. (2006). 129-142.

Cf. Nunes, et all. Código Deontológico do Enfermeiro: dos comentários à análise de casos. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros, 2005.

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Ordem dos Enfermeiros. Padrões de Qualidade dos Cuidados de Enfermagem. Enquadramento concetual. Lisboa: Ordem dos Enfermeiros, 2001, p. 8.

Idem, p. 9.

Cf. Estatuto da Ordem dos Enfermeiros, artigo 99, nº 3, alínea c).

Colliére, Marie-Françoise- Promover a Vida: da Prática das Mulheres de Virtude aos Cuidados de Enfermagem. Lisboa: SEP, 1989, p. 66.

Cf. Estatuto da Ordem dos Enfermeiros, artigo 99, nº 1.

“L’ex-cession, l’excessif se concentrent dans le nouvement de la proximité à la substituition, c’est-à-dire du souffrir par autri, au souffrir pour autrui. » (Ricouer, P. Autrement. Lecture d’Autrement qu’être ou au-delà de l’essence d’Emmanuel Levinas, Paris: Presses Universitaires de France, 1998, p.23).

Cf. Ética em cuidados paliativos: limites ao investimento curativo. Revista Bioética, v. 16, n. 1, p. 41-50, 2008.

Da Metafísica à Moral (De la Metaphysique à la Morale. Intellectual autobiography of Paul Ricoeur, 1995). Lisboa: Instituto Piaget, 1997, p. 60.

Ricœur coloca três questões: Do que é que sou culpado? Relativamente a quem? Que poderia fazer?.

Descartes, R. As paixões da alma. Art.191.

Espinosa, B.- Ética III, Definição 27.

Montaigne. Ensaios. Do Arrependimento. (Liv. III, Cap. II) “Ninguém mais sabe, senão tu mesmo, se és covarde e cruel, ou leal e devotado. Os outros não te vêem: adivinham-te por conjeturas incertas. Eles vêem não tanto a tua natureza como a tua arte. Pois que assim é, não te atenhas ao julgamento deles: atém-te ao teu.”

Barata, A. Agir por dever e ética formal. Covilhã: Universidade da Beira Interior, 2008. Colecção Artigos LusoSofia.p.18. In http://www.lusosofia.net/textos/barata_andre_agir_por_dever_etica_formal.pdf

Idem, p. 19.

Savater, F. As Perguntas da Vida. Lisboa: Publicações Dom Quixote, pp. 267-275.

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Publicado

2016-04-30

Como Citar

Nunes, L. (2016). Os limites do agir ético no dia-a-dia do enfermeiro. Servir, 59(2), 7–17. https://doi.org/10.48492/servir022.23674