Violência, parentalidade e saúde mental materna e infantil
DOI:
https://doi.org/10.29352/mill0229.44826Resumo
A parentalidade positiva envolve a habilidade dos cuidadores de responder de forma sensível, consistente e apropriada às necessidades da criança, promovendo vínculos afetivos seguros, oferecendo oportunidades de aprendizagem e assegurando proteção contra diferentes formas de violência e negligência (Altafim et al., 2023). Em contextos nos quais essas habilidades parentais são desafiadas por adversidades, como a violência, os riscos ao bem-estar de cuidadores e crianças tendem a se intensificar.
A violência contra crianças e adolescentes constitui um desafio persistente e global, com repercussões na saúde mental e no desenvolvimento humano, além de estar associada a custos sociais e econômicos relevantes ao longo do ciclo de vida (United Nations, 2025). A America Latina figura entre as mais afetadas pela violência no mundo, com elevados índices de criminalidade, violência urbana e instabilidade social (Institute for Economics & Peace, 2023).
O Brasil, como um dos países mais populosos da região, oferece um panorama relevante para a compreensão das relações entre violência, parentalidade e saúde mental. Evidências provenientes de inquéritos no país e estudos longitudinais indicam que uma parcela expressiva da violência contra crianças ocorre no contexto familiar (Linhares et al., 2023; IBGE, 2022). A pesquisa Primeira Infância para Adultos Saudáveis (PIPAS), realizada em capitais brasileiras, revelou que os cuidadores utilizam práticas parentais negativas com as crianças, como o uso de gritos (33%) e palmadas (35%) (Ministério da Saúde & Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, 2023). Resultados convergentes são observados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, na qual mais de um quarto dos estudantes (27,5%) do 9º ano relataram agressões físicas praticadas por pais, mães ou responsáveis nos 30 dias anteriores à recolha de dados. (IBGE, 2022).
A literatura científica demonstra que a exposição à violência tem impactos na saúde mental e no desenvolvimento infantil. Uma pesquisa verificou maior prevalência de sintomas clínicos de saúde mental entre crianças e adolescentes com histórico de violência (Hildebrand et al., 2019). A violência comunitária, como homicídios ocorridos nas proximidades da residência, esteve associada a pior autorregulação, mais problemas comportamentais e desempenho inferior no desenvolvimento infantil em crianças de 3 anos (McCoy et al., 2024). Em adolescentes, a vivência de bullying, violência escolar e violência comunitária foi associada a maiores níveis de depressão, ansiedade e comportamentos de autoagressão (Quinlan-Davidson et al., 2021). Por outro lado, o apoio social, especialmente o suporte parental, emerge como um fator protetivo capaz de mitigar os efeitos da violência sobre a saúde mental dos jovens (Quinlan-Davidson et al., 2021). Esses achados reforçam a importância de políticas públicas que considerem o território e a segurança como componentes centrais da promoção do desenvolvimento infantil.
Downloads
Referências
Altafim, E.R.P., Souza, M., Teixeira, L., Brum, D., Velho, C. (2023). O Cuidado Integral e a Parentalidade Positiva na Primeira Infância. Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). https://www.unicef.org/brazil/media/23611/file/o-cuidado-integral-e-a-parentalidade-positiva-na-primeira-infancia.pdf
Altafim, E. R. P., Castro, M. C., Rocha, H. A. L., Correia, L. L., de Aquino, C. M., Sampaio, E. G. M., & Machado, M. M. T. (2024). Relationships Between Mental Health, Negative Feelings of COVID-19, and Parenting Among Pregnant Women in Fortaleza, Brazil. Maternal and Child Health Journal, 28(4), 609–616. https://doi.org/10.1007/s10995-023-03807-0
Hildebrand, N. A., Celeri, E. H. R. V., Morcillo, A. M., & Zanolli, M. de L. (2019). Resilience and mental health problems in children and adolescents who have been victims of violence. Revista De Saude Publica, 53, 17. https://doi.org/10.11606/S1518-8787.2019053000391.
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2022). Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar: Análise de indicadores comparáveis dos escolares do 9º ano do ensino fundamental – Municípios das capitais: 2009/2019. IBGE. https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&id=2101955
Knox, M., Burkhart, K., & Khuder, S. A. (2011). Parental hostility and depression as predictors of young children’s aggression and con¬duct problems. Journal of Aggression Maltreatment and Trauma, 20(7), 800–811. https://doi.org/10.1080/10926771.2011.610772
Linhares, M. B. M., Altafim, E. R. P., & Oliveira, R. C. (2023). Estudo nº X: Prevenção de violência contra crianças. Working paper do Núcleo Ciência pela Infância. Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. https://ncpi.org.br/wp-content/uploads/2024/08/Prevencao-de-violencia-contra-criancas.pdf
McCoy, D. C., Dormal, M., Cuartas, J., Carreira dos Santos, A., Fink, G., & Brentani, A. (2024). The acute effects of community violence on young children’s regulatory, behavioral, and developmental outcomes in a low-income urban sample in Brazil. Journal of Child Psychology and Psychiatry, and Allied Disciplines, 65(5), 620–630. https://doi.org/10.1111/jcpp.13799
Ministério da Saúde & Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. (2023). Projeto PIPAS 2022: Indicadores de desenvolvimento infantil integral nas capitais brasileiras. Ministério da Saúde. https://abrir.link/kZVBL
Quinlan-Davidson, M., Kiss, L., Devakumar, D., Cortina-Borja, M., Eisner, M., & Tourinho Peres, M. F. (2021). The role of social support in reducing the impact of violence on adolescents’ mental health in São Paulo, Brazil. PloS One, 16(10), e0258036. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0258036.
Rocha, H. A., Sudfeld, C. R., Leite, Á. J., Rocha, S. G., Machado, M. M., Campos, J. S., Silva, A. C., & Correia, L. L. (2020). Adverse childhood experiences and child development outcomes in Ceará, Brazil: A population-based study. American Journal of Preventive Medicine. https://doi.org/10.1016/j.amepre.2020.08.012
Scherrer, I. R. S., Altafim, E. R. P., Moreira, J. M., & Alves, C. R. L. (2024). Can social support mitigate the negative effects of maternal depression and family environment on child health and maternal care?. Children and Youth Services Review, 157, 107394. https://doi.org/10.1016/j.childyouth.2023.107394
Silva, E. P., Ludermir, A. B., Lima, M. de C., Eickmann, S. H., & Emond, A. (2019). Mental health of children exposed to intimate partner violence against their mother: A longitudinal study from Brazil. Child Abuse & Neglect, 92, 1–11. https://doi.org/10.1016/j.chiabu.2019.03.002.
Trussell, T. M., Ward, W. L., & Conners Edge, N. A. (2018). The Impact of Maternal Depression on Children: A Call for Maternal Depression Screening. Clinical Pediatrics, 57(10), 1137–1147. https://doi.org/10.1177/0009922818769450.
Institute for Economics & Peace. (2023). Global Peace Index 2023: Measuring Peace in a Complex World. Institute for Economics & Peace. https://www.visionofhumanity.org/wp-content/uploads/2023/06/GPI-2023-Web.pdf
United Nations. (2025). Building the investment case for ending violence against children: Toolkit. Office of the Special Representative of the Secretary-General on Violence Against Children. United Nations. https://abrir.link/XFcSl
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Secção
Licença
Direitos de Autor (c) 2026 Millenium - Journal of Education, Technologies, and Health

Este trabalho encontra-se publicado com a Licença Internacional Creative Commons Atribuição 4.0.
Os autores que submetem propostas para esta revista concordam com os seguintes termos:
a) Os artigos são publicados segundo a licença Licença Creative Commons (CC BY 4.0), conformando regime open-access, sem qualquer custo para o autor ou para o leitor;
b) Os autores conservam os direitos de autor e concedem à revista o direito de primeira publicação, permitindo-se a partilha livre do trabalho, desde que seja corretamente atribuída a autoria e publicação inicial nesta revista.
c) Os autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
d) Os autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir o seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publica
Documentos necessários à submissão
Template do artigo (formato editável)

