Cannabis sativa em Portugal: potencial de uma fileira de alto valor
DOI:
https://doi.org/10.29352/mill0224e.48592Resumo
Durante décadas, a Cannabis sativa L. foi percecionada quase exclusivamente como uma planta associada ao consumo recreativo, devido à presença do delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), o principal fitocanabinóide responsável pelos seus efeitos psicoativos da planta. Hoje, porém, a ciência, a medicina, a agricultura e a indústria revelam uma realidade muito mais ampla. Esta espécie vegetal apresenta um enorme potencial para aplicações farmacêuticas, alimentares, têxteis, biotecnológicas e ambientais, afirmando-se progressivamente como uma matéria-prima estratégica para a bioeconomia do século XXI.
Quando se fala em canábis, importa distinguir claramente dois universos distintos: a canábis medicinal e o cânhamo industrial. Embora pertençam à mesma espécie botânica, os seus modelos produtivos, enquadramentos legais e cadeias de valor são profundamente distintos. A canábis medicinal destina-se a fins terapêuticos e desenvolve-se sob um rigoroso enquadramento farmacêutico, supervisionado pelo Infarmed. O cultivo exige o cumprimento de normas internacionais de qualidade, como as diretrizes GACP (Good Agricultural and Collection Practices) e GMP (Good Manufacturing Practices), garantindo rastreabilidade, segurança e perfis fitoquímicos consistentes. Trata-se de uma atividade altamente tecnológica, frequentemente baseada em sistemas de Agricultura em Ambiente Controlado (Controlled Environment Agriculture). Já o cânhamo industrial utiliza variedades autorizadas com teor de THC inferior a 0,3%, cultivadas em campo aberto e orientadas para a produção de fibra, sementes e biomassa. O seu valor está ligado à construção sustentável, aos biomateriais, à alimentação funcional, aos bioplásticos, aos têxteis e a múltiplas aplicações ligadas à economia circular. Enquanto o sucesso da canábis medicinal depende da precisão química e da qualidade farmacêutica, o do cânhamo industrial mede-se pela eficiência produtiva e pela capacidade de valorização da biomassa em escala.
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