Violência, parentalidade e saúde mental materna e infantil

Autores

  • Elisa Altafim Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil | LAPREDES - Laboratório de Pesquisa em Prevenção de Problemas de Desenvolvimento e Comportamento da Criança, São Paulo, Brasil | IVEPESP - Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo, São Paulo, Brasil https://orcid.org/0000-0002-5732-0473

DOI:

https://doi.org/10.29352/mill0229.44826

Resumo

A parentalidade positiva envolve a habilidade dos cuidadores de responder de forma sensível, consistente e apropriada às necessidades da criança, promovendo vínculos afetivos seguros, oferecendo oportunidades de aprendizagem e assegurando proteção contra diferentes formas de violência e negligência (Altafim et al., 2023). Em contextos nos quais essas habilidades parentais são desafiadas por adversidades, como a violência, os riscos ao bem-estar de cuidadores e crianças tendem a se intensificar.

A violência contra crianças e adolescentes constitui um desafio persistente e global, com repercussões na saúde mental e no desenvolvimento humano, além de estar associada a custos sociais e econômicos relevantes ao longo do ciclo de vida (United Nations, 2025). A America Latina figura entre as mais afetadas pela violência no mundo, com elevados índices de criminalidade, violência urbana e instabilidade social (Institute for Economics & Peace, 2023).

O Brasil, como um dos países mais populosos da região, oferece um panorama relevante para a compreensão das relações entre violência, parentalidade e saúde mental. Evidências provenientes de inquéritos no país e estudos longitudinais indicam que uma parcela expressiva da violência contra crianças ocorre no contexto familiar (Linhares et al., 2023; IBGE, 2022). A pesquisa Primeira Infância para Adultos Saudáveis (PIPAS), realizada em capitais brasileiras, revelou que os cuidadores  utilizam práticas parentais negativas com as crianças, como o uso de gritos (33%) e palmadas (35%) (Ministério da Saúde & Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, 2023). Resultados convergentes são observados na Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, na qual mais de um quarto dos estudantes (27,5%) do 9º ano relataram agressões físicas praticadas por pais, mães ou responsáveis nos 30 dias anteriores à recolha de dados. (IBGE, 2022).

A literatura científica demonstra que a exposição à violência tem impactos na saúde mental e no desenvolvimento infantil. Uma pesquisa verificou maior prevalência de sintomas clínicos de saúde mental entre crianças e adolescentes com histórico de violência (Hildebrand et al., 2019). A violência comunitária, como homicídios ocorridos nas proximidades da residência, esteve associada a pior autorregulação, mais problemas comportamentais e desempenho inferior no desenvolvimento infantil em crianças de 3 anos (McCoy et al., 2024). Em adolescentes, a vivência de bullying, violência escolar e violência comunitária foi associada a maiores níveis de depressão, ansiedade e comportamentos de autoagressão (Quinlan-Davidson et al., 2021). Por outro lado, o apoio social, especialmente o suporte parental, emerge como um fator protetivo capaz de mitigar os efeitos da violência sobre a saúde mental dos jovens (Quinlan-Davidson et al., 2021). Esses achados reforçam a importância de políticas públicas que considerem o território e a segurança como componentes centrais da promoção do desenvolvimento infantil.

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Referências

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Publicado

2026-01-08

Como Citar

Altafim, E. (2026). Violência, parentalidade e saúde mental materna e infantil. Millenium - Journal of Education, Technologies, and Health, 2(29), e44826. https://doi.org/10.29352/mill0229.44826

Edição

Secção

Editorial