(In)Visibilidades das pessoas ciganas nos manuais escolares em Portugal: Uma história de ausências

Autores

DOI:

https://doi.org/10.21814/rpe.35246

Palavras-chave:

manuais escolares, História, (in)visibilidades

Resumo

Neste trabalho, analisamos os manuais escolares de História em vigor entre os anos de 2019 e 2021, do 5.º ao 12.º ano (da Porto Editora), procurando, em particular, identificar quais as representações veiculadas relativamente às pessoas ciganas. Neste estudo, discutimos como e em que momentos, as pessoas ciganas são referidas nos manuais escolares de História, do 5.º ao 12.º ano, prestando particular atenção à multimodalidade discursiva. Para esta análise multimodal, consideramos a representação visual e textual dos atores sociais, realizando, também, a análise temática dos textos. Tendo realizado a pesquisa por meio de palavras-chave, verificámos que a referência às pessoas ciganas surge apenas nos manuais do 9.º ano e do 12.º, na maioria das vezes, associada à perseguição e ao extermínio de judeus e ciganos no período do nazismo. Neste trabalho, propomos discutir a (in)visibilidade da população cigana nos manuais escolares de História em Portugal e a persistência de uma narrativa que reconhece o racismo contra as pessoas ciganas apenas no quadro do nazismo, sem um aprofundamento que conduza a um debate sobre as consequências da sua exclusão histórica e sobre o seu papel nos processos de resistência e ação.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografias Autor

Isabel Macedo, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal.

Isabel Macedo é Investigadora Auxiliar no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Universidade do Minho. É doutorada em Estudos Culturais, licenciada, e mestre em Ciências da Educação. A sua investigação atual cruza a comunicação intercultural e perspetivas decoloniais para explorar os desafios das migrações contemporâneas e as representações veiculadas pelo cinema. É cocoordenadora do projeto "Migrações, media e ativismos em língua portuguesa: descolonizar paisagens mediáticas e imaginar futuros alternativos" (FCT, 2022-2026) e diretora do Museu Virtual da Lusofonia, uma plataforma de cooperação académica, em ciência, ensino e artes, no espaço dos países de língua oficial portuguesa. Publicou em revistas nacionais e internacionais sobre cinema, interculturalidade, memória, (anti)racismo e educação. Foi coordenadora do Grupo de Trabalho de Comunicação Intercultural da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação (Sopcom; 2018-2022) e é Diretora da Revista Lusófona de Estudos Culturais (com Rita Ribeiro).

Julia Alves Brasil, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal.

Doutorada em Estudos Culturais (Universidade do Minho, Portugal), e mestre e bacharel em Psicologia (Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Brasil). Entre julho de 2018 e março de 2022 fui bolsista de pós-doutorado na UFES/Brasil. Atualmente, sou Professora Assistente na Universidade de Lille/França e investigadora colaboradora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS)/Universidade do Minho, onde sou membro da equipa do projeto "Migrações, media e ativismos em língua portuguesa: descolonizando mediascapes e imaginando futuros alternativos" (MigraMediaActs, FCT, 2022-2025).

Alice Dutra Balbé, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal.

Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, mestre em Ciências da Comunicação com especialização em Informação e Jornalismo pela mesma Universidade e jornalista por formação. É investigadora no Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS), editora da Revista Comunicando (SOPCOM/LABCOM) e coeditora do livro “Portugal e Moçambique. Travessias identitárias e imaginários do passado e do presente” (2022).

Rosa Cabecinhas, Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho, Portugal.

Professora no Departamento de Ciências da Comunicação, Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho e investigadora do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, onde foi diretora do Programa Doutoral em Estudos Culturais na mesma universidade. Tem desenvolvido investigação de natureza interdisciplinar e integra várias associações nacionais e inter- nacionais nas áreas da comunicação, psicologia, educação e estudos culturais. Os seus principais interesses de investigação conjugam as áreas da comunicação intercultural, memória social, representações sociais, identidades sociais e discriminação social. Entre as suas obras, destacam-se os livros “Preto e Branco: A naturalização da discriminação racial” (2017, 2a edição) e, em co-autoria, “Comunicação Intercultural: Perspectivas, Dilemas e Desafios” (2017, 2a edição). Recentemente co-editou um número especial da Revista Comunicação e Sociedade sobre “Comunicação inter- cultural e mediação nas sociedades contemporâneas/ Intercultural communication and mediation in contemporary societies” (2019), um número da Revista Lusófona de Estudos Culturais sobre “Cinema, migrações e diversidade cultural/ Cinema, migrations and cultural diversity” (2019), um número da Revista Vista sobre “(In)visibilidades: Imagem e Racismo” (2020), e o livro “Abrir os gomos do tempo: Conversas sobre cinema em Moçambique” (2022).

Referências

Afonso, I. (2015). O manual escolar em educação histórica: Perspetivas de alunos e professores portugueses do ensino secundário. Diálogos, 19(1), 261–274. https://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/Dialogos/article/view/33812

Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia. (2022). Relatório sobre os direitos fundamentais (2022): Pareceres da FRA. Serviço das Publicações da União Europeia. https://fra.europa.eu/sites/default/files/fra_uploads/fra-2022-fundamental-rights-report-2022-opinions_pt.pdf

Agência dos Direitos Fundamentais da União Europeia. (2023). Roma in 10 European countries—Main results: Roma survey 2021. Serviço das Publicações da União Europeia. https://doi.org/10.2811/221064

Alto Comissariado para as Migrações. (2018). Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas 2013-2022. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Projetos/enicc_pt.pdf

Amaral, C., Alves, B., & Tadeu, T. (2018). Missão: História (9.º ano). Porto Editora.

Araújo, M., & Maeso, S. R. (2010). Explorando o eurocentrismo nos manuais portugueses de História. Estudos de Sociologia, 15(28), 239–270. https://periodicos.fclar.unesp.br/estudos/article/view/2559

Assmann, A. (2010). From collective violence to a common future: Four models for dealing with a traumatic past. In H. G. Silva, A. A. P. Martins, F. V. Guarda & J. M. Sardica (Eds.), Conflict, memory transfers and the reshaping of Europe (pp. 8–23). Cambridge Scholars Publishing.

Balbé, A., Camanho, L., Trindade, E., & Cabecinhas, R. (2022). Representações visuais nos manuais escolares: Uma proposta de análise. In M. L. Martins, A. Balbé, I. Macedo & E. Mabasso (Eds.), Portugal e Moçambique: Travessias identitárias e imaginários do passado e do presente (pp. 129–151). Húmus. https://hdl.handle.net/1822/81191

Balbé, A., Lins, L., & Cabecinhas, R. (2024). “Não tem como a gente fugir do que nos ensinam”: Debates sobre memória pública e educação com estudantes do ensino secundário português. Estudos Ibero-Americanos, 50(1), e45807. https://doi.org/10.15448/1980-864X.2024.1.45807

Braun, V., & Clarke, V. (2022). Thematic analysis: A practical guide. Sage.

Brighenti, A. (2007). Visibility: A category for the social sciences. Current Sociology, 55(3), 323–342. https://doi.org/10.1177/0011392107076079

Cabecinhas, R. (2007). Preto e branco: A naturalização da discriminação racial. Campo das Letras. https://hdl.handle.net/1822/37335

Cabecinhas, R., Balbé, A., Camanho, L., & Cunha, L. (2022). Imagens e miragens do mundo lusófono nos manuais escolares de história portugueses: Visões do passado, presente e futuro. In M. L. Martins, A. Balbé, I. Macedo & E. Mabasso (Eds.), Portugal e Moçambique: Travessias identitárias e imaginários do passado e do presente (pp. 193–220). Húmus. https://hdl.handle.net/1822/81194

Casa-Nova, M. J. (2021). Reflecting on public policies for Portuguese Roma since implementation of the NRIS: Theoretical and practical issues. Journal of Contemporary European Studies, 29(1), 20–32. https://doi.org/10.1080/14782804.2021.1877119

CICDR – Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial. (2021). Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação 2021–2025. Portugal contra o Racismo. https://www.defesa.gov.pt/pt/pdefesa/igen/Documents/Plano-Nacional-Combate-Racismo-e-Discriminacao-2021-2025.pdf

Couto, C. P., & Rosas, M. A. M. (2019). Um novo tempo da História (Parte 1, História A). Porto Editora.

Fejzula, S. (2021). Europa «civilizada» e a sua violência contra o povo Roma. In S. R. Maeso (Ed.), O estado do racismo em Portugal: Racismo antinegro e anticiganismo no direito e nas políticas públicas (pp. 289–300). Tinta da China.

Hadziavdic, H., & Hoffmann, H. (2017). Moving images of exclusion: Persisting tropes in the filmic representation of European Roma. Identities, 24(6), 701–719. https://doi.org/10.1080/1070289X.2017.1380269

Harley, J. B. (1988). Silences and secrecy: The hidden agenda of cartography in early modern Europe. Imago Mundi, 40(1), 57–76. https://doi.org/10.1080/03085698808592639

Ide, T., Kirchheimer, J., & Bentrovato, D. (2018). School textbooks, peace and conflict: An introduction. Global Change, Peace & Security, 30(3), 287–294. https://doi.org/10.1080/14781158.2018.1505717

Jerónimo, P. (2013). “Minorias”. In J. B. Gouveia & F. P. Coutinho (coords.). Enciclopédia da Constituição Portuguesa (pp. 247-248). Lisboa: Quid Juris.

Kelso, M. (2013). ‘And Roma were victims, too’: The Romani genocide and Holocaust education in Romania. Intercultural Education, 24(1-2), 61–78. https://doi.org/10.1080/14675986.2013.768060

Kelso, M., & Eglitis, D. S. (2014). Holocaust commemoration in Romania: Roma and the contested politics of memory and memorialization. Journal of Genocide Research, 16(4), 487–511. https://doi.org/10.1080/14623528.2014.975949

Kende, A., Hadarics, M., Bigazzi, S., Boza, M., Kunst, J. R., Lantos, N. A., Lášticová, B., Minescu, A., Pivetti, M., & Urbiola, A. (2021). The last acceptable prejudice in Europe? Anti-Gypsyism as the obstacle to Roma inclusion. Group Processes & Intergroup Relations, 24(3), 388–410. https://doi.org/10.1177/1368430220907701

Liégeois, J.-P. (2019). Roms et Tsiganes (2e éd.). La Découverte.

Lusa. (2022, 2 de dezembro). Associação cigana congratula-se com “acto de coragem” do Presidente da República. Público. https://www.publico.pt/2022/12/02/politica/noticia/associacao-cigana-congratulase-acto-coragem-presidente-republica-2029961

Macedo, I., Balbé A., & Cabecinhas, R. (2023). Cultura visual, educação e comunicação intercultural: Grupos de discussão com estudantes no ensino secundário português. Educação em Foco, 26(48). https://doi.org/10.36704/eef.v26i48.7145

Macedo, I., Cabecinhas, R., & Balbé, A. (2021). Cinema, interculturalidade e transformação social. In J. A. Santos, L. Camanho, R. Ferreira (Eds.), Caderno MICAR: Contributos para a 8ª edição da Mostra Internacional de Cinema Anti-racista (pp. 10–16). SOS Racismo. https://hdl.handle.net/1822/74369

Maeso, S. R., Araújo, D. P., Coelho, L., & Fejzula, S. (2020). Racismo institucional. In J. Reis (Ed.), Palavras para lá da pandemia: Cem lados de uma crise (p. 87). Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. https://ces.uc.pt/publicacoes/palavras-pandemia/?lang=1&id=30291

Magano, O., & D’ Oliveira, T. (2023). Antigypsyism in Portugal: Expressions of hate and racism in social networks. Social Sciences, 12(9), e511. https://doi.org/10.3390/socsci12090511

Magano, O., & Mendes, M. M. (2021). Structural racism and racialization of Roma/ciganos in Portugal: the case of secondary school students during the COVID-19 pandemic. Social Sciences, 10(6), e203. https://doi.org/10.3390/socsci10060203

Mendes, V. M., & Valentim, J. P. (2012). O luso-tropicalismo nos manuais de História e de Português do ensino primário português no período colonial: Um estudo exploratório. Psicologia e Saber Social, 1(2), 221–231. http://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/psi-sabersocial/article/view/4907

Pimentel, I. F. (2020). Holocausto. Temas e debates.

Powell, R., & Lever, J. (2017). Europe’s perennial ‘outsiders’: A processual approach to Roma stigmatization and ghettoization. Current Sociology, 65(5), 680–699. https://doi.org/10.1177/0011392115594213

Redzepi, N. (2022, 15 de dezembro). Constraints and possibilities of Roma emancipation [Apresentação em seminário]. Seminário internacional “Políticas públicas, conhecimento científico e participação cívica das pessoas ciganas”, Universidade do Minho, Braga, Portugal.

Sakki, I. (2014). Social representations of European integration as narrated by school textbooks in five European nations. International Journal of Intercultural Relations, 43, 35–47. https://doi.org/10.1016/j.ijintrel.2014.08.010

Silva, G. H., & Lucini, M. (2022). Prescrições colonizadoras e sobrevoos possíveis sobre o currículo de História. Revista Práxis Educacional, 18(49), e10499. https://doi.org/10.22481/praxisedu.v18i49.10499

Sironi, A., Bauloz, C., & Emmanuel, M. (Eds.). (2019). Glossary on migration. International Organization for Migration. https://publications.iom.int/system/files/pdf/iml_34_glossary.pdf

Solé, G. (2021). Ensino da História em Portugal: O currículo, programas, manuais escolares e formação docente. El Futuro del Pasado, 12, 21–59. https://doi.org/10.14201/fdp2021122159

Tajfel, H. (1981). Grupos humanos e categorias sociais (L. Amâncio, Trad.; Vol. I). Livros Horizonte.

Tajfel, H. (1983). Grupos humanos e categorias sociais (L. Amâncio, Trad.; Vol. II). Livros Horizonte.

Valentim, J. P., & Miguel, I. (2018). Colonialism in Portuguese History textbooks: A diachronic psychosocial study. In K. Van Nieuwenhuyse & J. P. Valentim (Eds.), The colonial past in History textbooks: Historical and social psychological perspectives (pp. 133–154). Information Age Publishing.

van Leeuwen, T. (2008). The visual representation of social actors. In Discourse and practice: New tools for critical discourse analysis (pp. 136–148). Oxford University Press.

Weninger, C., & Williams, J. P. (2005). Cultural representations of minorities in Hungarian textbooks. Pedagogy, Culture & Society, 13(2), 159–180. https://doi.org/10.1080/14681360500200222

Downloads

Publicado

2026-02-03

Como Citar

Macedo, I., Brasil, J. A., Balbé, A. D., & Cabecinhas, R. (2026). (In)Visibilidades das pessoas ciganas nos manuais escolares em Portugal: Uma história de ausências. Revista Portuguesa De Educação, 39(1), e26005. https://doi.org/10.21814/rpe.35246

Edição

Secção

Artigos