Entre a urgência de salvar e o dever de confortar

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DOI:

https://doi.org/10.29352/mill0223e.47467

Resumo

No contexto pré-hospitalar, cuidar da pessoa vítima de trauma é um exercício que implica decisões rápidas e de cariz urgente, rigor técnico e gestão da incerteza. A prioridade é, naturalmente, salvar vidas, o que implica garantir a permeabilidade e proteção da via aérea, manutenção da respiração, da circulação, controlo hemorrágico, imobilização adequada e transporte seguro (Mota et al., 2021). Contudo, neste cenário de elevada complexidade, há uma dimensão que continua frequentemente subvalorizada: o conforto da pessoa vítima de trauma socorrida no contexto pré-hospitalar.

A vítima de trauma não experiencia apenas uma lesão, experiencia um conjunto de entidades nosológicas como dor, frio, medo, ansiedade, perda de controlo, exposição e desconforto provocado pela imobilização (Mota et al., 2022a). A literatura mostra que, embora a dor aguda seja o desconforto mais referido, outros focos de sofrimento estão presentes e relacionam-se entre si, podendo agravar a perceção da dor e dificultar a prestação de cuidados e eficácia na sua gestão (Mota et al., 2023; Melo et al., 2025).

Esta realidade coloca um desafio conceptual e clínico: nem todo o desconforto deve ser interpretado como dor. Reduzir o sofrimento da vítima a uma única entidade pode dificultar a identificação de fontes específicas de desconforto e limitar a eficácia das intervenções. O desconforto causado pelo frio, pela ansiedade, pelo medo ou pela imobilização exige avaliação própria, ainda que estas manifestações se influenciem mutuamente (Mota et al., 2023).

A Teoria do Conforto de Kolcaba assume-se como um modelo teórico basilar para suportar o cuidado pré-hospitalar, ultrapassando as linhas estreitas de uma resposta exclusivamente biomédica. Ao integrar dimensões físicas, emocionais, espirituais, socioculturais e ambientais, permite compreender o conforto como um resultado sensível aos cuidados, capaz de enriquecer e humanizar o socorro (Melo et al., 2024).

A evidência disponível identifica intervenções farmacológicas e não farmacológicas dirigidas ao alívio do desconforto, incluindo analgesia, medidas de aquecimento, crioterapia, estimulação elétrica nervosa transcutânea, comunicação terapêutica e suporte emocional (Melo et al., 2025). Contudo, persistem lacunas relevantes, nomeadamente a ausência de instrumentos específicos para monitorizar desconfortos não relacionados com a dor e a escassa integração destas intervenções em algoritmos clínicos aplicáveis ao pré-hospitalar (Melo et al., 2024).

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Referências

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Publicado

2026-06-05

Como Citar

Melo, F., Reis Santos, M., & Mota, M. (2026). Entre a urgência de salvar e o dever de confortar. Millenium - Journal of Education, Technologies, and Health, 2(23e), e47467. https://doi.org/10.29352/mill0223e.47467

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Editorial